Trabalhar nas férias

Romper os circuitos, mesmo os que um dia já foram circuitos alternativos, é o que se propõe um grupo de 26 jovens artistas que expõe num armazém em Vila do Bispo. As propostas não são demasiado surpreendentes mas são suficientemente interessantes para justificar a deslocação e os apoios dados a estes jovens em férias. "Ramaia" serve também para ponderar as possibilidades de tornar nacionalmente eficaz uma política de descentralização pensada a partir da própria periferia.

Um grupo de 26 jovens, maioritariamente oriundos da escola lisboeta AR.CO mas incluindo também alguns amigos da Faculdade de Belas Artes de Lisboa ou de formação autodidacta ou não artística, reúne-se pela terceira vez numa exposição destinada a romper mesmo "a instituição dos circuitos que já um dia foram alternativos", como disse um deles ao PÚBLICO na inauguração. Uma grande festa abriu o acontecimento e incluiu um concerto de música contemporânea composto por Tiago Cutileiro e interpretado pela Banda Filarmónica 1º de Maio, de Lagos.A primeira manifestação "do grupo que não é nenhum grupo" foi numa casa particular estimulados por um professor do AR.CO, Gilberto Reis; a segunda numa galeria comercial; a terceira num armazém camarário. A primeira vez chamaram-lhe "Ram", numa citação à memória dos computadores; da segunda o título passou a "Rama" e a metáfora passou a ser vegetal e a expressar a ambição dos protagonistas em crescerem; agora chama-se "Ramaia". O texto de apresentação divaga acerca de o projecto estar numa fase de "árvore mecanizada industrializada pelo debate de ideias" (Ricardo Valentim, comissário-geral). Mas, por efeito de um parágrafo obscuramente redigido no final do manifesto, ficamos a perceber que o título é antes um trocadilho: "Ramaia" "nunca deixará de ter uma certa tonalidade irónica com eventos correntes" - ou seja com a Bienal da Maia... Na próxima temporada a "Barramaia" voltará a reuni-los, de novo em instalações fabris semi abandonadas, no Barreiro.A citação da iniciativa maiata é sintoma de uma ambição não alcançada e de um estilo discursivo. Ou seja, os artistas, que por falta de curriculae não foram evidentemente convidados para a Bienal da Maia, apresentam obras realizadas nas linguagens do momento e poderiam afinal lá estar... Aproveitando contactos locais e o tempo das férias, esta exposição dá um bom exemplo do que pode ser uma política de descentralização pensada não a partir do centro mas da própria periferia. Entramos no vasto e abandonado armazém da EPAC de Vila do Bispo e as obras dispõem-se numa montagem fluida. Uma parte deles recusa, afinal, a linguagem dominante. Tomemos alguns exemplos na escultura desmontável que Sancho Silva cria a partir de um cubo, que permanece como modelo fotográfico de referência, ou as esculturas antropomórficas de Teresa Cardoso (boca e nariz), João Galrão (pernas: "Big Daddy") ou Alexandre Candeias (dois pés em caramelo que se derrete) e na pintura, com as sedutoras paisagens de Jorge Rodrigues. A fotografia encena o retrato na cenográfica peça de Susana Guardado ("Dance with me") ou nas máscaras SM (sadomasoque) de Tânia Simões. No capítulo das instalações temos, por exemplo, o trabalho de João Vilhena que forra o fosso da antiga báscula com alcatifa e coloca no fundo uma espécie de mesinha de telefone cheia de pormenores kitsch e um estetoscópio ("Put me on"). Podemo-nos sentar lá e manipular os objectos. Kitsch é também a referência de Iládio Clímaco (aluno de sociologia) que, num móvel de televisão carregado de biblots adequados, coloca um aparelho onde faz passar em vídeo a sua imagem a comer caracóis e a falar de arte ("Caracolada"). Multiplicam-se os exemplos de peças que pedem ou exigem ou sugerem a participação dos visitantes. Todas mais sugestivas que as anteriores: o anfiteatro de Ricardo Valentim que nos senta em frente de um pano bordado e com aplicações onde se desenha o perfil hierático das novas construções de Sagres ("Sagres"); "True Blue: Baby I love you" de Tiago Cutileiro, que associa um som discreto e contínuo à visão quase onírica de um interior arquitectónico a que se acede por uma fenda. André Sier, com um estreito espaço negro definido entre duas colunas de som, "Explosão de uma memória", e Nuno Delmas, numa peça intitulada "Moldura" onde se define uma luz vermelha com diferentes modalidades de recepção, podem terminar esta linha de abordagem diversificada da relação com o espectador. A presença de mecanismos e aparatos tecnológicos alarga-se a outras peças. Susana Anágua faz girar uma esfera sobre uma mesa, mas o mais interessante desses desenvolvimentos é uma obra sem título de Rui Lima Antunes. O artista depois de desejar construir um circuito aéreo onde se movia um veículo eléctrico, acabou por fazer despenhar parte da peça do tecto, deixando-a a funcionar no vazio. Esta atitude pode ser tomada como metáfora de uma opção radical - ponderada como projecto mas provocatória como modalidade de apresentação pública - que estes jovens podem ou não protagonizar nos passos seguintes da sua carreira.