Educação para os Media

O “Outro” em destaque num mundo de Princesas e Dragões

X Encontro Para Além de Princesas e Dragões decorreu nos dias 15 e 16 de março em Albergaria-a-Velha. O PÚBLICO na Escola esteve lá.

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“Construindo o Outro” foi o primeiro painel do X Encontro Para Além de Princesas e Dragões, em Albergaria-a-Velha. ADRIANO MIRANDA / PUBLICO
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A equipa do PÚBLICO na Escola ficou responsável por um workshop para professores. Beatriz Quaresma / Jornal de Albergaria
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No Cineteatro Alba podia encontrar-se uma pequena exposição dedicada ao jornal escolar Escrita Irrequieta, do AE da Branca. Beatriz Quaresma / Jornal de Albergaria

No auditório do Cineteatro Alba, em Albergaria-a-Velha, circula uma princesa alta, loira, com um vestido vermelho até aos pés. Tem uma tiara na cabeça e dá indicações aos técnicos: “É esse vídeo, mesmo”. Dentro de momentos começa ali, naquela mesma sala, o X Encontro Para Além de Princesas e Dragões, que este ano tem como tema “A Biblioteca e a Aprendizagem Criativa: O Outro”. Assim que as portas se abrem, não sobram muitas cadeiras. Estão ali reunidos professores e educadores vindos de diferentes zonas do país, para partilharem as suas experiências ao longo de dois dias. Neste encontro são eles que se sentam a ouvir, para que depois possam implementar boas práticas nas suas escolas.

As boas-vindas são dadas por Isabel Nina, coordenadora interconcelhia da Rede de Bibliotecas Escolares, acompanhada por alguns dos principais parceiros do evento: o diretor do Centro de Formação da Associação de Escolas de Aveiro e Albergaria, Manuel Sousa, a vereadora da Educação da Câmara Municipal de Albergaria-a-Velha, Catarina Mendes, e a coordenadora nacional da Rede de Bibliotecas Escolares (RBE), Manuela Pargana da Silva. Nos discursos de cada um fica um vislumbre do grande assunto mobilizador deste “Princesas e Dragões” — como o evento é já carinhosamente tratado: a relação entre “eu” e “o Outro”. “Como seres gregários que somos, é através do outro que temos consciência de nós próprios”, diz a coordenadora nacional da RBE numa intervenção feita à distância.

As cadeiras ocupadas no auditório são reflexo de uma grande procura por este “encontro formativo, cultural e literário”, como a vereadora com o pelouro da educação o descreveria. Tem sido uma crescente desde a primeira edição, que decorreu em 2014: nesse ano tiveram 33 participantes, em 2017 já contavam 107, no primeiro ano (atípico) de pandemia da Covid-19 viram-se obrigados a fazer o evento online e receberam 410 inscrições. Este ano, 125. Nas dez edições que decorreram até agora, contam-se cerca de 1300 inscrições. E os comentários que se vão ouvindo aqui e ali, nos silêncios das primeiras comunicações, dão conta de que para alguns professores não é uma estreia: “No ano passado foi assim”, “Há dois anos fizeram aquilo”.

Nos últimos anos, o evento tem-se organizado em dois dias, com um painel no começo de cada um, seguido de workshops. “Construindo o Outro” foi o do dia 15 de março, com moderação de José Saro, coordenador interconcelhio da RBE. Em palco, deixam de existir dúvidas: a princesa que circulava pela sala, dando indicações, é Ana Pires, Professora de Português Língua Não Materna, que fará uma comunicação sobre “O Nosso Olhar para Além das Fronteiras”. Segue-se-lhe Francisca Monteiro, Orientadora Educativa no Projeto Educativo “Escola da Ponte”, fundado em Santo Tirso, no final dos anos 70, pelo pedagogo José Pacheco. Na Escola da Ponte, as “turmas” são “grupos de trabalho heterogéneos” onde os alunos “partilham espaços comuns de aprendizagem”; Francisca descreve a abordagem que pratica há 19 anos como uma “perspetiva holística do saber”, onde “os saberes não estão fechados em gavetas” porque “na vida, também não estão”.

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Na Escola da Ponte, cada aluno decide o que gostaria de aprender e vai fazendo um balanço das aprendizagens. Adriano Miranda / PÚBLICO

Na comunicação da professora, que de há uns anos para cá também é responsável pela biblioteca, há uma ideia que se vai repetindo: nesta escola, o método de ensino é uma resposta ao facto de cada criança ser “única e irrepetível”. Termina com uma frase do poeta brasileiro Rubem Alves que vai também nesse sentido: “Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas”. E a Escola da Ponte trabalha para ser asas. É nos voos que ensina os seus alunos a fazer que os prepara para os encontros com “o Outro”; uns com os outros — defende a professora.

