Uma ruína em boa forma

Elton John não é Giuseppe Verdi. Mas correu o risco de aceitar o desafio da Disney e compor "Aida", o seu primeiro musical para a Broadway. A estrutura do espectáculo assemelha-se mais a um filme de animação. Mas mesmo antes de estrear já era um êxito de bilheteira.

Ao chegar à freguesia do Bouro, no interior do distrito de Braga, um grande edifício, rodeado de montes e floresta, capta a nossa atenção pela sua ambiguidade.As paredes perderam o reboco, pondo a nu todas as pedras, e as inúmeras portas e janelas parecem ser apenas buracos. No lugar das telhas vemos ervas e até pequenos arbustos mexendo-se com o vento. Parece ser uma velha ruína. Mas de perto podemos verificar que os buracos têm discretas portas e janelas de vidro e que a cobertura do edifício é um enorme terraço cheio de terra onde plantas foram autorizadas a crescer. Afinal, o antigo Mosteiro Cisterciense de Santa Maria do Bouro, é um moderno hotel.No interior, a lembrança de um passado de abandono está por todo o lado: nas galerias não reconstruídas do claustro, nos vãos sem portas, nos corredores vazios, nas paredes nuas e, até mesmo, nas janelas sem os óbvios cortinados. Circulamos num espaço livre de toda a indumentária de artes decorativas que habitualmente enchem os hotéis de luxo.Os tectos aparentam ser de madeira escura, densa e velha. No entanto, um olhar mais atento revela que são feitos em ferro enferrujado - através de uma oxidação provocada evocou-se, subtilmente, os antigos tectos de madeira. O modo natural como os velhos e os novos materiais (ferro, cobre, aço, titânio e vidro) são justapostos, permite ter uma grande consciência da natureza de cada matéria. As quase invisíveis portas de vidro contrastam com os texturados muros de granito - sem interrupções e sem distracções de design.Tudo, desde o mobiliário à iluminação, obedece à lei do conforto pelo despojamento. Os critérios são claros, tranquilos. Uma mesa é uma mesa, uma cadeira, onde é preciso uma cadeira. Se o mármore é branco, é branco, se a madeira é amarela, é amarelo. Este rigor e simplicidade de desenho imprimem ao interior uma austeridade monástica, ao ponto de imaginarmos se os quartos, imaculados e "requintadamente esparsos", não seriam aprovados por monges cistercienses de hoje.Diante da ala sul um grande terraço permite gozar as delícias do sol e da paisagem: a antiga cerca do mosteiro com as suas árvores, prados, levadas (canais que levam a água) e, ao longe, a grandiosa estabilidade dos montes. Depois da mediocridade urbana dos arredores de Braga, em Santa Maria do Bouro, somos recompensados pelo investimento na arquitectura.Não é uma obra de restauro aquilo que vemos. Será que podemos simplificar afirmando que é uma nova construção? A ideia que se tem é a de que estamos diante de uma ruína em boa forma. Não suspira pelo passado nem lamenta o presente. É como se as ruínas tivessem estabelecido um acordo com o arquitecto: seriam cúmplices na construção de um hotel - cedendo as suas pedras - mas na condição de não serem obrigadas a simular o mosteiro que foram durante séculos. É neste acordo imaginário que reside toda a poesia desta obra de arquitectura.Fazer arquitectura com estruturas remanescentes não constitui novidade para o arquitecto Eduardo Souto de Moura. No seu percurso encontramos várias casas que têm como ponto de partida uma ruína (casa no Gerês, 1980/82) ou integram blocos de pedra de construções demolidas (casa na Av. da Boavista, Porto, 1987/94). A diferença deste projecto reside na escala monumental do mosteiro e na sua idade de oito séculos. Um tema e um edifício difícil, se considerarmos o problema contemporâneo da conservação do património cultural.Em 1989, Souto de Moura arriscou um Programa Base para a adaptação das ruínas do mosteiro a uma pousada da ENATUR (Empresa Nacional de Turismo).A proposta que apresentou queria "servir-se das pedras disponíveis para construir um novo edifício". O mosteiro estava irremediavelmente perdido e, por essa razão, para o projecto, as ruínas eram mais importantes - porque estavam disponíveis, abertas, manipuláveis. Com isto o arquitecto não pretendia construir uma excepção ou manifesto mas apenas "cumprir uma das poucas regras da arquitectura que ainda permanecem". Ou seja, ao longo da sua vida, os edifícios acumulam diversos depoimentos da História. Por isso, Souto de Moura só podia escolher a época em que vive para construir um hotel no velho mosteiro. Não foi fácil defender esta ideia junto do cliente, o IPPAR (basta pensarmos na opção de não colocar o telhado tradicional...). Mas, em 1994, os argumentos do arquitecto venceram e as obras finalmente começaram.A intervenção de Souto de Moura não se desvenda facilmente: as pistas ora são mudas, ora são orgânicas. Nas antigas celas, instalaram-se os quartos; na velha farmácia, o bar; na cozinha, o restaurante; no claustro... o claustro. O desenho do "novo" procurou encontrar uma lucidez entre a forma das ruínas e o programa do hotel. Apesar de audaz, o projecto rendeu-se sempre à dignidade do objecto e do lugar.A longa parede de granito, que suporta o terraço soalheiro, parece estar ali desde sempre. Na verdade trata-se da fachada do novo corpo de serviços do hotel - como se reduz a um anónimo muro de pedras, pontuado por pequenas janelas, parece intemporal. Nas poucas situações em que foi preciso intervir com um novo volume, construiu-se de modo a não violentar as preexistências.A linguagem silenciosa do edifício - que dá "espaço mental" ao espectador - tem origem no abandono progressivo de um certo "radicalismo linguístico". No início do projecto, o arquitecto assumiu que era radical, teórico de mais e que pensava assim: velho é velho, novo é novo - se é velho é de uma maneira, se é novo é de outra. Mas com o decorrer da construção, a realidade acabou por ditar muitas mudanças ao projecto. Refizeram-se alguns elementos segundo técnicas tradicionais (porta da entrada e escadaria da Portaria) e reutilizaram-se velhas pedras. As adições tornaram-se quase anónimas ou invisíveis. Deste modo reduziu-se as situações de contraste, entre novo e velho, que seriam uma espécie de ruído constante a ocupar a mente do espectador.Com as dificuldades inerentes do edifício, a equipa de trabalho moldou pacientemente a ruína, chegando às soluções muitas vezes na própria obra - a experiência de alguns operários ajudou a resolver inesperados problemas, impossíveis de prever pelos arquitectos na fase de projecto. A realidade é sempre superior a qualquer outra coisa, defende Souto de Moura.Durante os sete anos que duraram os trabalhos de conversão, os autores foram-se "curvando, perseguindo um desenho, uma arquitectura de um tempo, de uma cultura, que permanecesse como linguagem". Não escolheram o restauro nem a consolidação pura e simples da ruína para uso contemplativo - isso seriam as ideias ensinadas. Eduardo Souto de Moura apostou numa terceira solução: a que diz que o Homem não sonha com ideias ensinadas.Na Pousada de Santa Maria do Bouro respira-se a ambiguidade coerente dos sonhos. É um moderno hotel, um mosteiro, uma ruína. Os três ao mesmo tempo e no mesmo espaço.