Crítica

Filme-mosaico

Grande filme-mosaico, fazendo da montagem paralela um "zapping" nervoso e angustiante, o mais recente filme de Paul Thomas Anderson vem tornar evidentes os limites narrativos da sua obra anterior, "Boogie Nights" - demasiado programático para conseguir captar a complexidade de um tempo (a coincidência da estreia do filme de Spike Lee, "Verão Escaldante", acrescenta achas à fogueira), demasiado auto-consciente para se aproximar do ambicionado caos representativo. "Magnólia" repega nos ecos de "Citizen Kane" e, sem procurar nenhum "rosebud" específico (o título, "Magnólia", transforma-se, no entanto, em idêntica referência pretextual), atravessa o tecido social americano como uma flecha mortífera. Embora navegue nas mesmas águas de "Beleza Americana" e do mais modesto "Felicidade", o filme opta por outras elevações: imbuido do espírito religioso do Êxodo, sinalizado nas sequências do concurso televisivo, encena a Décima Primeira Praga de um Egipto moderno, a chuva de sapos, como aviso para a prevalência do Mal. Contíguo aos mundos fragmentários de Raymond Carver ou do melhor Robert Altman (a importância histórica de "Nashville" revela-se cada vez mais incontornável), "Magnólia" possui um fôlego romanesco invulgar, alcançando a grandeza de um enorme fresco, a partir de minúsculas partículas de história, e vem provar que, no contexto do melhor moderno cinema americano, pouco sentido faz opor indústria a cinema independente, de tal modo se criou uma zona de contaminação e de permissão criativas, difícil de limitar. Uma obra-prima absoluta.