O “Outro” está imediatamente ao nosso lado. Esta foi a premissa do terceiro orador do painel, o escritor Gonçalo M. Tavares. Sem recursos a imagens, M. Tavares discorreu quem será, afinal este “Outro” de que tanto se fala, e que dá mote ao X Encontro Para Além de Princesas e Dragões, e o papel da escola nessa construção. “Está-se a falar do Outro quando tem uma cultura diferente — isso é o óbvio. O “Outro” é a pessoa que está ao meu lado. A escola trata as pessoas como se fossem iguais, formata-as”, defende. Há muito a mudar no sistema de ensino português, para o autor de “Jerusalém”. Os exames iguais para todos os alunos, a forma como a sala de aula se organiza, que põe os alunos “de costas para o Outro”. Mas tudo vai dar a uma pergunta: quem é “o Outro”?

Gonçalo M. Tavares não poupa as críticas à forma como nos ensinam a tratar todos os Outros, mas também não poupa elogios aos professores. É graças a eles que escreve. E esta resposta não é tão óbvia quanto pode parecer: depois de responder sempre o mesmo quando lhe perguntavam “Por que escreve?”, houve um dia em França que decidiu pensar sobre isso e foi parar à infância do seu pai. “Aos dez anos o meu avô disse ao meu pai que tinha de ir trabalhar, um professor disse que não e que o miúdo tinha de estudar. Durante duas, três semanas, houve uma procissão de professores a dizer: este menino tem de estudar. Portanto, graças aos professores, eu sou escritor. Porque o meu pai pôde estudar.”

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O escritor Gonçalo M. Tavares integrou o painel do primeiro dia e deu um workshop na Biblioteca Municipal. ADRIANO MIRANDA / PUBLICO?

Intencionalidade: o segredo para um bom jornal escolar

As críticas ao sistema de ensino e à forma como se ensina não ficam restritas à comunicação de Gonçalo M. Tavares. Logo no começo do workshop do PÚBLICO na Escola, uma professora desabafa: “Dou por mim a dar aulas como dava há 15 anos.” Antes de se falar sobre literacia mediática e jornalismo escolar, deu-se uma partilha informal entre professores sobre os muitos desafios de ensinar além do programa. Porque os exames nacionais… “Ah! Os exames nacionais”. Por entre tantos projetos que vão surgindo na escola, trabalhar a literacia mediática pode parecer uma tarefa complexa. Mas Luísa Gonçalves, professora e coordenadora do PÚBLICO na Escola, descomplica: “Qualquer temática pode ser abordada na perspetiva da literacia mediática”.

Na parte de trás do palco, imediatamente a seguir à cortina preta opaca que esconde o backstage, a equipa do PÚBLICO na Escola encontrou-se com um grupo de cerca de 30 professores para uma partilha descontraída sobre jornalismo escolar. O espaço assim o pedia. “Jornalismo escolar - Uma prática para compreender e utilizar criticamente os media e minimizar o impacto da desinformação” era o nome da formação de duas horas, que acabou por ir para lá da hora prevista. Da educação para os media à prática do jornalismo escolar, até por fim chegar à plataforma de criação de jornais digitais TRUE, lançada pelo PÚBLICO na Escola em setembro de 2023. “Eu já uso e posso dizer que é mesmo muito intuitivo”, disse um professor entre os participantes.

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A equipa do PÚBLICO na Escola partilhou com os professores dicas para integrar a educação para os media no dia-a-dia. Beatriz Quaresma / Jornal de Albergaria

Tanto sobre a educação para os media em contexto de sala de aula como sobre a dinâmica de redação num jornal escolar, Luísa Gonçalves sublinhou a importância da intencionalidade. Questionar, procurar, fazer porque se pensou sobre — caraterísticas válidas para um plano de aula em que se trabalha uma notícia e um tema da atualidade, como para uma reportagem feita para o jornal escolar (que não é um trabalho feito numa disciplina e que posteriormente se aproveitou para o jornal). “Acho que é o que gostava que ficasse desta formação, esta noção de que é importante que seja intencional e sistemática”, disse a coordenadora do projeto de literacia mediática aos professores.

