Senador americano falou durante 13 horas seguidas contra os drones

Rand Paul prometera fazer tudo ao seu alcance para tentar bloquear a nomeação de Brennan e mostrou que falava a sério

Ao fim de 13 horas a falar, Rand Paul anunciou que tinha de ir à casa de banho AFP

Foi um acontecimento raro o que se passou no Senado americano na quarta-feira. Um senador republicano, Rand Paul, falou durante quase 13 horas seguidas para manifestar a sua oposição ao uso de ataques de drones (veículos aéreos não tripulados e controlados à distância) pela Administração americana na sua guerra contra o terrorismo.

O seu gesto teve o efeito de adiar a votação no Senado que deveria confirmar a nomeação de John Brennan para dirigir a CIA. Brennan, que é a escolha de Obama para a agência americana de espionagem e já foi confirmado no cargo, foi o homem responsável pelo programa de drones nos últimos quatro anos. Rand Paul prometera fazer tudo ao seu alcance para tentar bloquear a nomeação de Brennan e mostrou até que ponto falava a sério. “Vou falar até não conseguir falar mais”, declarou, quando começou a falar na câmara do Senado, pouco antes do meio-dia. Quando acabou, era quase uma da manhã.

O filibuster, como é conhecido o procedimento formal em que um senador bloqueia ou adia uma votação prolongando indefinidamente o debate, foi imortalizado pelo filme com James Stewart, Mr. Smith Goes to Washington (Peço a Palavra), mas é uma raridade no Congresso americano. Quando um senador exerce um filibuster, não pode deixar o seu assento na câmara do Senado. Não pode sentar-se. Não pode ir à casa de banho, que é o que Rand Paul anunciou que iria fazer perto da 13.ª hora, quando finalmente terminou.

Paul decidiu opor-se à nomeação de Brennan depois de nesta semana receber uma carta do attorney general, Eric Holder (que acumula os cargos de ministro da Justiça e procurador-geral do Estado), que não exclui a possibilidade de usar drones num ataque em solo americano. Nessa carta, destinada a responder a perguntas feitas por Rand Paul, Holder afirma que “o Governo americano não levou a cabo ataques com drones nos Estados Unidos e não tem qualquer intenção de fazê-lo”.

Mas Holder acrescenta: “Suponho que é possível imaginar uma circunstância extraordinária em que seria necessário e apropriado o Presidente autorizar o Pentágono a usar força letal no interior dos Estados Unidos.”

Rand Paul disse que o seu objectivo era obter uma garantia do Governo de que nunca usaria drones para atacar um americano em território nacional – o que seria “uma afronta ao direito constitucional de todos os americanos a serem julgados no sistema judicial”.

“Nenhum presidente tem o direito de dizer que é juiz, júri e carrasco”, afirmou.

“Qual seria o critério para matar americanos na América?”, perguntou Paul a dado momento. “Pode o diferendo político fazer parte dos critérios para ataques de drones?”

Referindo-se à actriz Jane Fonda, que em 1972 visitou o Vietname do Norte, comunista, para denunciar o envolvimento dos Estados Unidos na guerra, Rand Paul disse: “Apesar de não ser fã de Jane Fonda, não estou interessado em juntar o seu nome a uma lista de alvos a abater com drones.”

De acordo com a informação disponível, sabe-se que os Estados Unidos mataram quatro americanos através de ataques com drones. Um deles tinha 16 anos. E só um deles era o alvo intencionado. Todos esses ataques ocorreram fora dos Estados Unidos.

Numa audição perante a comissão judicial do Senado, Eric Holder referiu-se ao bombardeamento japonês sobre Pearl Harbour durante a Segunda Guerra Mundial e aos ataques terroristas de 11 de Setembro como exemplos de ameaças que podem levar um presidente americano a ordenar ataques contra americanos em território nacional. Se os Estados Unidos dispusessem dessa tecnologia nos ataques de 11 de Setembro, poderiam ter destruído os aviões, o que custaria a vida a centenas de americanos que se encontravam a bordo, em vez dos milhares que morreram, explicou.

Rand Paul faz parte da ala mais conservadora do Partido Republicano, mas a sua acção foi elogiada por pessoas ligadas à esquerda e pela imprensa. Muitos perguntaram onde é que parava a esquerda no debate sobre liberdades civis e transparência governamental agora que o Presidente é um democrata e não George Bush.

Apenas um senador democrata e um pequeno grupo de republicanos mostraram a sua solidariedade para com Paul, participando no debate e permitindo que ele fizesse pausas temporárias. “Você está a tomar uma posição como um Mr. Smith Goes to Washington da era moderna”, disse o senador republicano Ted Cruz. “Jimmy Stewart está certamente a sorrir.”

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