Inconscientes, disseram eles

Como foi possível que um empreiteiro tivesse destruído cem metros quadrados de uma necrópole romana na Praça da Figueira antes mesmo de os arqueólogos poderem registá-la? Será que construir um parque de estacionamento no centro da cidade ajuda a resolver os problemas de trânsito? Autarquia, IPA e Ippar ouviram ontem duras críticas de arqueólogos e ambientalistas.

As entidades que têm por missão zelar pelo património - Instituto de Arqueologia e Instituto do Património Arquitectónico - e a Câmara de Lisboa foram ontem apelidadas de "inconscientes" pela Associação Profissional de Arqueólogos e pela associação ambientalista Quercus, numa conferência de imprensa destinada a alertar a opinião pública para os problemas decorrentes da construção de um parque de estacionamento subterrâneo na Praça da Figueira.A opção, por parte do Instituto Português de Arqueologia (IPA), de não preservar os vestígios arqueológicos encontrados durante a escavação - que está a decorrer porque a lei a isso obriga, no caso de obras no subsolo da Baixa pombalina - foi uma das razões da indignação do arqueólogo José Luís de Matos. Até agora foram detectados na Praça da Figueira restos do Hospital de Todos-os-Santos, uma construção do século XV, de um bairro islâmico do século XI e ainda de uma "fabulosa necrópole romana, com estuques pintados nos mausoléus", disse aquele especialista. Como o PÚBLICO noticiou na altura, no início de Junho parte desta necrópole foi destruída pelo empreiteiro encarregue da construção do estacionamento. "Tratou-se daquilo a que eufemisticamente se chamou um acidente", referiu José Luís de Matos. "As máquinas escavaram cem metros quadrados de terreno e alcançaram uma profundidade de 11 a 12 metros". O incidente deu-se poucos dias depois de uma visita das chefias do IPA à escavação.Na opinião de José Luís de Matos, para além de os responsáveis da Câmara de Lisboa não darem grande importância ao IPA, o facto de os directores deste instituto terem mais simpatia pela arqueologia pré-histórica do que pela de épocas mais recentes poderá ajudar a explicar certos problemas. "O IPA tem outras prioridades, o que é compreensível. Possui uma direcção de pré-historiadores muito preocupados com as gravuras de Foz Côa e que têm tratado menos bem escavações como o Alqueva ou a Praça da Figueira". Acusando quer o IPA quer o Instituto Português do Património Arquitectónico (Ippar) de um comportamento "inaceitável" e "autista", o arqueólogo defendeu que os vestígios encontrados na Praça da Figueira deviam estar a ser preservados, e não destruídos após a escavação arqueológica. "Porque a cultura será o petróleo da Europa no século XXI e todos estes vestígios seriam rentabilizáveis do ponto de vista económico", argumentou. "A memória da cidade não pode ser esvaziada de repente por alguém que quer fazer um parque de estacionamento".Outra questão levantada na conferência de imprensa foi a alteração dos níveis freáticos do subsolo por via da construção do estacionamento. Os cursos das duas ribeiras subterrâneas que passam na Praça da Figueira serão obrigados a desviar-se por causa do parque, que poderá constituir uma verdadeira barragem. Corre-se o risco de as águas irem inundar zonas próximas, fez notar José Luís de Matos. "Os prédios vão ficar em risco e as caves cheias de água", avisou. E apresentou como exemplo a construção do túnel do Metropolitano no Terreiro do Paço, que "tem originado inundações dos vestígios arqueológicos da Rua dos Correeiros". Trata-se de um núcleo museológico criado há alguns anos pelo Banco Comercial Português, depois de terem sido detectados vestígios romanos e medievais durante obras nas suas instalações. "O que está a acontecer é a inconsciência total em relação ao património e ao ambiente natural", afirma José Luís de Matos. A Quercus é da mesma opinião. Para Carlos Moura, dirigente daquela organização, a Praça da Figueira devia ser entregue aos peões, tal como foi feito com a Rua Augusta. Em vez disso "está a incentivar-se a vinda de mais automóveis para o centro da cidade com a construção deste parque, agravando o problema de trânsito". "Por outro lado parte dos lugares de estacionamento vão ser comprados por bancos e ficarão vazios. Portanto não resolverão de todo o problema de parqueamento", adiantou o arqueólogo. Para rematar a seguir: "O que aconteceu na Praça da Figueira foi grave e não é remediável. A não ser que nos tivéssemos amarrado às máquinas".