Xutos com XX anos

De feios, porcos e maus os Xutos & Pontapés passaram em 20 anos a clássicos do rock português. O "sémen" - título do seu single de estreia - foi lançado a 13 de Janeiro de 1979, entre o pó de uma sociedade recriativa de Campo de Ourique, em Lisboa. Na altura em que o "punk" agonizava e o rock'n'roll comemorava um quarto de século de existência. Faz hoje precisamente 20 anos. "Chico Fininho" ensinara a cantar rock em português. Mas poucos acreditavam em projectos a longo prazo. Volvidas duas décadas, com uma legião de fãs e um culto atrás de si, os Xutos recolhem os louros de uma carreira onde o talento, o suor e a crença se misturam em doses iguais. 20 nomes importantes da música portuguesa juntaram-se para gravar um duplo álbum de homenagem, intitulado "XX Anos, XX Bandas", a editar no próximo dia 18, onde contam a sua própria versão dos acontecimentos. Mas para Tim, Zé Pedro e Kalú a estrada vai continuar depois das homenagens. Coberta, como sempre tem sido, de poeira e de glória. O PÚBLICO entrevistou-os e ficou a saber o que eles pensam de si próprios e do que cada uma das bandas pensa deles. Porque "XX Anos, XX Bandas" é também uma colecção de excertos da história dos outros.

Há 20 anos atrás, a música portuguesa confrontava-se com um dilema. Como é hábito, a principal dificuldade estava em acertar o passo com o andamento lá de fora. O que fazer quando em Inglaterra o "punk" já entrara em agonia e por cá era ainda a descoberta de que era possível, afinal de contas, cantar rock em português? A única vantagem estava na necessidade em andar depressa. A 13 de Janeiro de 1979, na pequena sala lisboeta da Sociedade dos Alunos de Apolo, em Campo de Ourique, voltou-se uma página importante da música popular feita em Portugal. Foi aí que os Xutos & Pontapés tocaram ao vivo pela primeira vez. Hoje, a duas décadas de distância, percebe-se que o passado e o futuro se apertaram nessa sala enevoada pelo fumo dos charros e encharcada em cerveja, ao som de compassos partidos, no misto de violência e euforia que sempre acontece quando algo morre e outra coisa diferente nasce em seu lugar.Nessa noite, o "punk" morreu apressadamente, mal balbuciara as primeiras obscenidades. Uma heresia que em Portugal teve apenas dois papas: Os Faíscas (de onde nasceriam os Heróis do Mar de Pedro Ayres de Magalhães) e os Aqui d'El Rock que clamavam "É preciso violentar o sistema" ao mesmo tempo que violentavam os ouvidos de quem os ouvia. Mas acabara de haver uma revolução. Com cravos ou sem eles, queria-se avançar rapidamente e em força, e romper com a memória. Por isso a noite em que o rock 'n' roll festejou os seus 25 anos de existência foi a mesma em que foi feito o seu enterro. Nela se soube da existência de um Elvis português, Zeca do Rock, de seu nome artístico, que aí teve a sua noite de glória e desapareceu. Foi neste cenário agitado que Os Faíscas deram por terminada a sua missão "punk", deixando ainda para a posteridade uma mistificação que permaneceu em segredo durante longos anos.Os Faíscas tocaram bem (segundo os critérios em voga nessa época, ou seja, alto, depressa e a espumarem da boca). Ou, segundo a opinião corrente, não tocaram mal. Muito melhor foi, ainda segundo a opinião unânime dos presentes, a banda-mistério que tocou a seguir: Jójó Benzovac e os Rebeldes. Quatro mascarados anónimos, com o rosto distorcido por "collants" de senhora enfiados na cabeça. Esses sim, além de tocarem melhor que os Faíscas, ofereceram uma música original. O rock português acabara de encontrar nesta banda de encapuçados os arautos do futuro. A História, porém, não teve oportunidade de confirmar as esperanças que então foram depositadas no grupo. Para Jójó Benzovac e os Rebeldes essa foi a primeira e única actuação ao vivo da sua carreira. O grupo-fantasma não era senão uma variante disfarçada de alguns dos músicos dos Faíscas, mais um grupo de amigos, que desta forma se retiraram a coberto de um mito e de uma imensa gargalhada.Começou aí outra história. Uma história que hoje cumpre 20 anos sem dar sinais de querer parar nos tempos mais próximos. Das cinzas do "punk" nasceu, nessa mesma noite de magia e comédia, uma das mais importantes bandas de rock nacionais: os Xutos & Pontapés. Eles e os UHF asseguraram a sobrevivência e continuidade do rock cantado em português, entre a hecatombe de dezenas de