400 anos do Ratio Studiorum, magna carta da educação jesuíta

"Ao corrigir as composições indique se há faltas contra a arte oratória ou poética, contra a elegância e esmero na linguagem, contra a estrutura do discurso, contra o ritmo, a ortografia ou alguma outra coisa. Indique também se alguma passagem está tratada de forma incorrecta, obscura ou indecorosa, se falta um mínimo de bom gosto, se há alguma digressão demasiado longa e outras faltas semelhantes." (Ratio, "Regras do Professor de Retórica", 4)

Acaba de aparecer nos escaparates das livrarias o terceiro fascículo de 1999 da "Revista Portuguesa de Filosofia", publicação da Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Católica Portuguesa, número este dedicado à "Ratio Studiorum", por ocasião da passagem do quarto centenário (1599-1999) da publicação deste importante documento referente à pedagogia e à filosofia da educação, desenvolvida pela Companhia de Jesus desde há mais de 400 anos.Como se sabe, a Companhia de Jesus, desde os primeiros momentos da sua fundação - e já na mente de Santo Inácio - sentiu um impulso fortíssimo para o apostolado no campo do ensino e da educação dos jovens. Não tardaram, pois, a aparecer os frutos da dedicação da Companhia a esta causa, tomando a seu cargo a orientação de numerosas instituições de formação, fundando colégios e universidades, com o êxito, o vigor, a proficiência e o reconhecimento de que os mais de quatro séculos de trabalho neste campo são a prova e a demonstração.Podemos dizer que na base deste notável sucesso - visível até na marca que deixou na história das ideias pedagógicas - estão os princípios pedagógicos e os métodos de ensino formulados na "Ratio", documento que a Companhia de Jesus nunca deixou de reformular no sentido de melhor o adaptar às exigências dos novos tempos e contextos, mas sem nunca deixar de se manter fiel à sua inspiração originária, profundamente enraizada nos ideais de um verdadeiro humanismo cristão, fundamento este que ainda hoje lhe confere a característica da sua universalidade.A ideia orientadora da "Ratio", que constitui também o seu objectivo fundamental, é a busca da excelência no quadro de um projecto de formação integral do educando; por isso, não é difícil perceber que aquela se tenha elevado a paradigma de toda a verdadeira acção educativa: "O 'Ratio Studiorum' poderá ainda hoje constituir um contributo importante que valha a pena ter em consideração" - conforme se lhe refere o prof. Alfredo Dinis na apresentação da mesma Revista - desde que se considere a educação não apenas como o processo de aquisição de um saber que permita "explicar" e "fazer", mas fundamentalmente, um processo de amadurecimento da vida interior que propicie ao educando uma sábia degustação de uma existência com sentido.Os estudos que constituem este fascículo da "Revista Portuguesa de Filosofia" abordam o referido documento nas suas dimensões fundamentais: as suas bases filosóficas e antropológicas de raiz cristã; as vicissitudes em que decorreu a elaboração do documento; a sua projecção e validade na actualidade; a sua adaptação a situações educativas concretas.Este fascículo da "Revista Portuguesa de Filosofia" demonstra bem que a "Ratio Studiorum" continua a solicitar a mais viva atenção dos pedagogos, dos filósofos, dos historiadores da educação, engrossando o enorme caudal de estudos sobre a pedagogia inaciana que têm surgido nestes últimos três anos em muitas revistas da especialidade. Outras recentes e importantes publicações também o confirmam. Apenas duas referências: em primeiro lugar, a monumental obra de Manuel González Revuelta, "Los colegios de jesuitas y su tradición educativa (1868-1906)", editada pela Universidade Pontifícia de Comillas em 1998, onde o autor mostra todo o empreendimento da Companhia de Jesus no movimento de reencontro com a sua pedagogia, numa situação social e culturalmente nova, mas mantendo o espírito de fidelidade à "Ratio"; em segundo lugar, em França, em 1997, na editora Belin, saiu uma notável edição bilingue latim-francês da "Ratio Studiorum"; esta nova tradução é seguramente mais uma prova do renovado interesse pelo documento, apesar de todas as evidentes mutações históricas, culturais, ideológicas e filosóficas que ocorreram nestes 400 anos.Felizmente, entre nós, o texto da "Ratio" encontra-se parcialmente traduzido pelo jesuíta Manuel Pereira Gomes, no seu estudo intitulado "Santo Inácio e a fundação de colégios" (Gracos, Instituto Nun'Alvares, 1996); mas seria de grande oportunidade o lançamento de uma edição completa - senão crítica pelo menos enquadrada por um estudo histórico-pedagógico - capaz de chegar aos agentes educativos e disponível a todos quantos estão ligados às exigentes tarefas da formação, pois já é tempo de a comunidade educativa em Portugal usufruir deste verdadeiro alfobre de princípios, de orientações pedagógicas práticas, carenciados que andamos de uma adequada ideia de educação, errantes num mar de fugazes didactismos e experimentalismos pedagógicos pretensamente modernos.* Professor na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa