Startup Capital Summit: Impulsionar a Inovação em Portugal

São três as constantes da evolução tecnológica: ritmo acelerado, imprevisibilidade e… Coimbra, um município cada vez mais central no empreendedorismo português.

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É já a 10 de Maio que o ecossistema português de inovação e um conjunto amplo de investidores se reúnem para uma nova edição do Startup Capital Summit, uma organização da Universidade de Coimbra, Instituto Pedro Nunes (IPN) e da Câmara Municipal de Coimbra, que em poucos anos se consolidou como o evento líder em Portugal para capital de risco, empreendedorismo e transferência de tecnologia. Esta será «a» data onde inovadores se apresentam a investidores e onde estes tomam contacto com novos projectos, culpa de um evento que tem crescido a olhos vistos desde a primeira edição, em 2019, data em que a Universidade de Coimbra apostou na criação deste Summit para dinamizar o ecossistema do empreendedorismo.

Se na primeira edição do Startup Capital Summit a organização conseguiu reunir 350 participantes, este ano já são esperados mais de 1.100, incluindo, investidores, startups, empresários, investigadores e estudantes, - um número que pode crescer, já que as inscrições ainda decorrem até dia 7 de Maio. A evolução do total de participantes no Startup Capital Summit é sintoma não apenas da vitalidade do evento, como também do seu impacto positivo. O potencial é imenso, assumem organizadores e participantes, pelo que o dia será intenso.

O dia arranca com a organização de vários debates numa Conferência que decorre no Grande Auditório do Convento São Francisco. Aqui abordar-se-á a Inteligência Artificial, o Empreendedorismo ou o Capital de Risco. Já na parte da tarde, a organização aposta no dinamismo e na informalidade: os trabalhos são alargados, com a realização de oito painéis, 19 pitches, 12 talks e quatro workshops, num modelo que desafia cada participante a criar a sua própria agenda. Haverá também uma sala destinada para reuniões 1-to-1, oferecendo-se um espaço exclusivo para fomentar contactos iniciais entre investidores e empreendedores.

Inteligência Artificial e o exemplo de San Francisco

O uso responsável da Inteligência Artificial será o primeiro dos temas da Conferência da manhã. E este será particularmente relevante, não apenas pela «explosão» inovadora associada à IA, como porque ocorre pouco depois do Parlamento Europeu ter adoptado a primeira Lei mundial com obrigações para a inteligência artificial (IA). Maria Manuel Leitão Marques, eurodeputada portuguesa, e uma das responsáveis por este passo histórico, será uma das participantes.

“A regulamentação de novas tecnologias foi sempre um desafio complexo para os legisladores. Não é fácil encontrar um bom equilíbrio entre explorar o seu potencial e, ao mesmo tempo, prevenir certos riscos que decorrem delas. Foi assim durante a revolução industrial com a introdução de máquinas que poderiam pôr em causa a segurança dos trabalhadores. Agora, é ainda muito mais difícil com a IA, devido ao ritmo acelerado em que se desenvolve. Parece que vamos sempre a correr atrás dela e nunca apanhamos. Ainda assim, é importante regular para que possamos confiar na inovação”, aponta em antecipação do debate de dia 10.

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A inovação só vale a pena se for segura e confiável (...) Se o risco for pequeno, não há exigências especiais para quem desenvolve aplicações de IA” Maria Manuel Leitão Marques, Eurodeputada

Para a eurodeputada, e mesmo discordando-se com esta ou aquela norma regulatória, o importante é manter o foco naquilo que se quer: “Imaginemos um sistema de IA que permite ler rapidamente imagens de um tumor. É tão mau aquele que nos dá um falso positivo, que pode transformar uma vida e conduzir a procedimentos médicos evasivos, causando danos irreparáveis, como aquele que nos dá um falso negativo e retarda um tratamento. Em suma, a inovação só vale a pena se for segura e confiável”. Sobre a lei aprovada, sublinha como o Parlamento Europeu adoptou uma abordagem assente no risco, ou seja, diz, se “o risco for pequeno, não há exigências especiais para quem desenvolve aplicações de IA”. Já em casos de risco limitado, “como acontece, por exemplo, com aqueles chat bot com quem “falamos” muitas vezes, as empresas têm obrigações especiais de transparência, que permitem aos utilizadores saber que estão a falar com uma máquina e poderem requerer assistência humana”. Por fim, no caso de uma aplicação de risco elevado, “como o exemplo que dei sobre o cancro ou outras aplicações - algoritmos que nos seleccionam ou excluem de um emprego, um crédito ou um seguro de vida - há obrigações mais exigentes para quem as desenvolve”.

