Uma sexta-feira, num turno da manhã, em que uma das nossas doentes estava com um aparelho de suporte de oxigénio, mas que já não lhe estava a ser útil. E a médica decidiu que se ia retirar o aparelho, dando o conforto necessário à senhora para que pudesse falecer tranquila. A senhora era pianista e foi posto no telemóvel do serviço que nós tínhamos foi posto uma música de um pianista e junto da doente estava somente a médica e a enfermeira. Foi-lhe dada medicação para que ela tivesse o conforto necessário e nós todos, do lado de fora, no corredor, estávamos todos os auxiliares que estavam ao serviço e alguns enfermeiros e foi um momento assim bastante chocante porque no espaço de dez minutos aquela senhora que respirava parou de respirar. As lágrimas, para quem estava com ela, não foram fáceis de se conter, tanto a médica como a enfermeira que estava dentro. Houve colegas que acabaram por desistir e não estiveram lá aqueles dez minutos, não conseguiram. Eu consegui, estive lá até ao fim.
Lucília FrançaAuxiliar do Hospital de Santo António, Porto
Havia uma doente que me dizia:
A sua voz é a única coisa que eu me lembro daqui [dos cuidados intensivos].
Eu falava muito com ela apesar de ela estar totalmente sedada, eu estava sempre a falar com ela.
Anabela BártoloDirectora do serviço de cuidados intensivos do Hospital da Senhora da Oliveira, Guimarães
O senhor vinha numa situação muito grave, não havia sequer crenças da nossa parte que ele pudesse recuperar e voltar a ser o que era. E a esposa ligou e eu tive que lhe explicar isto ao telefone, que é outra coisa que ninguém deveria ter de fazer, e ela começou a chorar ao telefone e dizia-me que:
- Eu nem me pude despedir dele.
E lembro-me das lágrimas me caírem pela face, e aí ainda bem que estávamos a falar ao telefone. A verdade é que ela me pediu para lhe dizer que ela tinha ligado e, para que ele pudesse acreditar que tinha sido ela a ligar, ela disse:
- Diga-lhe por favor que foi o mô que lhe ligou.
Porque era a forma como eles se tratavam entre si. Ela dizia:
- Não é amor, nem mor, é mô.
- Está bem, pronto, então eu digo-lhe isso.
Assim que entrei no quarto, na próxima vez, disse-lhe.
- Olhe que o mô ligou-lhe e deu-lhe um beijinho.
Era uma pessoa que estava em estado praticamente comatoso, abriu os olhos, olhou para mim, sorriu, e a partir desse dia foi sempre a recuperar, sempre a recuperar.
Filipa SantosEnfermeira do Hospital Curry Cabral, Lisboa
Era uma senhora já de mais de 80 anos, com 82 anos, e eu fui lá observá-la. E eu disse à senhora:
- Olhe, este oxigénio que a gente está a fazer já não está a ser suficiente, os seus pulmõezitos estão aqui fraquitos, o seu coraçãozito também está aqui a querer uma ajudinha, e isto não vai lá sem a gente levá-la para outro serviço.
E então a senhora disse-me:
- Ahhh, mas eu nem sequer voltei a ver o meu marido, nem a minha filha.
E eu disse:
- Olhe, mas agora isso não vai dar, sabe, porque infelizmente não há visitas.
Ela cuidava da filha deficiente e do marido que já tinha demência e a senhora estava preocupadíssima porque foi o INEM buscá-la, a ela e ao marido, e teve de deixar a filha com os vizinhos. A filha que era a sua bebé, embora já tivesse cinquenta e não sei quantos anos.
Luís PauloMédico do Hospital Sousa Martins, Guarda
Era um dia bastante crítico, era um caos. Estavam 14 ambulâncias, todas em fila, para ir à urgência. Este médico dirige-se à minha frente virado aos vidros todos, olha para o exterior, não se importou se estava alguém na sala, a nossa sala estava cheia de pessoas a olharem para aquela tragédia, e ele simplesmente curva-se ligeiramente e pega na sua mão direita e faz: Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Adília CordeiroAssistente técnica do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra
Foi impressionante o que a sociedade civil conseguiu fazer para nos apoiar. Eu lembro-me de uma vez que uma senhora, mãe de um dos nossos doentes, ligou a dizer assim:
- Eu queria levar umas garrafas de água para a pediatria, daquelas pequenas para vocês poderem beber na hora e deitar fora. Porque não podíamos correr o risco de as conspurcar.
