Entre duas gravações está a história de Garda

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Garda na festa do casamento da irmã Fernanda

Numa passagem relâmpago por Lisboa em 1957 para cantar numa festa dos Espírito Santo, a artista que nasceu Hildegarda Oliveira gravou uma série de canções que se tornariam no primeiro vinil em Angola. Mais de 50 anos depois voltou ao estúdio da Valentim de Carvalho para lançar um CD.

É normal que à editora discográfica Valentim de Carvalho cheguem gravações "irreais" de pessoas que querem por tudo ser artistas sem terem talento, ou que não vivem neste mundo. E alguns vão mesmo lá bater à porta. "Estamos habituados a coisas fora do normal", diz Francisco Vasconcelos, director da editora, recordando, por exemplo, um senhor que lá chegou pronto para fazer um dueto com John Lennon. E um dia surgiu a angolana Garda, à beira dos 80 anos.

Trazia um saquinho de plástico com objectos vários, uma fotografias antigas, uma capinha de um disco de 45 rotações carcomida pelos quase 50 anos que levava desde a impressão. "Nada de pasta ou portfólio, só um saco de plástico com umas coisinhas" e uma amiga muito insistente que teimava que as recebessem. Garda correu o perigo de ter sido descartada como mais uma daquelas personagens "bizarras", mas o director da Valentim diz que optou, e bem, por lhe ouvir a história.

Garda não vinha pedir para ser gravada - tinha o desejo de ter uma cópia de uma gravação que tinha feito com a sua banda na Valentim, em 1957. "Ela era encantadora", recorda o director da Valentim de Carvalho. Francisco Vasconcelos ouviu-a, e sobretudo à insistente amiga, e mal saíram do gabinete pediu que fossem à procura das tais músicas de que falava a senhora.

Quem encontrou as bobines com as fitas magnéticas onde estava gravada a sua voz conhece o arquivo da editora como se fosse um itinerário da sua vida profissional. Hugo Ribeiro, técnico de som que gravou vozes como Amália, está hoje reformado e ainda se lembra do dia daquela gravação, tinha ele uns 30 anos, ela 26. "Gostei da voz dela, era uma boa artista. Para nós era novidade, era uma música que não era de cá", relembra, ele com 84 anos, Garda a cerca de um mês de completar 80.

Francisco Vasconcelos ouviu os temas e ainda a foi ver ao vivo num bar onde actuava em Lisboa, "às duas ou três da manhã, uma hora estapafúrdia para uma senhora desta idade" e ficou deliciado. "Há uma coisa mágica na prestação dela." Decidiu que Garda ia voltar a gravar, desta feita a solo.

Garda regressou ao passado quando lhe encontraram as gravações e as ouviu. "Ia-me dando o badagaio. Ia tendo uma coisa. Foi tão emocionante." Desde essa visita à editora passaram três anos e o novo CD é lançado no final deste mês. Tem o seu nome e os 11 temas quase podiam ser o resumo do que viveu desde a primeira gravação, no tempo do seu apogeu, nos anos 1950 da Luanda colonial. É sobretudo a terceira canção no alinhamento, Ilha azul, que remete para a década em que mais fez furor. "Ui, adoravam. Era o meu forte."

A sua primeira gravação nasceu do sucesso desses tempos. Garda lembra-se de tudo ter sido gravado muito à pressa no final da sua primeira vinda a Portugal, pouco antes de regressarem a Angola, no que recorda como um edifício "que parecia um barracão". O técnico de som Hugo Ribeiro explica que o estúdio da Valentim da altura era mesmo assim, a funcionar num teatro de Lisboa arruinado. O objectivo da vinda a Portugal nunca foi gravar e Garda até o fez "contrariada", mas alinhou na brincadeira. "Eu não queria nada, a gravação não me parecia nada bem", porque não estavam preparados e foi tudo demasiado rápido.

Não se voltou a encontrar com essas músicas que nunca foram comercializadas em Portugal. Um ano depois elas encarregaram-se de desembarcar em Angola. Quem as enviou? Porque o fez? Não se sabe. A verdade é que quatro daqueles temas chegaram a Angola de barco, explica Francisco Vasconcelos, e ali foram transformados em disco. Foi, aliás, o primeiro vinil editado em Angola, soube Garda mais tarde.

No debute dos Espírito Santo

Maria Candimba era o título do tal disquinho que levou há três anos à Valentim para atestar da verdade do seu relato sobre a longínqua gravação. Tinha mesmo existido, assim como a sua actuação numa festa de luxo organizada por Manuel Espírito Santo na sua quinta em Azeitão - tinha sido o banqueiro a convidá-la a vir a Lisboa e a custear as despesas para que viesse "abrilhantar" uma festa de debutantes, em Junho de 1957. O sucesso foi tal que ainda fez uma temporada no Casino do Estoril e foi à televisão.

Esse dia ficou-lhe gravado na memória. Tudo aquilo era intimidante e Garda, habituada "a abrilhantar" festas da alta-roda luandense, percebeu que aquela era diferente. "Só o porteiro, com aquela roupa, metia medo... parecia uma avestruz. Metia tudo medo, as madames, as princesas, aquela malta, umas mil e tal pessoas." Antes de Garda e o seu conjunto aparecerem de surpresa, à meia-noite, o nervoso nos bastidores era muito. "Isto é uma coisa fina mas é preciso é calma", aconselhava a cantora aos outros elementos da banda, constituída quase só pelos irmãos que tinha ensinado a tocar. Apagaram-se as luzes de repente e "o meu irmão entrou a tocar batuque, eu com o acordeão, os outros com violas. Ligaram as luzes. Aí demos show".