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Trabalhar o jornal como recurso pedagógico é uma das frentes de ação do PÚBLICO na Escola. Beatriz Quaresma / Jornal de Albergaria

Entre os participantes estava, também, Isabel Nina, coordenadora intermunicipal da RBE e uma das grandes dinamizadoras deste evento. Ao PÚBLICO na Escola conta que despertou para a literacia mediática — expressão utilizada pela própria — em 2015, num encontro promovido pela Direção-Geral da Educação. Já trabalhava na RBE desde 2007 e o que sente desde essa altura é que “há muitos recursos, muitas oportunidades e muito desconhecimento, porque os professores estão assoberbados de trabalho nas escolas” e por vezes têm de faltar às aulas para poderem frequentar as formações. É por isso que o encontro Para Além de Princesas e Dragões decorre à sexta e ao sábado.

Desde o primeiro ano, os temas têm procurado responder a grandes questões da educação, muitas delas pouco refletidas no dia-a-dia — é Isabel Nina quem o explica. A forma como se chega à temática de cada edição é bastante democrática: “Há um grupo de trabalho que reúne ao longo do ano e reúne periodicamente, onde se encontra por exemplo a bibliotecária municipal [de Albergaria-a-Velha], Marisa Almeida. Nessas reuniões mensais gizamos o encontro e parte-se muita pedra. Além disso, uma vez por ano há uma reunião com a autarquia e o centro de formação”, partilha. E o diálogo é fundamental, garante. O equílibrio que procura está entre “trazer o melhor” entre referências de diferentes partes do país e o que se faz em Albergaria. À décima edição, decidiu homenagear-se o jornal escolar Escrita Irrequieta, do Agrupamento de Escolas da Branca, com uma pequena exposição no Cineatro Alba.

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A exposição de homenagem ao Escrita Irrequieta, vencedor do Concurso Nacional de Jornais Escolares, foi visitada pelos participantes do encontro. Beatriz Quaresma / Jornal de Albergaria
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O jornal Escrita Irrequieta, que inicialmente se chamava Voz Activa, tem uma já longa história. Beatriz Quaresma / Jornal de Albergaria

Ao segundo dia, celebrar o Escrita Irrequieta

O primeiro dia foi pela noite dentro depois de um jantar-convívio e de uma sessão de tertúlia. Mas no dia seguinte, logo às 09h30, o Cineteatro Alba já se começava a compor. Foi entre este espaço cultural e a biblioteca municipal que as atividades foram decorrendo ao longo dos dois dias. Em linha com o que se havia passado no workshop do final de tarde do primeiro dia, ministrado pelo PÚBLICO na Escola, Sara Pereira, professora da Universidade do Minho e coordenadora do projeto MILObs, e recém-nomeada presidente do conselho consultivo do Plano Nacional para a Literacia Mediática, abriu o painel “Desconstruindo o Outro” com uma comunicação sobre “ler o Outro nos e através dos media”. Aqui não estavam em destaque os jornais escolares, mas o sentido crítico dos alunos e a importância da intenção esteve igualmente presente.

“Como é que nós comunicamos o ‘Outro’? Como é que os nossos alunos conhecem o ‘Outro’? O que é que nos dizem sobre as outras pessoas, sobre os grupos que constituem as nossas sociedades, sobre os que vêm de fora para o nosso país, e sobre os que vão para fora?”, questionou. A paisagem da comunicação de Sara Pereira foi a atualidade, os tempos que vivemos, e os agentes em destaque foram os jovens. A investigadora alertou para a importância de reconhecer nos media os enquadramentos que nos são apresentados: “O modo como conhecemos o mundo e o ‘Outro’ é a partir dos ecrãs, a partir daquilo que nos é apresentado” — que é uma pequena parte do que se passa no mundo, “não é o mundo inteiro”.

E se o mundo digital tem armadilhas nem sempre identificáveis por quem lá navega, Sara Pereira defende que é fundamental que se reconheça que “os públicos têm poder”. A investigação tem mostrado isso, defende. É por isso que “não nos podemos demitir” de fenómenos de radicalização que por vezes acontecem a partir das redes sociais, que muitas vezes “permitimos através do nosso silêncio”.

O derradeiro regresso ao mundo do jornalismo escolar deu-se depois das comunicações dos professores Celestino Magalhães e Carlos Pinheiro sobre a relação entre Inteligência Artificial e educação. Subiram ao palco dois jovens jornalistas e dois professores da equipa do Escrita Irrequieta, jornal do Agrupamento de Escolas de Branca, vencedor do primeiro prémio de Melhor Jornal de Agrupamento no Concurso Nacional de Jornais Escolares 2022-23.

