Balsemão abandona "A Capital"

Seis meses após uma remodelação gráfica, uma campanha de relançamento e a entrada de um novo director, "A Capital" esteve ontem em risco de fechar as portas. Foi essa a proposta de Francisco Balsemão, à qual o director contrapôs um acordo de csavalheiros. O jornal continua a sair no âmbito de outra empresa e Balsemão desliga-se definitivamente do seu destino.

O jornal "A Capital" vai sair do grupo de Pinto Balsemão e passar para as mãos do actual director, António Matos, numa operação de transferência sem custos. Este foi o acordo de princípio a que chegaram as duas partes e que foi comunicado ontem à redacção. Ao que o PÚBLICO apurou, o abandono do vespertino por parte do patrão da SIC deve-se à intenção de colocar na bolsa empresas do grupo, sem incluir esta sociedade que não consegue resolver o passivo, mas o administrador do jornal, Mário Lopes, diz apenas que "é uma opção estratégica". António Matos procura agora um parceiro para garantir a sobrevivência do projecto que resultou no primeiro fracasso de Pinto Balsemão na comunicação social. Os salários dos trabalhadores do jornal "A Capital" serão garantidos até ao final deste ano pela Medipress, empresa do grupo de Balsemão que detém o título. A partir de Janeiro do próximo ano, o vespertino aparece integrado numa nova empresa, deixando para trás cerca de 300 mil contos de prejuízos acumulados. O patrão da SIC e António Matos chegaram a acordo para a transferência do jornal para uma nova empresa, depois de Balsemão ter comunicado ao director a intenção de encerrar o jornal com o despedimento colectivo dos trabalhadores. A situação dos actuais funcionários será negociada "caso a caso". Podem ser convidados a integrar o novo projecto ou podem ser dispensados, com direito a indemnizações, segundo António Matos, assegurando que "os quadros transferidos têm os direitos garantidos". No entanto, é difícil afastar o fantasma dos despedimentos, já que "o jornal vai ser transferido para uma nova empresa". Essa transferência inclui ainda um fundo "que está a ser negociado com a Medipress para permitir que o título se mantenha por si", diz o director, que rejeita avançar um prazo para o fim desse financiamento, preferindo dizer que o jornal "tem no horizonte uma vida de dois/três anos, mesmo sem fazer nada, tendo em conta a actual circulação e as receitas de publicidade". No entanto, António Matos garante que não quer ficar com um jornal nas mãos para pensar em fechar. Nesse sentido, espera encontrar um parceiro estratégico para permitir o crescimento das vendas do jornal, situadas em cerca de 18 mil exemplares por dia. Para avaliar o actual projecto, António Matos diz já ter encomendado um estudo de mercado que "aponte caminhos" e que pode incluir a hipótese de passar "A Capital" a matutino, apesar de sentir que o jornal está "confortável no mercado dos vespertinos". Para António Matos, a desvinculação da Medipress não se traduz num "divórcio litigioso", pelo que "está a ser negociada com a Controljornal [do grupo Balsemão] uma cooperação a nível da impressão e da distribuição do jornal". A redacção ficou surpreendida com a decisão comunicada ontem por António Matos e por Mário Lopes, administrador da empresa, sobretudo depois de o jornal ser alvo de uma ampla renovação gráfica em Junho. "As pessoas estão chocadas. Sentem-se traídas porque houve uma remodelação, investimento em computadores e perguntam-se porquê tudo isso se a intenção era abandonar o jornal", disse uma fonte da redacção ao PÚBLICO. Por outro lado, sublinhou a mesma fonte, não se sabe quem vai ser convidado a sair, dado que os trabalhadores serão seleccionados para integrarem a nova empresa. Mário Lopes, administrador de "A Capital", afirma que a decisão "é uma opção estratégica que não tem a ver com questões financeiras", rejeitando a explicação de que a Controljornal preferiu abandonar o vespertino para poder ter uma situação estável nas futuras cotações da bolsa. À questão do recente esforço financeiro empregue na remodelação gráfica, Mário Lopes garante que esse investimento "teria sempre que ser feito, sob pena do jornal ser fechado". Um dos objectivos dessa operação, adianta, "era estancar a queda de vendas do jornal, o que foi conseguido". Para Mário Lopes, o acordo agora conseguido "é bom para todas as partes", dado que o grupo "não queria a morte de "A Capital". Longe vão os tempos em que Pinto Balsemão, como se pode ler no "site" da Controljornal, considerava "A Capital" "um dos principais diários portugueses e se firmou como o único vespertino rentável e influente". Pelos vistos, a rentabilidade não chegou a ser alcançada e Balsemão averba assim com o jornal o seu primeiro fracasso empresarial na comunicação social.