Comentário

Uma questão de cheiro, escreve César Monteiro sobre a Europália

"A cultura portuguesa é a moeda de troca do turismo e da hotelaria. Está ao serviço das manigâncias políticas." Este texto foi publicado na edição impressa do PÚBLICO a 19 de Setembro de 1991 e enviado ao Comissariado para a Europália-91

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daniel rocha

Primeiro, as coisas chegam-me pelo cheiro e, desde logo pelo cheiro, me cheirou mal a ubuesca Exposição que irá decorrer num país, a Bélgica, que cheira a batatas fritas, como dizia o Herberto. Que da Bélgica apenas veio confirmar o que Baudelaire estava farto de saber e o que Michaux não pôde suportar. Os belgas, valões ou flamengos, não são assim tão diferentes, têm um denominador comum: arrotam nas Exposições, arrotam sobretudo quando parecem exultar. Só não arrotam por distracção, mas, de qualquer modo, nunca há desperdício de tempo, escancaram sempre as bocas e acontece-lhes peidarem-se. É para esta gentalha que a cultura portuguesa, se vai pavonear. À portuguesa. Como? Toda encaixotada. Os caixotes são abertos (já foram) naquela praça belga, que é espanhola, sita em Bruxelas, que é a capital dos belgas e estes começam imediatamente a transportar o conteúdo dos caixotes para o resto da Bélgica que, no sentido literal, é, de facto, o que da Bélgica sobeja, não sem que o Marocas profira uma alocução e o acontecimento seja convenientemente televisionado.

Primeira conclusão: a cultura portuguesa, a genuína e a excedentária, cabe inteirinha numa praça belga que não é belga: é espanhola. Segunda, e última, conclusão: se toda a cultura portuguesa foi trasladada para a Bélgica, a cultura portuguesa que por cá ficou é a eventualmente rejeitada. Há quem comece com menos. Os papuas, por exemplo.

Para quê? Para que no próximo ano Portugal tenha mais belgas que portugueses. Ora, Portugal a tresandar a belgas é um país inconcebível. Conclusão única: a cultura portuguesa é a moeda de troca do turismo e da hotelaria. Está ao serviço das manigâncias políticas.

E o cinema? Antigamente, o cinema era uma actividade do espírito humano: pairava sobre as águas. Agora, chafurda, é uma espécie de pargo das funduras atraído pelo anzol dos novos comissários políticos. Deixa-se pescar e, pior do que isso, já vai para o engodo com a boquinha aberta.

E eu? Eu sou um pequeno comerciante cinematográfico, não tenho nada que ver com isto, não quero ter, quero, sempre quis, retirar os filmes que por lá tenho. Porquê?

É certo que, meses atrás, aquiesci. Manhosamente, claro. Estava interessado em Dunkerque, que é uma coisa entre mim e o director de Dunkerque, e percebi logo que nunca teria cópias de filmes meus em Dunkerque se não dissesse que sim com a cabeça à Europália. A ideia era simples e muito prática: amouchar, amouchar, até as cópias dos filmes chegarem a são e salvo a Dunkerque. Já lá estão. Agora, posso dar a patada na Europália. E vou ser brando, o que baste.

A selecção de filmes ditos portugueses feita para a Europália pela directora da Cinemateca de Bruxelas, pelo director da Cinemateca Portuguesa e pelo comissário dr. Miguel Lobo Antunes é indiscutível e nojenta: obedeceu a critérios políticos, a compadrios e tráficos de influências locais. É uma selecção cobarde e pusilânime. Salvaguardou o bem-estar dos seleccionadores, acima de tudo, acima do cinema dito português. Não papo. A alternativa a esta selecção, seria uma selecção que obedecesse a discutíveis e elevados critérios cinematográficos. Não foi feita. Tanto pior para o cinema e para as mãozinhas em que o dito vai estando.

Europália? Na bilha, jamais de la vie.

* realizador de cinema. Este texto foi enviado ao Comissariado para a Europália-91