- Onde é que as devo entregar?
Eu disse que podia entregar então na urgência da pediatria. Ela disse:
- Não, não, é que são muitas.
Veio entregar 1890. Eu decorei: 1890 garrafas de água.
Fátima MenezesDirectora do serviço de pediatria do Hospital de São Sebastião, Santa Maria da Feira
Nós costumamos habitualmente ir aos quartos conversar com os doentes de manhã, perguntar se está tudo bem com eles. E uma auxiliar alertou-me que ele estava muito triste, que não tinha roupa, e eu meti-me mais ou menos com ele.
- Então, senhor Manuel?
- Ai, estou muito triste, veja lá, não tenho roupa para vestir, estes pijamas do hospital...
E eu fiquei a pensar no assunto, mexeu um bocadinho comigo. Então, fui fazer uma comprinhas para o senhor. Pijaminhas, cuecas, meias, umas pantufas e fui oferecer-lhe. O senhor coitadinho começou a chorar e disse:
- Olhe, não sabe o quanto significa este pijama para mim, menina.
Desculpe lá, eu estou um bocadinho comovida porque me estou a lembrar do velhinho, coitadinho. [Disse] para mim:
- A menina vai ficar sempre, sempre no meu coração.
O senhor, passados três ou quatro dias, teve alta e mandou a auxiliar chamar-me para eu ver que ele ia com o pijama que lhe tinha oferecido para casa.
Ana Alves GonçalvesAssistente técnica do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra
Foi o marido de uma senhora que nós cá tivemos, de 30 e poucos anos, que me dizia assim:
- Olhe, doutora, eu deixei a minha mulher à porta da urgência, só fui estacionar o carro e nunca mais a vi.
A senhora foi directamente para a sala de emergência, da sala de emergência veio para aqui e foi internada logo nos cuidados intensivos.
Anabela CarvalhoMédica do Hospital da Senhora da Oliveira, Guimarães
Eram os últimos dias de Março e uma das senhoras não estava a sentir-se muito bem naquele dia. Depois de lhe prestar os cuidados de higiene, incentivei-a a levantar, uma vez que já tinha sido operada há algum tempo. Insisti um bocadinho e sentei-a na cadeira. Mas a senhora pouco tolerou, quis voltar logo para a cama. E, quando a deitei, a senhora agarra-me na mão e conta-me, assim de forma assim muito desesperada:
- Ai, senhora enfermeira, eu nunca mais vejo o meu Carlitos! Ai, o meu Carlitos, que nunca mais o vou ver!
As palavras da senhora parece que me queriam dizer alguma coisa. Provavelmente, a senhora nem sabia da existência do vírus porque nós também não queríamos alarmar... Foi o início de tudo. A senhora foi para uma unidade covid. E, claro, nunca mais viu o Carlitos. O Carlitos, que era o filho com quem ela vivia, o Carlitos que já era um senhor porque estamos a falar de uma senhora com idades ali já na ordem dos oitentas e muitos.
Isabel SilvaEnfermeira do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra
Reuni-me com os internos do ano comum. Os que depois ficaram a trabalhar directamente na urgência foi um grupo de oito internos que disseram:
- Doutora Adelaide, nós estamos consigo. A doutora tem 60 anos, portanto não vai para a frente de combate, não vai para lado nenhum. Nós fazemos o trabalho que quiser que façamos e a doutora dirige-nos e diz o que quer que nós façamos.
Eu fiquei comovidíssima com aquilo.
Adelaide CamposDirectora do serviço de urgência do Hospital Sousa Martins, Guarda
Era um doente prestes a morrer e com grande falta de ar, ainda hoje me comove muito. Agarrei-lhe nas mãos, disse-lhe para ter calma e para ir respirando fundo. E o doente, mesmo assim com muita dificuldade, diz-me, e referiu o meu nome, porque ele tratava-me pelo nome, e disse-me:
- Guida, estou a afundar-me, mas tenho a sorte de estares ao meu lado, vou calmo e em paz.
