Combatendo o inimigo invisível: o estigma da saúde mental nos homens militares

Imagine ser informado de que, como militar, procurar ajuda para a saúde mental acarreta um risco de 30% de pôr em perigo a segurança no trabalho. Em tais circunstâncias, arriscaria e procuraria ajuda?

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Megafone P3: Combatendo o inimigo invisível: o estigma da saúde mental nos homens militares Paulo Pimenta
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Num mundo em rápida evolução e cada vez mais interligado, a importância da saúde mental é cada vez mais reconhecida e discutida. No entanto, apesar dos notáveis avanços na compreensão destas questões, persiste um estigma duradouro e generalizado em relação à saúde mental dos militares.

Ao longo da história, as doenças mentais eram frequentemente atribuídas a causas sobrenaturais ou espirituais, resultando em discriminação e marginalização social. Crenças religiosas e morais amplificaram o estigma, ao ligarem doenças mentais ao pecado e à vergonha, levando as pessoas a esconder as suas lutas e a sofrer em silêncio.

Os meios de comunicação e a cultura popular ainda desempenham um papel na perpetuação do estigma da saúde mental, ao retratarem indivíduos com condições de saúde mental como perigosos, imprevisíveis ou cómicos, reforçando estereótipos negativos e marginalizando ainda mais aqueles que lidam com estes desafios.

As pessoas que enfrentam condições de saúde mental enfrentam frequentemente discriminação, exclusão social e auto-estigmatização. O estigma serve como um impedimento poderoso à procura de ajuda, uma vez que as pessoas temem o julgamento, a rejeição ou possíveis repercussões profissionais.

Isto pode agravar as suas condições, levando a sofrimento prolongado, diminuição da qualidade de vida e agravamento dos encargos sociais e económicos.

No contexto militar, o estigma promove um ambiente tóxico, onde os militares podem sentir-se isolados e não ouvidos, agravando os seus desafios de saúde mental. O medo de serem rotulados ou ridicularizados desencoraja as pessoas de discutir abertamente as suas experiências de saúde mental, privando-as de sistemas de apoio cruciais.

As expectativas sociais e os papéis de género tradicionais influenciam significativamente a relutância dos homens em procurar ajuda para a saúde mental. Homens, pressionados para incorporar a força e o controlo como principais sustentadores da família, muitas vezes enfrentam barreiras para expressar vulnerabilidade.

Podem evitar discutir o bem-estar mental com a família ou amigos e recorrer a mecanismos prejudiciais, como o abuso de substâncias. No contexto militar, estruturas hierárquicas, preocupações de carreira e a mentalidade de "aguentar" criam ainda mais barreiras para procurar ajuda para a saúde mental.

O acesso limitado a recursos, tempos de espera prolongados e preocupações com a confidencialidade podem desencorajar a procura de tratamento.

Estudos revelam que as maiores preocupações em relação ao estigma são o potencial tratamento diferencial por parte das chefias de unidade e o medo de ser visto como fraco. Estes rótulos estereotipados dissuadem os soldados de admitir problemas de saúde mental e de procurar ajuda.

O pessoal militar não deve recear procurar ajuda, uma vez que apenas três em cada dez homens correm o risco de sofrer repercussões na carreira.

No entanto, esta afirmação requer uma análise aprofundada. Imagine ser informado de que, como militar, procurar ajuda para a saúde mental acarreta um risco de 30% de pôr em perigo a segurança no trabalho. Em tais circunstâncias, arriscaria e procuraria ajuda?

Abordar o estigma da saúde mental no contexto militar requer uma mudança cultural profunda. Fomentar uma cultura que valorize não apenas o bem-estar mental, mas que também encoraje activamente comportamentos de procura de ajuda é um ponto de partida crítico.

Programas educacionais e de formação que desafiem mitos e estereótipos podem promover a compreensão e a empatia dentro da comunidade militar. A liderança militar deve priorizar a saúde mental, criando um ambiente que normalize as discussões sobre o bem-estar mental e forneça recursos acessíveis, confidenciais e eficazes.

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