E se ao nível da IA estamos em fase de testar terrenos nunca explorados, já em termos de empreendedorismo há muito que Portugal pode retirar dos exemplos de outros países, como é o caso de Silicon Valley, foco de outro dos debates de dia 10, que contará com representantes da JP Morgan, EY-Parthenon e com Teresa Fernandes, do AICEP em São Francisco. E o que podemos extrair do exemplo de São Francisco? «Em geral, as razões apontadas para o sucesso de São Francisco/Silicon Valley relacionam-se com a combinação da disponibilidade de talento, capital, uma cultura de inovação e infraestrutura», aponta a responsável do AICEP.

Segundo Teresa Fernandes, em São Francisco respira-se “uma cultura que celebra a assunção de riscos e inovação”, existindo por detrás desta cultura um “centro global de capital de risco» que, também ele, assume e não receia o risco, disponibilizando capital abundante para que os empreendedores «transformem as suas ideias em negócios viáveis e expandi-los rapidamente”. Mas na base do exemplo de Silicon Valley, diz, está sobretudo a presença de “algumas das universidades mais prestigiadas do mundo, incluindo a Universidade de Stanford e a Universidade da Califórnia, Berkeley”, instituições que “produzem um fluxo constante de diplomados altamente qualificados em tecnologia, engenharia e marketing”. Este é precisamente o caminho que Coimbra pretende seguir, unindo empreendedores, investidores e a academia num mesmo espaço. Daí o rápido sucesso do Startup Capital Summit junto da comunidade.

Academia, Inovação e Poder Local: A tríade decisiva

Amílcar Falcão, Reitor da Universidade de Coimbra, explica o sucesso do evento com o seu impacto e o sucesso desde a primeira edição. “A existência de mais e melhores projectos acaba por arrastar consigo mais gente interessada em saber o que fazemos, como fazemos, e como transferir o que temos vindo a fazer”. Mas também a profissionalização é um factor-chave: “Os resultados aliados a uma resposta mais profissional que tem origem na UC Business, explica o crescimento dos números associados a esta iniciativa. Adicionalmente, o papel desempenhado pelo Instituto Pedro Nunes e o apoio do Município, são também contributos importantes para olharmos para Coimbra como uma cidade comprometida com a Inovação”, conclui.

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A existência de mais e melhores projetos acaba por arrastar consigo mais gente interessada em saber o que fazemos, como fazemos, e como transferir o que temos vindo a fazer" Amílcar Falcão, Reitor da Universidade de Coimbra

Ao impacto e sucesso do evento, junta-se, este ano, o facto de coincidir com a entrada em funções de um novo Governo, fazendo do Startup Capital Summit de 2024 num palco onde o Executivo pode começar a compreender o que falta fazer neste campo. E que mensagem gostaria Amílcar Falcão de fazer chegar à tutela? «Fundamentalmente que se lembrem que a produção de conhecimento e a sua transferência para a sociedade é fundamental para a economia», aponta o Reitor da UC. «Devemos ser mais ágeis e apoiar mais as instituições que têm sido capazes de cumprir esse papel. Não temos todos de fazer o mesmo. O que temos todos é fazer bem aquilo que sabemos fazer», propõe.

Já para João Gabriel Silva, presidente do Instituto Pedro Nunes, incubadora da Universidade de Coimbra (UC), “o crescimento do Startup Capital Summit demonstra o sucesso do evento e a sua rápida adopção pelo ecossistema”. Na base deste sucesso, diz, estão os temas escolhidos: “O Startup Capital Summit aborda temas de grande relevância para o momento actual, como capital de risco, inovação, empreendedorismo e transferência de tecnologia. Esses temas atraem um público cada vez mais interessado, composto por startups, empresas, investidores, academia e entidades do sector público», aponta. Mas João Gabriel Silva enaltece também o formato dos trabalhos como uma mais-valia do evento, já que o torna «dinâmico e interactivo, com palestras, workshops, networking e oportunidades de pitching para startups”, o que “garante que os participantes encontram valor no evento e retiram dele conhecimentos e oportunidades”, diz.