"Nesse baile debutou a "princesa Diana de França", a princesa Anita. Estava toda a gente conhecida. Os condes de Paris, os condes Barcelona e ela e o seu conjunto encantaram toda a gente. Tocou, dançou, animou", lembra Ana Espírito Santo, filha do empresário num documentário que a Valentim está a produzir sobre a cantora.

Os quatro temas da sua primeira gravação são um bocadinho do reportório tocado nessa noite marcante. Cantou-se, por exemplo, Maria Candimba, uma canção sobre "uma preta criada que se meteu com um patrão", e que viria a ser gravada mais tarde pelos Duo Ouro Negro, já no boom da música angolana que aconteceu a partir do final da década de 1960.

De volta a 2010, neste novo CD, decidiu-se que não fazia sentido voltar a gravar os temas dos anos 1950, por serem datados. Mas há dois apontamentos dessas gravações de há mais de 50 anos que foram transportados para o presente: um excerto de Garda a tocar guitarra na canção Para Alcina, uma amiga a quem dedicou uma canção depois de lhe ter morrido o único filho, e no tema final, Magoaste o meu coração, o solo de bandolim é tocado por uma Garda de 26 anos.

Para Garda, baptizada Hildegarda Oliveira "por mãe mulata e pai branco", a vida é música mas os instrumentos têm significados diferentes. Nas festas que tinha de animar não havia como o acordeão, mas, "para sentir, a viola e o bandolim" são os escolhidos. Escondidos nos vários temas estão pontos marcantes da sua vida. O último beijo, letra e música da própria, e Triste melodia aludem ao mais traumático. Garda, "ao contrário do que havia jurado", casou com um militar, um capitão português de infantaria. Mas José Lofgren Rodrigues acabou por morrer na guerra, "num dia fatal/ Foi como um vendaval/ Maldito destino/ Tudo me levou/ Desde esse dia apenas ficou a minha canção". O último beijo foi dado no aeroporto de Lisboa, com o filho do casal com apenas dois anos nos braços, antes de o marido partir.

Fora deste disco está um instrumento, o violino, e o sonho que ficou por realizar. Na música, o que sempre quis foi ser violinista clássica. Foi com esse intento que se inscreveu na Academia de Luanda, onde estudou violino até ao sexto ano, e foi por ele que abandonou o seu emprego seguro (era telefonista no Banco de Angola) para vir estudar no Conservatório de Lisboa. Nesta, como noutras alturas da sua vida, algo aconteceu para lhe mudar o rumo. Num acidente doméstico escorregou, foi com "a mão das cordas [do violino]" contra uma porta de vidro e os tendões nunca mais recuperaram. Ficou por ali esse projecto.

Foi ganhando a vida como pôde, a música pouco contribuiu. Emigrou para Espanha e Suíça onde foi de tudo, desde cozinheira a interna, passando por tomar conta de crianças e idosos. A música deu-lhe sim equilíbrio e por isso até hoje continua a animar festas e a cantar em bares e tertúlias. Até há uma canção que ficou fora do disco e que diz que a define, "a velha vadia" e só consegue lembrar a letra cantando-a: "Sou da noite/ Gosto do fado/ Visto o meu fato camuflado/ O meu boné arrebitado/ Por ridículo que pareça... Sou vadia sim senhora." Garda cantou cerca de 60 canções para serem escolhidas as 11 que agora se podem ouvir na edição da Valentim de Carvalho.

Ainda hoje não é a música que lhe garante o sustento. Vive de uma pensão do tempo em que trabalhava em Angola, nas alfândegas e no Banco de Angola. "Quando vou a casamentos, ganho bem." De resto, em muitas das suas actuações não é remunerada - são para amigos. Garda vive no Convento da Encarnação, um estabelecimento da Segurança Social.

Ficou feliz com a gravação do novo disco, mas não tem pena de estes 50 anos não terem sido preenchidos por uma carreira como cantora popular. "Tenho pena de não ter sido violinista a sério." "Eu não sou artista, não quero ser artista. Não tenho horas, sou preguiçosa. Sou o deixa andar." Os amigos insistem. "Eles é que querem que eu seja artista à força." Se não fosse a amiga Vera Ramos, nunca tinha ido bater à porta da Valentim de Carvalho. Na editora também reconhece e agradece a persistência. Muitos não teriam tido "paciência" para gravar este segundo disco. Garda teve dois AVC há pouco tempo e percebeu que se até ali não tinha dado assim tanta importância ao CD, quando esteve doente, só pensou que o queria para o poder deixar ao filho. No Natal, já o ofereceu como prenda.

No CD, Francisco Vasconcelos anuncia-a: "Mais de 50 anos depois de uma falsa partida... é com muita satisfação que retomamos a carreira discográfica da Garda."

Muitas pessoas querem ser artistas e não têm talento - Garda tinha talento e nunca o quis aproveitar. "Ela não procurou isto", admite Francisco Vasconcelos. Eles é que acharam que "seria uma injustiça que Garda não fosse conhecida".

catarina.gomes@publico.pt

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