outras bandas menores que abortaram nas manápulas da engrenagem. Foram, de certeza, as duas únicas que assumiram que o rock nunca foi um estilo de música mas sim uma atitude e, quer se queira quer não, um estilo de vida. Só assim se compreende que a música dos Xutos, não sendo hoje substancialmente diferente do que era há 20 anos atrás, tenha sobrevivido e conquistado as preferências de, pelo menos, duas gerações de ouvintes. Isto, mais a energia, a crença e a autenticidade. A música dos Xutos & Pontapés renovou-se porque se renovou a capacidade dos seus elementos acreditarem nela. Se, em diversas fases da carreira do grupo, a entrada e saída de músicos (Zé Leonel, hoje nos Ex-Votos, Gui, saxofonista errante, Francis, tornado o Mike Oldfield português) coincidiram, de algum modo, com os momentos de crise, elas representaram também um processo de catarse e de procura de novas formas para - e é isto que garante a coesão do núcleo principal formado por Tim, Zé Pedro e Kalú - uma mesma essência. Nessa noite de fantasmas, há 20 anos atrás, celebrada na Sociedade dos Alunos de Apolo, os Xutos tocaram pouco tempo, cheios de coragem e assolados pelo medo, entre a timidez e o exibicionismo, numa luta sem tréguas com as guitarras, o baixo e a bateria. Mas revelavam já uma virtude: eram genuínos. Ainda que as vendas dos primeiros discos (os singles "Sémen" e "Toca e foge" e o álbum "1978-1982", todos divulgados no programa "Rotação", de António Sérgio) não correspondesse às expectativas e a imagem da banda ferisse algumas sensibilidades, foi essa autenticidade que o público captou. Apesar de alguma da sua produção mais recente revelar uma maior sofisticação - como a sessão "unplugged" (isto é, sem amplificação), "Ao Vivo na Antena 3", a banda sonora "Tentação" e "Dados Viciados" -, os Xutos foram sempre fabricantes de hinos para as gerações rebeldes. "Remar, remar", "Homem do leme", "Circo de feras", "Contentores", "Quero mais", "Não sou o único" ou "Longa se torna a espera" são palavras de ordem para quem se alimenta de palavras de revolta, servidas por melodias cuja força e simplicidade formam uma condensação perfeita da fúria, do espanto, da dúvida e da loucura de quem avança sem olhar para trás. Um segredo que se encontra exposto desde o início no próprio nome do grupo. A estas características foram sensíveis, por uma razão ou por outra, todos os artistas que participam em "XX Anos, XX Bandas", por mais longe que estejam, em termos de pressupostos estéticos, dos originais: Clã ("Conta-me histórias"), Lulu Blind ("Quero mais"), Despe & Siga ("Vida malvada"), Sitiados ("Maria"), Jorge Palma com Flak ("Nesta cidade"), Cool Hipnoise ("Dantes"), Bizarra Locomotiva ("Se me amas"), Ornatos Violeta ("Circo de feras"), Boss AC/Sam ("Não sou o único"), Quinta do Bill ("Homem do leme"), Paulo Gonzo ("Chuva dissolvente"), GNR ("Quando eu morrer"), Mão Morta ("Mãe"), Rui Veloso ("Negras como a noite"), Censurados ("Enquanto a noite cai"), Ex-Votos ("Sémen"), Entre Aspas ("Doçuras"), Rádio Macau ("Morte lenta"), Da Weasel ("Esquadrão da morte") e Sétima Legião ("Longa se torna a espera") . É fácil perceber as razões da adesão de todos eles. Parafraseando o título do filme de Jerzy Skolimowski, os Xutos & Pontapés são "o navio-farol" do rock português. O rochedo e a bíblia por que se rege a geração de músicos mais novos. Como os recém formados Os Corvos, quarteto de cordas com formação clássica influenciado pelos Kronos Quartet e Apocalyptica que se dedica a executar versões de câmara de temas dos Xutos. Por isso há quem os compare aos Rolling Stones. Como a banda de Mick Jagger, orgulham-se de ser feios, porcos e maus. Mas cheios de classe. Com uma diferença: ao contrário dos Stones, os Xutos não abdicaram de lutar.Ainda antes da edição de "XX Anos, XX Bandas", marcada para a próxima segunda-feira, é hoje lançado no auditório da FNAC (em Lisboa), pelas 18h, o livro "20 Anos - Uma Fotobiografia dos Xutos e Pontapés", editado pela 101 Noites e El Tatu, com imagens de vários fotógrafos portugueses e legendas do jornalista Jorge Pires. A mesma obra será apresentada no Porto, no próxmo dia 30, também pelas 18h, na FNAC Norte Shopping. Quanto ao concerto anunciado para próximo dia 15 no Pavilhão Multiusos do Parque das Nações, foi cancelado devido a doença de um dos elementos do grupo, o guitarrista João Cabeleira.