Luísa Gonçalves, coordenadora do júri do concurso, juntou-se ao grupo e evidenciou os pontos fortes do projeto: “É um jornal que não se limita a ser uma montra dos eventos da escola, mas que quer ir mais além, preocupando-se com a experiência de quem o faz, mas também com os seus leitores”, “um jornal irrequieto, que desafia e que quer ser desafiado”.

Os professores José Paulo Lourenço e Cristina Silva destacam a importância do projeto na escola, mas o destaque é dado aos alunos Mariana Alves e Gabriel Antão. “Entrei no jornal quando ainda era novo”, começa por dizer Gabriel, que estuda no 9.º ano — a plateia ri. Assim que o deixam continuar, explica: estudava no 5.º ano e não gostava de escrever, mas os professores foram-no incentivando e começou a “perceber que fazia parte da família do jornal”.

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Professores e alunos do Escrita Irrequieta recordaram a ida à redação do PÚBLICO para a entrega de prémios do Concurso Nacional de Jornais Escolares, enquanto ouviam Luísa Gonçalves. Carolina Franco / PÚBLICO na Escola

Tudo começou “com um desenhito”, mas foi na pandemia que tudo mudou: “Estava em casa sem nada para fazer e comecei a receber e-mails do professor José Paulo. Fiz um desenho que acho que foi o meu melhor êxito até agora, que era sobre maus tratos aos animais e tinha um cão a passear um homem. O cão dizia, num balão de fala: ‘Ah! Assim já não foges’. A partir daí os meus colegas disseram que gostavam e eu comecei a entusiasmar-me e a escrever cada vez mais”, conta. O entusiasmo está colado ao tom de voz com que fala do Escrita Irrequieta; basta começar a falar para que se perceba que a falta de motivação do começo já não está lá. Agora, não lhe falta. O que o foi fazendo continuar foi perceber que “o trabalho não é em vão” e que a edição do professor José Paulo vai transformando “um texto não tão bom” num texto que “realmente goste e que seja útil para o jornal”.

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Quando o jornal para que escreve surgiu, Gabriel ainda não era nascido. Carolina Franco / PÚBLICO na Escola

Para Gabriel, o professor José Paulo é a alma do jornal. “Ele é um professor bué top. As aulas de História dele são sempre incríveis e no jornal está sempre disponível para nos ajudar”. Também Mariana lhe faz um elogio público no seu discurso, mas o motivo é diferente. Depois de seis anos na “família Irrequieta”, teve de mudar de escola para prosseguir os estudos no ensino secundário e, com isso, deixar o jornal. Com a bagagem que já tinha, e depois de ter aprendido com outros colegas no II Encontro Nacional de Jovens Jornalistas, iniciativa anual da Direção-Geral da Educação e do PÚBLICO na Escola que nesse ano decorreu em Mafra, decidiu criar o seu próprio jornal na Escola Secundária de Albergaria-a-Velha. Chamou-lhe Sinopse.

“O jornal tem como objetivo dar voz aos alunos, sendo, portanto, um jornal de e para os alunos, mas que não deixa de fora os mais velhos. Criei o jornal porque para além de ter gostado imenso do percurso que fiz no Escrita Irrequieta, também quis fazer algo para os alunos e dar-nos mais voz a nós, jovens, que temos tanta coisa para dizer e que muitas vezes não nos dão a devida atenção. Com o jornal acho que é uma forma de mostrar aquilo que realmente pensamos sobre os mais diversos temas da atualidade e retratar a visão jovem do mundo”, explica.

Antes de irem embora, Mariana e Gabriel subiram com os professores ao primeiro piso do Cineteatro Alba. Numa sala pequena com janelas rasgadas encontraram a exposição que a equipa da biblioteca municipal e do Cineteatro montou para homenagear o tão acarinhado Escrita Irrequieta. “Uaaaau”, iam dizendo várias vezes. O entusiasmo foi tanto, ao encontrar uma mesa com um monte de jornais dos últimos vinte anos, que por momentos se esqueceram das regras e Gabriel pegou num exemplar antigo. “Incrível”, disse enquanto o folheava. Cristina e José Paulo acompanharam-nos e foram dando enquadramento: numa capa estavam alunos de Erasmus de há muitos anos, vestidos à época, numa edição especial o conteúdo lia-se de lado. E ali, de camisolas do Clube de Jornalismo de Informação vestidas, professores e alunos formaram um quadro vivo da paixão pelo jornalismo escolar.

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José Paulo Lourenço e Cristina Silva coordenam o jornal onde Mariana Alves e Gabriel Antão descobriram a paixão pela escrita. Carolina Franco / PÚBLICO na Escola