Onde o tempo criou raízes: as árvores que contam a história de Portugal são Património de Interesse Público

Existe uma oliveira que viveu três milénios? Como é que um mero sobreiro escapou aos machados de exércitos invasores? Que segredo permite a uma nogueira permanecer congelada no tempo desde a era dos dinossauros? Enraizadas na terra e na memória, estas árvores monumentais são arquivos vivos que sobreviveram gerações. Mais do que meros elementos botânicos, são Património de Interesse Público.

Portugal preserva centenas de árvores classificadas como de Interesse Público pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF): são exemplares protegidos não apenas pelo valor natural, mas também pela história e identidade que carregam. Muitas delas atravessaram séculos e sobreviveram ao tempo, tornando-se símbolos vivos do património português.

Árvores que antecedem a História

Estas são algumas das árvores que pertencem ao repositório de arvoredo de Interesse Público do ICNF.

Cada árvore conta uma história. Continue a leitura para as conhecer.

1350a.C.

Nogueira-do-japão

Nogueira-do-japão

Jardim das Virtudes, Porto

anos

Sobreiro do Rei

Sobreiro do Rei

Tapada Nacional de Mafra

anos

Oliveira do Mouchão

Oliveira do Mouchão

Abrantes

anos

Oliveira do Mouchão Olea europaea L. var. europaea

É considerada a árvore mais antiga de Portugal.

É também um marco da cultura e das tradições locais: os pescadores costumavam reunir-se junto dela, uma espécie de linha de partida numa corrida até aos pesqueiros.

O pescador que chegasse primeiro ao Tejo tinha a oportunidade de escolher a pesqueira do mouchão, a melhor zona para pescar.

No ano de 776 a.C., ocorreram os primeiros Jogos Olímpicos na Grécia.

No ano de 476 d.C., deu-se a queda do Império Romano do Ocidente.

Entre os anos de 1347 e 1351, sobreviveu à peste negra na Europa.

Sobreiro do Rei Quercus suber L.

Testemunhou a criação e o passar do tempo na Tapada Nacional de Mafra, onde nasceu há 385 anos.

Entre 1744 e 1747, o rei D. João V mandou comprar terrenos e criar a Tapada com o objectivo de a tornar não só uma zona de caça, mas uma zona de lazer da família real.

Sobreviveu às invasões francesas em 1810, quando foram mandadas abater dezenas de milhares de árvores para fins militares.

Nogueira-do-japão Ginkgo biloba L.

Terá sido mandada plantar no Jardim das Virtudes no Porto há 200 anos, por D. Fernando II.

Está inserida no Património Mundial da UNESCO.

Esta espécie é considerada um fóssil vivo e foi uma das que resistiu à bomba de Hiroxima, em 1945.

Testemunhou o fim da monarquia em 1910, com a implantação da República Portuguesa.

Sobreviveu aos dois grandes conflitos mundiais do século XX: a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Onde estão as árvores de Interesse Público?

As árvores classificadas contam uma história que atravessa gerações. Algumas cresceram junto de mosteiros, outras marcaram paisagens rurais ou testemunharam transformações urbanas.

Explore o mapa e descubra onde se encontram os exemplares protegidos em Portugal.
Utilize os filtros para explorar diferentes espécies, idades e tipos de classificação.

Árvores em destaque

Oliveira do Mouchão
Sobreiro do Rei
Nogueira-do-japão

Como medir a idade de uma árvore?

A forma mais comum de determinar a idade de uma árvore é contar os seus anéis de crescimento. Cada anel corresponde, normalmente, a um ano de vida. Estes anéis podem ser vistos ao cortar o tronco na base da árvore.

Interaja com os elementos para descobrir pormenores.

Contar a idade das árvores nem sempre é um processo simples. O método tradicional exigia cortar o tronco para contar os anéis de crescimento, o que acabaria por matar a árvore caso fosse feito num exemplar vivo. Além disso, em espécies de zonas tropicais, estes anéis são muitas vezes imperceptíveis.

Para evitar a destruição, os especialistas utilizam o trado de incremento, uma ferramenta que permite retirar um pequeno cilindro de madeira do tronco, na horizontal, sem ter de cortar a árvore. É um método menos invasivo, mas que ainda assim pode prejudicar exemplares mais antigos.

Face a estes riscos, têm sido desenvolvidos, ao longo dos anos, métodos baseados em medições directas ou em modelos matemáticos preditivos.

Carta de identificação da árvore de Interesse Público:

Nogueira do Japão

Espécie: Ginkgo biloba L.

Nome vulgar: Nogueira-do-japão

Localização: Jardim das Virtudes, Porto, Portugal

Idade: 200 anos, nascida em 1826

Idade e porte:

É do século XVIII, mede cerca de 36 metros de altura e possui um perímetro de tronco superior a quatro metros.

Relevância europeia:

É considerada a maior árvore da sua espécie em Portugal e uma das maiores e mais altas de toda a Europa.

Fóssil vivo:

É uma das espécies de árvores mais antigas do planeta, existe há mais de 100 milhões de anos.

Em Portugal, qualquer cidadão ou entidade tem o poder de sugerir a protecção de uma árvore, mas o caminho até à publicação oficial em Diário da República exige um complexo processo técnico e burocrático. Actualmente, o país conta com cerca de 500 processos de arvoredo classificado, um número dinâmico que tanto cresce com novos pedidos, como encolhe devido a desastres naturais.

Para que um exemplar seja efectivamente reconhecido como de Interesse Público, a decisão do ICNF assenta em rigorosos critérios e parâmetros de apreciação. Além de ter de cumprir, pelo menos, um dos requisitos gerais estabelecidos por lei, a árvore tem obrigatoriamente de demonstrar resistência estrutural, um bom estado fitossanitário e vitalidade global.

O que distingue uma árvore comum de uma protegida por lei

Faça scroll para descobrir.

Passo 1 da classificação de arvoredo Passo 2 da classificação de arvoredo Passo 3 da classificação de arvoredo Passo 4 da classificação de arvoredo Passo 5 da classificação de arvoredo Passo 6 da classificação de arvoredo

Passo 1:

Requerimento

Para dar início ao processo, tem de existir um requerimento de solicitação. Este tem de ser feito por um cidadão ou entidade e deve fundamentar o motivo da classificação.

Passo 2:

Vistoria técnica

Os técnicos locais realizam a vistoria no terreno para verificar se o exemplar cumpre os requisitos da lei.

Passo 3:

Zona geral de protecção

Se o arvoredo reunir condições, o ICNF define uma zona geral de protecção ao redor da árvore. Nesta fase, todos os potenciais interessados são notificados.

Passo 4:

Restrições e audiência prévia

A classificação implica restrições para garantir a sobrevivência do exemplar. Na área de protecção, passa a ser proibida qualquer acção que possa interferir na saúde da árvore.

Passo 5:

Projecto de decisão

Com base na vistoria e na análise dos parâmetros, o ICNF elabora um projecto de decisão fundamentado. É o documento que sustenta tecnicamente a razão pela qual aquela árvore merece o estatuto de Interesse Público.

Passo 6:

Decisão final

Se não houver impedimentos, o processo avança para a decisão final, assinada pelo Conselho Directivo do ICNF. O despacho é publicado em Diário da República, momento a partir do qual a classificação produz todos os seus efeitos oficiais e permanentes.

Ficha técnica

Ilustração e infografia

Catarina Seemann, José Alves e Francisco Lopes

Fontes: Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF)