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Julie e Rosina salvam animais da morte certa, em matadouros, e adoptam-nos

Vacas, porcos, cabras, patos são animais que têm uma relação trágica com a indústria de produção de carne. As alemãs Rosina e Julie resgatam-nos de matadouros e estabelecem com eles ligações de amizade. "Distinguimos animais que amamos — os de estimação — de todos os outros, que consideramos meros produtos de consumo. Essa distinção é completamente superficial."

Do fotolivro Companions © Yana Wernicke 2023 cortesia de Loose Joints
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Do fotolivro Companions © Yana Wernicke 2023 cortesia de Loose Joints

Quando a fotógrafa alemã Yana Wernicke conheceu, em 2020, Julie e Rosina, já sabia que queria debruçar-se sobre o tema da relação entre pessoas e animais. Começou por visitar os santuários de animais do seu país e fotografar pessoas a cuidar deles. "Visitei Julie e Rosina durante um longo período e percebi, lentamente, que o meu projecto iria ser sobre elas", conta ao P3 a autora do fotolivro Companions, editado recentemente pela Loose Joints. "Fiquei impressionada com a forma como estas mulheres assumiram a enorme responsabilidade de cuidar destes animais sem qualquer ajuda externa. A amizade que nutrem pelos animais que resgataram é diferente de tudo o que já tinha visto."

Julie e Rosina vivem a mais de 300 quilómetros de distância, mas ambas decidiram assumir a missão de resgatar "animais tipicamente considerados apenas pelo seu valor económico" das teias da indústria pecuária e acolhê-los nas suas propriedades. "[Elas] resgatam-nos de diversos lugares: de matadouros, de recintos de indústria pecuária ou de propriedades de indivíduos que não vêem qualquer serventia em mantê-los", explica Yana. "Por exemplo, um dos touros que foi resgatado tornou-se impotente após um acidente e o seu dono deixou de querer mantê-lo."

Até ao presente, Julie salvou vacas, exclusivamente. "Actualmente, ela é responsável por 13 vacas. Nem todas vivem com ela, porque não tem espaço para todas." Rosina, no entanto, cuida de algumas vacas, duas cabras, três porcos, um pato. Para além disso, tem também um cão e um gato. "Têm relações muito diferentes com cada um dos animais. Alguns podem ser mais difíceis do que outros, e nem todas as relações se desenvolveram à mesma velocidade. Por exemplo, Julie contou-me que a relação com uma das suas vacas se desenvolveu ao longo de vários anos. No início, não foi fácil, mas com o tempo acabaram por compreender-se melhor."

A única motivação das jovens mulheres, explica a fotógrafa de 33 anos, é salvar animais da indústria de produção de carne. Ao longo do tempo, "as vidas de Julie e Rosina tornaram-se indissociáveis das dos seus animais, com mantêm uma relação muito especial". "Existe confiança e carinho, mas também uma grande dose de responsabilidade e pressão. (...) Todo o dinheiro que fazem vai para o cuidado dos animais. Nenhuma delas é rica ou tem famílias ricas e é comum viverem com algumas dificuldades financeiras. Recebem doações através das redes sociais que são cruciais para a manutenção desta missão." 

Para Yana Wernicke, fotografar o projecto ajudou-a a compreender o motivo pelo qual sempre ansiou por companhia animal, mas não só. "Uns meses antes de ter conhecido Julie, adoptei uma cadela que ia ser abatida num canil", conta. "Eu adoro-a, mas ela tem um temperamento difícil e ainda sente alguma dificuldade em adaptar-se à sua nova casa. Observar a relação de aceitação que Julie e Rosina têm com os seus animais ajudou-me a entender a perspectiva do animal e a compreendê-la melhor." Define os mundos que as jovens alemãs criaram como "mágicos". "Estes são lugares seguros onde os animais e as pessoas podem ser quem lhes apetecer, onde podem meramente existir enquanto compinchas."

Existe uma diferença clara na forma como o ser humano trata diferentes tipos de animais. "Distinguimos os animais que amamos — os de estimação — de todos os outros, que consideramos meros produtos de consumo", reflecte a alemã. "Essa distinção é completamente superficial e nunca foi tão extrema como é agora. Dissociamo-nos de alguns animais para não sentirmos culpa ao comê-los, mas sentimos repulsa pela ideia de comer um gato ou um cão." Essa contradição recorda a Yana a obra de John Berger Porquê olhar os Animais?que discorre sobre a solidão do ser humano moderno no mundo animal.

"A maioria dos animais desapareceram das nossas realidades, das nossas vidas quotidianas", observa. "O ser humano sempre procurou ligar-se aos animais que o rodeavam, ao longo da história, mas parece que agora se fechou a qualquer hipótese de isso acontecer." O conceito de solidão da espécie humana de Berger "refere-se a um tipo de nostalgia associada ao regresso a um mundo em que as vidas de pessoas e animais se misturam entrelaçam novamente". Uma ideia, que, diz, "está no cerne deste projecto": "As relações entre pessoas e animais podem tornar-nos mais humildes, mais conscientes do facto de sermos também animais e aproximar-nos do mundo natural", conclui. 

Num mundo ideal de Yana, "as relações entre humanos e animais seriam baseadas em respeito mútuo". "Nenhum animal teria de sofrer ou morrer para nosso próprio prazer. Mas sei que isto não é realista e tenho noção de que existem razões pelas quais nunca será possível que todo o mundo se torne vegan." Por isso, assume que tenta não passar demasiado tempo a sonhar, mas sim a trabalhar sobre o que pode ser feito ou melhorado. "Se nós conseguirmos olhar de frente os nossos processos de dissociação e redescobrir empatia pelos nossos amigos animais, poderemos diminuir o seu sofrimento. E isso seria um grande passo em frente."

Do fotolivro Companions
Do fotolivro Companions © Yana Wernicke 2023 cortesia de Loose Joints
Do fotolivro Companions
Do fotolivro Companions © Yana Wernicke 2023 cortesia de Loose Joints
Do fotolivro Companions
Do fotolivro Companions © Yana Wernicke 2023 cortesia de Loose Joints
Do fotolivro Companions
Do fotolivro Companions © Yana Wernicke 2023 cortesia de Loose Joints
Do fotolivro Companions
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Do fotolivro Companions
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