Violência continua e Obama envia procurador-geral para Ferguson

Presidente diz que estará atento para ver se a presença da Guarda Nacional "está a ajudar ou a fazer piorar a situação". Foram detidas 31 pessoas em Ferguson durante a noite e, em protestos em St Louis, até uma sobrevivente do Holocausto foi parar à prisão.

Mais de uma semana depois da morte do jovem Michael Brown, atingido com vários tiros por um polícia, continua a haver manfiestações violentas na cidade de Ferguson, Missouri. Um recolher obrigatório foi estabelecido e cancelado, e a Guarda Nacional, força de reservistas do Exército e Força Aérea, foi chamada para reforçar a segurança. Num protesto na vizinha cidade de St Louis foram detidos vários manifestantes, incluindo uma sobrevivente do Holocausto de 90 anos.

O Presidente norte-americano, Barack Obama, decidiu enviar o procurador-geral (equivalente a ministro da Justiça) Eric Holder para Ferguson com a missão de supervisionar o caso. Obama disse ainda que iria estar atento à deslocação da Guarda Nacional e se esta “está a ajudar ou a fazer piorar a situação”. O Presidente avisou o governador do Missouri, Jay NIxon, que o uso desta força deve ser "limitado", distanciando-se da decisão de utilizar a Guarda Nacional para reprimir os protestos. 

“Não há desculpa para o uso de força excessiva pela polícia”, disse o Presidente. Mas enquanto criticava a polícia que usou violência contra os manifestantes, criticou também a "pequena minoria" dos que "saíram para rua com a intenção de explorar a fúria e drustração pela morte de Brown para fazer pilhagens nas lojas de Ferguson". 

Na noite passada, houve mesmo disparos contra a polícia de Ferguson, uma cidade de 21 mil habitantes que é subúrbio de St Louis. A polícia garante não ter usado as armas: "Nem uma bala foi disparada por nós, apesar de termos estado sob intenso ataque numa zona, que incluiu o uso de cocktails molotov", garantiu o capitão Ron Johnson.

A actuação da polícia, bastante militarizada, gerou críticas por estar a aumentar a tensão e provocar violência em protestos que começam por ser pacíficos. Vários jornalistas foram detidos e criticaram o uso excessivo de força pelas autoridades policiais. Na segunda-feira, o correspondente do jornal britânico Guardian notava que a polícia tinha retirado os jornalistas do local “para que não haja testemunhas independentes do que acontece aos manifestantes”.

Noite após noite, o mesmo quadro repete-se em Ferguson: manifestantes que pedem “justiça”, e que gritam o slogan: “Mãos ao ar, não disparem”, quando na véspera uma autópsia privada realizada a pedido da família por um antigo médico legista de Nova Iorque mostrou que a vítima foi atingida por seis tiros, dois dos quais na cabeça. Brown, negro, estava desarmado. Na estação norte-americana MSNBC, a comentadora Melissa Harris-Perry lembrou que entre 2006 e 2012 “um polícia branco matou uma pessoa negra pelo menos duas vezes por semana” nos EUA. Muitos estavam desarmados.

Que foto escolheriam os media?
O caso expôs problemas de discriminação em Ferguson, onde os negros são parados muito mais vezes do que os brancos em operações de rotina. Todos já experimentaram o que quer dizer “conduzir sendo negro”. Apesar do problema ser mais agudo neste local (com uma maioria de 70% de população negra, a força policial tem três negros entre 53 polícias), o caso está a provocar ondas a nível nacional.

O facto da fotografia de Brown escolhida nos media ter sido não a do dia em que recebeu o diploma do liceu (o graduation day) mas sim uma em que aparecia mal encarado, levou milhares de pessoas a partilhar no Twitter qual seria a sua foto que os media tirariam das suas páginas de Facebook, caso fossem mortos a tiro pela polícia com a hashtag IfTheyGunnedMeDown – a jovem de uniforme de soldado sorrindo ou num grupo que parecia estar numa festa rija de cigarro e bebida na mão? O jovem de sorriso bem-comportado com a família ou a fazer um sinal de "v" de vitória com ar de desafio para a câmara?

Enquanto isso, em St Louis, a capital do estado, um grupo de manifestantes foi detido, incluindo uma sobrevivente do Holocausto de 90 anos, Hedy Epstein. Epstein, que vive em St Louis depois de ter emigrado para os EUA em 1948 (após a guerra viveu em Inglaterra e voltou à Alemanha para ser testemunha no processo de Nuremberga), é uma conhecida activista anti-guerra e defensora dos direitos dos palestinianos.

O protesto foi pacífico, e Epstein, junto com outros oito manifestantes, foi detida por não ter seguido as ordens da polícia para dispersar. “Faço isto desde que sou adolescente”, disse Epstein em relação a protestar. “Não pensei que tivesse de o fazer aos 90 anos. Temos de enfrentar isto hoje para que as pessoas não tenham de fazer isto aos 90 anos”, disse ainda antes de ser levada pela polícia.

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