O melhor do cinema em 2024
As melhores estreias em Portugal de 2024. Escolhas de Jorge Mourinha, Luís Miguel Oliveira e Vasco Câmara.
10
O Mal não Está Aqui de Ryusuke Hamaguchi
Ao Óscar de Drive My Car respondeu o realizador japonês com a sua proverbial modéstia formal — e com um filme mais difuso, menos evidente, mas igualmente apaixonante, sobre o sentido de comunidade, a relação com a natureza, os compromissos da vida moderna. Tudo de modo orgânico, sem perder a sua elegância tranquila e atenção ao detalhe, mas trabalhados com uma ambiguidade mais desconfortável do que se esperaria. J.M.
9
O Rapto de Marco Bellocchio
Ninguém estaria à espera que o mais vital e consistente dos cineastas italianos contemporâneos continuasse a ser Marco Bellocchio, 84 anos — um dos poucos a saber medir-se com a história do cinema italiano e com a história de Itália, sem nostalgias serôdias nem modernismos de encher o olho. O Rapto, retrato impiedoso de uma batalha pela paternidade espiritual que ganha novos contornos nos dias que correm, é um filme esmagador. J.M.
8
Megalopolis de Francis Ford Coppola
Monumento à megalomania “independente” de Coppola (120 milhões de dólares pagos com o dinheiro das vinhas), nenhum filme estreado em 2024 levantou mais poeira, nenhum trouxe agregado um rumor tão intenso (nem um hype tão negativo). Curiosamente, Megalopolis também é sobre isso: o rumor do nosso tempo, a fealdade estética e moral do nosso tempo, a espécie de intensa cacofonia em que tudo vive. Mas sem a forma de um “discurso”, antes uma parábola, teatralizada e mascarada, um satyricon nova-iorquino arriscado e provocador. Não é “arte de elefante branco”, antes a mais insidiosa forma de “arte de térmita”: a que vem disfarçada de elefante branco. L.M.O.
7
Tudo o que Imaginamos como Luz de Payal Kapadia
Retrato de três mulheres, sinfonia de uma cidade, Bombaim, dessas vozes fica-nos um rumor. Segreda-nos a frustração social e o desejo. É um murmúrio, é uma brisa, é uma carícia, mas também uma tenaz. Primeira longa-metragem da cineasta indiana, Grande Prémio de Cannes 2024, é um filme delicado e sussurrante – espantosa é a intervenção sobre o som –, meiga a maneira como o documentário se envolve na ficção. Um dos últimos acontecimentos cinematográficos do ano, chega às salas na próxima semana. V.C.
6
O Longo Adeus de Kira Muratova
Num ano em que Portugal teimou em continuar a mostrar filmes e cineastas que não viu em devido tempo, em boa hora se debruçou sobre Kira Muratova (1934-2018), nome maior do cinema soviético pós-Segunda Guerra, estreando Breves Encontros (1967) e O Longo Adeus (1971). Com ligeira vantagem para este último, retrato límpido de uma relação doentia entre mãe e filho, pérola descarnada sobre a perda das ilusões que não ganhou uma ruga com os 50 anos que tem em cima. J.M.
5
Os Delinquentes de Rodrigo Moreno
Tal como vem acontecendo com o cinema iraniano, temos sido actualizados com as novidades do cinema argentino – cinematografias que se desenvolvem sob vigilância da censura, política num caso, económica noutro. E é disso que fala, afinal, o filme de Rodrigo Moreno ao fazer do heist film, ou o filme que narra um golpe, uma epopeia existencialista – e, através dela, um filme político (sobre o poder dessa abstracção que é… o dinheiro). Com Os Delinquentes fomos levados até algo delapidado, desgastado: a vertigem romanesca do cinema. Só por isso foi um exercício de libertação. V.C.
4
Folhas Caídas de Aki Kaurismäki
O Chaplin dos tempos modernos é da Finlândia, mas vive também em Portugal, e Folhas Caídas é mais uma belíssima fábula do lumpemproletariado. História de amor, cheia de desencontros (ou de “breves encontros”), entre um metalúrgico alcoólico e uma funcionária de supermercado, serve a Kaurismäki, pela enésima vez, para reencontrar o realismo político e social a partir de uma deriva pelo romantismo e pelas piscadelas de olho cinéfilas. O espectador ri e chora, frequentemente ao mesmo tempo, como já quase nunca acontece. L.M.O.
3
Terra Queimada de Thomas Arslan
Juntem-se os filmes de Jean-Pierre Melville com O Profissional de Walter Hill e uns pozinhos de Michael Mann num laboratório alemão e obtém-se Terra Queimada, o mais radicalmente ascético e rigoroso filme policial visto em muitos anos. Para mais, este noir bressoniano (para fechar o círculo de referências) é profundamente político: um mundo de gangsters, de onde a ordem se ausentou e todos enganam todos, microcosmo perfeito da terra queimada da Europa tecnocrática. L.M.O.
2
Desconhecidos de Andrew Haigh
Lamentável que os espectadores portugueses, ao contrário de outros europeus, não tivessem tido o direito ao silêncio, em vez da ruidosa corrupção do streaming, de uma sala cheia de espectadores. A solidão povoada: uma presença espessa, intimidante, a vigiar a peça de câmara fantasmagórica que Andrew Haigh escreveu e Andrew Scott, Paul Mescal, Claire Foy e Jamie Bell protagonizaram como um espectáculo da vida com a morte. É para já o ápice do trabalho de Haigh sobre a intimidade e (o cheiro) a decomposição do par, depois de Weekend (2011) e 45 Anos (2015). V.C.
1
Bowling Saturno de Patricia Mazuy
É difícil de ver, é – particularmente aquela longa, longuíssima, cena de violência, que, para além de crucial, é extraordinariamente bem filmada (e é longa porque tem de ser longa, como a cena de pugilato no Eles Vivem de John Carpenter). Mas ninguém diz, ou até há pouco tempo não costumava dizer, que os filmes, sobretudo os grandes filmes, têm de ser fáceis de ver: a dureza e a frieza de Bowling Saturno são, no panorama contemporâneo, uma bênção.
É um filme sobre o subterrâneo político francês contemporâneo, os fantasmas todos em movimento, mas a política é dada em forma de mitologia (uma história de dois irmãos, quase bíblica, que reencontra o filme de estreia de Patricia Mazuy, Peaux de Vaches, de 1989), uma grande assombração sem nome onde a violência misógina rima com a violência ecológica (os caçadores) e através disso passa da assombração, do espectro, à carne e aos corpos. Um pouco como um descendente de Fritz Lang (o de While the City Sleeps) a dançar em cima do vulcão de Jean Renoir em A Regra do Jogo. Custa? Custa. Mas para coisas que não custam já temos a Netflix. L.M.O.
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