E apertou-me as mãos e morreu. Foi o meu segundo doente, e é das coisas que ainda hoje me custa e que me marca.
Margarida VazAssistente operacional do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra
A tristeza, ou pior ainda, a revolta, quando já tivemos de tirar ventiladores a utentes de 60 anos para pôr nos de 50, já aconteceu. E virem a chorar, os meus colegas virem a chorar cá para fora, porque condenaram as pessoas, as pessoas acabam por falecer porque a verdade é que tínhamos que fazer escolhas.
Davide CoutinhoEnfermeiro-chefe do Hospital Sousa Martins, Guarda
Era um senhor assim idoso. Ele entrou muito rezingão, muito negativo. Passado uns dias, começou-se a afeiçoar a nós, conseguimos com que ele começasse a comer, a brincar connosco, mas a coisa depois começou a piorar. Cada vez que sentia que lhe estava a faltar o ar ele ficava logo em pânico, [dizia] dêem-me a mão, dêem-me miminhos. Pusemos um cadeirão mesmo ao pé dele para lhe ficar a dar a mão até ele adormecer. Tanto médicos, como auxiliares, como enfermeiros, todos nós fazíamos isso. E ele pedia aos médicos por favor para o salvarem, para não o deixarem morrer, que ainda tinha muita coisa para fazer. Ele até a mão para o senhor do lado esticava, para não se sentir sozinho. Há um dia em que eu chego lá para fazer o turno da noite e estava o cartão de óbito em cima do balcão e deu-me um ataque de choro assim qualquer coisa que já não acontecia há muito tempo.
Ana CostaAssistente operacional do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra
Eu estive com a equipa, quase já com um ano de experiência, que se preparava para entrar para o internamento na noite de Natal. Vi sair da zona limpa, totalmente equipados, com os seus fatos integrais, máscara e viseira, seis, todos iguais, apenas se distinguiam pelo nome que desenhamos à pressa nas costas dos equipamentos para nos conhecermos. Eu fiquei a pensar que aquela gente que alocámos ao covid, toda esta equipa de seis pessoas, tinha filhos pequenos, era noite de Natal, de certeza que um pai e uma mãe adora ver os filhotes abrir os presentes de Natal, jantar com a família, celebrar esta festa da família e eles entraram para uma zona, fechada, hermética, desconhecida, longe de casa, longe dos filhos e dos presentes e eles gostariam de estar em casa, mas de facto não podiam.
Júlio SalvadorEnfermeiro supervisor do Hospital Sousa Martins, Guarda
As famílias dos doentes covid agradecem muito mais o nosso trabalho, dizem que sabem que nós estamos a fazer o melhor, interagem muito mais, mesmo não vindo cá. Pelo telefone são muito mais comunicativos, contam-nos o que se passa com eles a nível do agregado familiar, o que é que andam a fazer, tudo o que lhes acontece lá em casa eles contam-nos, querem contar, mesmo que saibam que a gente não vai dizer ao doente e que o doente está a dormir, mas eles contam-nos a nós como se estivessem a falar com o doente ao lado.
Rute MilheiroMédica do Hospital da Senhora da Oliveira, Guimarães
Eu tenho apanhado os doentes quase maioritariamente já todos entubados, mas uma senhora que ainda está connosco, e talvez seja a que mais me marcou, porque a senhora entra cá em ventilação espontânea, a falar. Tinha oportunidade de falar com o filho, mas ela não gostou do aspecto dela, disse que não queria falar com a família, que não queria que o filho a visse assim. No dia seguinte, a doutora decidiu e explicou-lhe que tinha que ser entubada e a senhora, nem sei explicar, mas o olhar dela disse tudo. E ainda falou com a doutora, a perguntar se ela ia sobreviver ou se ia acordar. E a gente não tem palavras para lhe dizer nessa altura, dizemos que vai ficar tudo bem. É o lema.
Sandra OliveiraEnfermeira do Hospital da Senhora da Oliveira, Guimarães
Lembro-me perfeitamente de ter uma doente, de cerca de sessenta anos. Esta doente, durante aquele quinze ou vinte minutos em que esteve em agudização até descer para os cuidados intensivos, perguntou-me inclusive que horas eram porque tinha uma encomenda que ia chegar e que nós não nos esquecêssemos de ir buscar a encomenda. E na altura, no meio daquela confusão e daquela azáfama, eu achei que ela estava a falar de bens pessoais. E, portanto, na altura descansei-a e disse-lhe:
- OK, são dez e meia, a encomenda chega às onze, nós vamos buscar, não se preocupe.
