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Artista senegalês "invadiu" as fotografias da América segregada dos anos 1950 e 60

Being There reúne as fotografias impossíveis da América da era da segregação racial. Omar Victor Diop e Lee Shulman, de Anonymous Project, viajam no tempo e "reescrevem a História​" norte-americana.

©Omar Victor Diop & Lee Shulman / The Anonymous Project
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©Omar Victor Diop & Lee Shulman / The Anonymous Project

Quando, em 2017, o norte-americano Lee Shulman criou o famigerado Anonymous Project (AP), um arquivo que reúne cerca de um milhão de slides Kodachrome caseiros fotografados por cidadãos anónimos dos Estados Unidos, reparou que muitas das imagens descreviam "essencialmente pessoas brancas de classe média dos anos 1950", um período marcado pela segregação racial nos EUA. Em muitas delas, existia uma cadeira ou lugar vazio que era aquela onde se sentava o fotógrafo. "Pensei que seria interessante colocar alguém naquele espaço e foi assim que pensei em Omar Victor Diop", cujo trabalho, de tom afincadamente político, gira em torno da auto-representação.

É assim, no cruzamento das fotografias de época do AP e do input do artista senegalês, que nasce o projecto Being There, que resulta num conjunto de fotografias impossíveis, pela presença de Diop, da América segregada dos anos 1950 e 60. “Uma das razões pelas quais aceitei [o repto de Shulman] foi o facto de, desde que comecei a fazer auto-retratos, tentar criar uma espécie de odisseia no tempo, em diferentes contextos, por vezes até num futuro alegórico”, lê-se no comunicado enviado ao P3 pelas galerias Binome e Magnin-A, que representam os dois artistas. “É uma forma de me projectar em mundos que não são necessariamente acessíveis para mim, como a América dos anos 50.”

Ao introduzir-se no contexto espaciotemporal específico da América segregada de meados do século XX, Omar Victor Diop e Lee Schulman revisitam a História, reescrevendo-a. Os lugares onde Diop figura, nas imagens, não lhe seriam acessíveis, à época, devido às políticas de segregação racial em vigor nos EUA. A sua presença torna-se, assim, num exercício de forças entre o trivial e o extraordinário, entre o documentarismo e a encenação.

©Omar Victor Diop & Lee Shulman / The Anonymous Project
©Omar Victor Diop & Lee Shulman / The Anonymous Project
©Omar Victor Diop & Lee Shulman / The Anonymous Project