Guterres "on the road"

António Guterres empenhou-se ontem politicamente na construção da Auto-estrada do Sul e da Via do Infante. O ano de 2002 representa o fim dos martírios para os automobilistas e a concretização de sucessivas promessas. O atraso na construção destas obras foram justificados com as questões de natureza ambiental, agora ultrapassadas. Entre os críticos do Governo encontra-se Cavaco Silva, que diz "não perceber" a razão das demoras.

Dentro de dois anos, a Auto-estrada do Sul (A2) e da Via Longitudinal do Algarve (VLA, vulgo Via do Infante) estarão concluídas, sem mais desculpas para as demoras que se têm verificado. A promessa foi deixada, ontem, no Algarve, pelo primeiro-ministro António Guterres, numa acção "on the road" no troço da Guia - Alcantarilha. Acompanhado dos ministros do Planeamento, Jorge Coelho, do Ambiente, José Sócrates, e da Economia e Finanças, Pina Moura e ainda de mais quatro secretários de Estado, o primeiro-ministro anunciou o traçado definitivo dos quatro troços em falta na A2, numa distância de cerca de 90 quilómetros. António Guterres justificou os atrasos na conclusão destas vias com os obstáculos de natureza ambiental que foi necessário ultrapassar para que o Ministério do Ambiente desse a sua concordância aos projectos. Esses problemas foram "minimizados ou encontradas alternativas" e, desta vez, Guterres presidiu à cerimónia de adjudicação das 24 empreitadas que faltam e da assinatura da concessão da estrada, em regime de portagens virtuais, ao consórcio privado que irá construir a VLA até Lagos. Trata-se de um investimento de 43 milhões de contos, no qual o Estado entrará com mais seis milhões. O custo da exploração e manutenção para os próximos 30 anos é de 25 milhões de contos. A inauguração da auto-estrada está prevista para o inicio do Verão de 2002. Encontram-se em construção os troços Grândola Sul/Aljustrel e Aljustrel/Castro Verde, faltando fazer os lanços Castro Verde/Almodôvar, Almodôvar/São Bartolomeu de Messines e São Bartolomeu de Messines/Guia. A maior contestação ocorreu no troço mais a Sul, entre Bartolomeu de Messines e a Via do Infante, porque o traçado atingia sítios integrados na Rede Natura 2000. Por fim foi anunciado que o troço final da A2 não iria afectar o extremo noroeste do barrocal algarvio nem a Ribeira de Quarteira, ambos locais protegidos do ponto de vista ambiental. Quanto à Via do Infante, entre Lagos e Vila Real de Santo António, segundo o primeiro-ministro ficará pronta no final de 2002. Noutras ocasiões, Guterres tinha anunciado os anos de 1999, 2000 e 2001 como metas para a conclusão das obras. Alguns dos autarcas que se deslocaram ao local da cerimónia, o troço da Guia, aproveitaram a presença dos governantes e do presidente do Instituto de Estradas de Portugal, António Lamas, para lembrarem que a VLA, sete anos depois de ter sido aberta ao público, continua sem ter acessos às cidades. Por isso, e apesar de esta via rápida permitir a fluidez do trânsito nos 80 quilómetros que ligam Vila Real de Santo António à Guia, os automobilistas optam pela congestionada Estrada Nacional 125 para deslocações inter-cidades. A necessidade de acelerar a construção da VLA torna-se mais evidente com o aproximar da época balnear, por causa dos engarrafamentos na zona da Guia e Alcantarilha. Porém, esse troço de cerca de dez quilómetros, que anda em construção há quatro anos, será inaugurado dentro de um mês. É por causa da lentidão dessas obras que as promessas de Guterres foram ouvidas com algum cepticismo pela opinião pública algarvia. No que diz respeito à A2, apesar da garantia de que as dificuldades ambientais estão ultrapassadas, a população de Paderne continua com esperança de que a auto-estrada não atravesse a localidade e fique uns quilómetro atrás, em São Bartolomeu de Messines. A partir daí e até à Via do Infante preconizam que a via se sobreponha ao actual Itinerário Principal 1.f+bf-bAs demoras em concretizar estas duas vias tem sido tema recorrente de qualquer encontro que se realize no Algarve. Um dos criticos é o antigo primeiro-ministro, Cavaco Silva, que, em entrevista à última edição da revista "Sulstício", afirma não entender "como é possível que ao fim de cinco anos ainda não se tenha concluído sequer o troço entre Guia e Alcantarilha". Cavaco sublinha: "A esse ritmo seriam necessários mais dez ou quase quinze anos para terminar a Via do Infante". Por seu turno o líder parlamentar do PSD, António Capucho, disse à TSF que o anúncio feito por Guterres quanto à finalização da auto-estrada do Sul "é uma promessa".«Em primeiro lugar as obras em causa já deviam estar prontas há muito. Em segundo lugar temos reservas em relação a estes anúncios do senhor primeiro-ministro. Será que desta vez é para cumprir?", questionou Capucho. O deputado disse à estação de rádio que o primeiro-ministro "sabe perfeitamente que a popularidade do Governo e a dele estão em plano inclinado acelerado". "Agora, tenta os rodriguinhos habituais para recuperar a confiança dos portugueses. Mas não é através de promessas de infra-estruturas que ele convence", opinou.