A doente desceu para os cuidados intensivos, foi ventilada, acabei o meu turno de quatro horas lá dentro e quando saí para a área limpa [riso] deparei-me cá fora com aquilo que tanto angustiava a doente numa altura em que todas as preocupações dela deveriam ser outras e não essa. E, portanto, quando cheguei cá fora tínhamos várias caixas de bolas de Berlim que a doente tinha pedido para nós.
Cátia GonçalvesEnfermeira do Hospital de Santa Luzia, Viana do Castelo
O pai esteve internado primeiro, e faleceu lá e depois o filho acabou por ficar internado também no nosso internamento covid. Nós temos duas alas e ele na altura até nos pediu se o podíamos trocar de quarto para não ficar na ala onde o pai tinha falecido. Tinha sido na semana anterior.
Paula NevesDirectora do internamento covid-19 do Hospital Sousa Martins, Guarda
Eu já não tenho mãe e vivo ao lado do meu pai, que tem 87 anos. E sempre fomos muito próximos, sempre fui eu que cuidei do meu pai, embora ele ainda seja independente. Um dia eu estava-lhe a contar que tinha sido transferido o nosso primeiro doente da enfermaria para o Hospital Geral dos Covões e ele estava um bocadinho consternado e um bocadinho assustado. E o meu pai, com as lágrimas nos olhos, virou-se para mim e disse:
- Filha, eu é que tenho esta idade, mas eu tenho tanto medo de te perder, minha filha.
Ofélia ForteAssistente operacional do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra
Tive uma situação muito específica de um casal que esteve aqui internado, marido e mulher, em que estavam os dois instáveis, portanto, iam ser os dois transferidos para as unidades de cuidados intensivos. Foram os dois transferidos numa manhã, mas nós não tivemos tempo para eles se despedirem. Eu transferi um, depois fui transferir outro, eles não se conseguiram ver nestes entretantos e depois o senhor acabou por falecer e, portanto, nunca mais se viram.
Filipa LopesEnfermeira do Hospital de Santa Maria, Lisboa
Na altura o senhor João, ele estava na cama cinco, esteve ventilado, não é, e depois destubaram, tiraram o tubo e então estava a dar o Sporting, que ele era do Sporting, e virámos a cama, e ele esteve a ver então o Sporting. A gente estava a falar com ele e ele mal falava, estava com muita falta de ar e depois veio o médico lá de dentro e disse:
- Senhor João, temos muita pena, mas temos que o entubar novamente.
E ele respondeu:
- Deixe-me só acabar o meu Sporting, visto que ele vai ganhar a taça e eu acho que nunca mais vou ver o meu Sporting jogar.
Sandra ReisAssistente operacional do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra
Ele, apesar daquela falta de ar toda, pediu se era possível ir lá fora porque tinha... tinha... [choro] algo a tratar. Eu perguntei que assuntos eram e ele disse:
- Olhe, tenho a minha filha a viver comigo mais o meu neto, e eu precisava de ir à câmara para pedir autorização para que a minha filha ficasse na minha casa, onde eu tenho a casa alugada, que é uma casa social porque a renda era menor e ela provavelmente terá de ser despejada de lá porque nós não tratamos de nada antes de eu entrar.
Eu infelizmente, apesar de compreender, eu disse:
- Olhe, ó senhor F., vocês não pode sair daqui. Não consegue arranjar maneira de passar uma procuração ou algo?
As visitas estavam proibidas, mas nós facilitávamos, se fosse caso disso. E ele nunca chegou a tratar de nada e passado uns dias teve de ser entubado endo-traquealmente e acabou por falecer, infelizmente para mim numa altura em que eu não estava cá e, claro, fiquei muito triste.
Ismael CarvalhoEnfermeiro do Hospital de Santo António, Porto
Ele era um médico jovem, por isso é que aquilo me impactou tanto. E ele tinha estado infectado e estava a regressar ao serviço. Estávamos todos ali e as colegas estavam-lhe a dizer:
- Então? Como é que foi,