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O crescimento do Startup Capital Summit demonstra o sucesso do evento e a sua rápida adopção pelo ecossistema" João Gabriel Silva, Presidente do Instituto Pedro Nunes

A proximidade entre a Academia e o Poder Local é, de facto, um dos elementos-chave do sucesso do Startup Capital Summit, reconhecem as entidades organizadoras. José Manuel Silva, Presidente da CM Coimbra, salienta mesmo que as “sinergias entre empresas, instituições de ensino superior e incubadoras é essencial para fortalecer o ecossistema empresarial e económico”, e é a união destes três eixos que torna possível que todos potenciem os seus pontos fortes. “Ao unirmos, em Coimbra, Câmara Municipal, Universidade, Politécnico, Instituto Pedro Nunes, iParque, IEFP e outras entidades, o resultante trabalho conjunto tem sido um catalisador importante neste processo de fortalecimento e desenvolvimento sustentável e sustentado. Estas iniciativas têm colocado as características competitivas de Coimbra no radar dos investidores”, reforça.

Também Pedro Mello Breyner, da Portugal Ventures, um dos oradores no painel - Capital de risco como acelerador da Economia -, reconhece a importância desta ligação entre estes diferentes actores. “Quando juntamos as melhores universidades às melhores incubadoras o resultado só poderia ser um conjunto de startups de enormíssimo potencial e que exportam para o mundo o que de melhor e mais inovador tem o nosso país”, sublinha.

Esta união de esforços, apesar de proveitosa, continua, no entanto, refém de um certo centralismo que Coimbra tenta contrariar. Porque é preciso olhar além de Lisboa e Porto, um conselho que chega de quem nos vê de fora. Presente em Portugal desde 2019, a Empowered Startups assinou recentemente um Memorando de Entendimento com a Universidade de Coimbra, contrariando assim a visão de que muitos têm do país, e a qual Christopher Lennon recomenda que se invista em mudar: “Acredito que o ecossistema empreendedor em Portugal é inovador e robusto. No entanto, essa força e a grande maioria do entusiasmo estão concentrados em Lisboa e Porto. O que gostaríamos de ver é o ecossistema empreendedor distribuir-se por dez a 15 pólos em todo o país; cada um ancorado numa universidade ou instituto politécnico”, aponta.

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Estamos a tornar o concelho de Coimbra uma primeira escolha para os investidores criadores de emprego, tirando partido dos nossos excelentes sistemas de ensino e de saúde, bem como da nossa centralidade geográfica, cosmopolitismo e de uma renovada capacidade de atração de jovens de todo o mundo para estudar, trabalhar e viver" José Manuel Silva, Presidente da Câmara Municipal de Coimbra

Este é o caminho que Coimbra tem feito, razão pela qual se consolidou como o centro do Centro. “Estamos a tornar o concelho de Coimbra uma primeira escolha para os investidores criadores de emprego, tirando partido dos nossos excelentes sistemas de ensino e de saúde, bem como da nossa centralidade geográfica, cosmopolitismo e de uma renovada capacidade de atracção de jovens de todo o mundo para estudar, trabalhar e viver”, aponta José Manuel Silva. Neste propósito, o Startup Capital Summit é apenas mais um testemunho deste caminho, “ao marcar mais um momento em que esta cidade assume a liderança da Região Centro e se projecta no cenário nacional e internacional como um destino de investimento inovador e promissor”, diz.

E o que procura um investidor?

A Portugal Ventures, uma das principais sociedades de capital de risco de Portugal, é um dos grandes players que estará presente em Coimbra à procura de oportunidades. Para Pedro Mello Breyner, vogal executivo, “os eventos como o Startup Capital Summit são muito relevantes na medida em que reúnem os principais actores do ecossistema do empreendedorismo em Portugal, onde conhecemos os empreendedores, os seus projectos, as suas necessidades e expectativas, e onde partilhamos conhecimento que nos ajudam a estar mais preparados para dar uma resposta que vá de encontro às necessidades do mercado”.

Mas o que é que uma capital de risco procura, de facto, num evento como este? “A decisão de investimento depende de um conjunto de factores de carácter financeiro”, começa por apontar Mello Breyner, nomeando por exemplo “a análise da viabilidade do modelo de negócio ou as necessidades de investimento”. Mas o lado não financeiro é tão ou mais importante, salienta, “como é o caso da equipa, que tem um peso determinante na decisão final”. Ou seja, e em jeito de resumo, “cada projecto tem um ADN único e tem de ser analisado como um todo, avaliando o que conseguiu até ao momento, mas, acima de tudo, a potencialidade que poderá atingir após o investimento. Apostamos em negócios para os quais esse investimento será determinante para o desenvolvimento do projecto”, detalha.

Também a capacidade de resistência e de resposta à adversidade são factores determinantes para o sucesso, diz o responsável da Portugal Ventures, já com mais de uma década de investimentos em startups. “A atitude perante o desafio é um paradigma determinante, porque o empreendedorismo não é o caminho fácil. As oportunidades existem, mas não caem do céu. É preciso correr atrás das oportunidades e não desistir”, conclui.