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Fotógrafos em Gaza partilham as imagens “que o mundo jamais pode esquecer” — são estas

A ONU pediu a 14 fotojornalistas palestinianos que partilhassem uma fotografia dos últimos seis meses "que o mundo jamais possa esquecer". Este é o retrato da "dolorosa verdade da vida em Gaza".

7 de Novembro de 2023, Hospital Nasser, Faixa de Gaza. "Esta criança foi retirada dos escombros e chorava de forma descontrolada. Enquanto eu tirava a fotografia, ele perguntava onde estava uma bicicleta, porque pertencia a outra pessoa e não queria tê-la perdido. A inocência e o sofrimento dele, enquanto pensava na bicicleta, não percebendo muito bem o que lhe tinha acontecido, quebrou-me." - Belal Khaled ©Belal Khaled
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7 de Novembro de 2023, Hospital Nasser, Faixa de Gaza. "Esta criança foi retirada dos escombros e chorava de forma descontrolada. Enquanto eu tirava a fotografia, ele perguntava onde estava uma bicicleta, porque pertencia a outra pessoa e não queria tê-la perdido. A inocência e o sofrimento dele, enquanto pensava na bicicleta, não percebendo muito bem o que lhe tinha acontecido, quebrou-me." - Belal Khaled ©Belal Khaled

Atenção: este artigo contém imagens explícitas que podem impressionar os mais sensíveis

Foi ultrapassada a barreira psicológica dos seis meses de destruição e morte, na Faixa de Gaza. A 7 de Abril de 2024, há registo de mais de 33 mil mortos (sendo que perto de 14 mil são crianças) e de quase 76 mil feridos no território que é diariamente bombardeado pelas Forças de Defesa de Israel e de onde é impossível escapar. Por detrás de cada número existe uma história de vida para sempre alterada pela agressão israelita.

Os jornalistas palestinianos que resistem aos ataques de Israel (90 jornalistas palestinianos já foram declarados mortos no conflito que é considerado como o mais mortífero para jornalistas) continuam a ser a janela de Gaza para o mundo. "Partilhamos estas imagens com o exterior na esperança de transmitir a realidade das nossas experiências", escreve o fotojornalista Mohammed Zaanoun, um dos 14 fotojornalistas palestinianos que responderam ao repto do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (ENUCAH), que lhes pediu que partilhassem uma fotografia dos últimos seis meses "que o mundo jamais possa esquecer". "As nossas fotografias retratam a dolorosa verdade da vida aqui e lançam luz sobre a hipocrisia do mundo em relação a Gaza." 

Apesar do relatório da ONU, que no final de Março declarou ver “motivos razoáveis” para apontar a ocorrência de genocídio em Gaza e que recomendou um embargo mundial na venda de armamento a Israel, assim como a implementação de sanções sobre o país, os EUA e a Alemanha, que fornecem 99% das armas usadas por Israel, ainda não cortaram o fornecimento.

Em resultado de acção militar e bloqueio deliberado à entrada de ajuda humanitária em Gaza por parte de Israel, três quartos da população do território cercado, composta por cerca de 2,3 milhões de pessoas, está deslocada, sem acesso a água potável, comida, electricidade, aquecimento, cuidados médicos, rede de comunicação ou um simples tecto sobre as suas cabeças.

​Dando um rosto ao sofrimento, cada fotografia desta fotogaleria é acompanhada de uma legenda que descreve, na primeira pessoa, o momento captado por cada fotojornalista no local: são eles Mohamed Abed, Saher Alghorra, Jehad Al Shrafii, Belal Khaled, Mariam Abu Dagga, Ismael Abu Dayyah, Samar Abu Elouf, Mahmud Hams, Haitham Imad, Jehan Kawera, Sameh Nidal, Salam Qudihe, Yasser Qudih, Ahmed Zakot e Mohamed Zaanoun.​

* As fotografias e as suas legendas reflectem os pontos de vistas dos fotógrafos, e não necessariamente os das Nações Unidas.

Faixa de Gaza. "Uma criança palestiniana que foi retirada dos escombros foi transportada para o hospital Al-Nasser. No hospital, a tia reconheceu-a e começou a gritar o seu nome. "Acho que é o Diya'a, é o Diya'a..." Quando os seus irmãos e os seus pais chegaram, a sua dor for inesquecível. O menino tinha saído de casa para recolher paus para a família se aquecer, quando foi morto por um ataque aéreo." - Belal Khaled
Faixa de Gaza. "Uma criança palestiniana que foi retirada dos escombros foi transportada para o hospital Al-Nasser. No hospital, a tia reconheceu-a e começou a gritar o seu nome. "Acho que é o Diya'a, é o Diya'a..." Quando os seus irmãos e os seus pais chegaram, a sua dor for inesquecível. O menino tinha saído de casa para recolher paus para a família se aquecer, quando foi morto por um ataque aéreo." - Belal Khaled ©Belal Khaled
9 de Outubro de 2023, Faixa de Gaza. "Foi como se as chamas fossem cuspidas das mandíbulas dos tanques e F-16 israelitas, quando tirei esta fotografia a partir do 19º andar de um edifício, em Gaza. Nunca, ao longo minha carreira de 25 anos, senti tanto medo e aflição. Parecia que estava a gravar a cena de um filme, tinha de relembrar-me constantemente de que tudo o que via era demasiado real. Não tenho palavras para descrever esta imagem, mas recordo o terror que senti quando as chamas iluminaram Gaza numa noite mergulhada na escuridão provocada pelo corte de electricidade." - Ahmed Zakot
9 de Outubro de 2023, Faixa de Gaza. "Foi como se as chamas fossem cuspidas das mandíbulas dos tanques e F-16 israelitas, quando tirei esta fotografia a partir do 19º andar de um edifício, em Gaza. Nunca, ao longo minha carreira de 25 anos, senti tanto medo e aflição. Parecia que estava a gravar a cena de um filme, tinha de relembrar-me constantemente de que tudo o que via era demasiado real. Não tenho palavras para descrever esta imagem, mas recordo o terror que senti quando as chamas iluminaram Gaza numa noite mergulhada na escuridão provocada pelo corte de electricidade." - Ahmed Zakot ©AHMED ZAKOT
20 de Dezembro de 2023, Faixa de Gaza. "De todos os momentos difíceis que vivi durantes estes meses de guerra, não consigo esquecer o momento em que esta menina chegou. Não pude conter-me quando a vi a respirar com dificuldade com um pacote de guloseimas na sua mão manchada de sangue. E nunca esquecerei como foi transportada para a morgue. Os doces caíram aos meus pés, no chão coberto de sangue." - Jehan Kawera
20 de Dezembro de 2023, Faixa de Gaza. "De todos os momentos difíceis que vivi durantes estes meses de guerra, não consigo esquecer o momento em que esta menina chegou. Não pude conter-me quando a vi a respirar com dificuldade com um pacote de guloseimas na sua mão manchada de sangue. E nunca esquecerei como foi transportada para a morgue. Os doces caíram aos meus pés, no chão coberto de sangue." - Jehan Kawera ©Jehan Kawera
10 de Janeiro de 2024, Faixa de Gaza. "O Ibrahim tem 12 anos. Ele foi atingido por um estilhaço de um projéctil de um tanque na escola onde se tinha refugiado. Perdeu o seu braço direito. Ele é uma criança, como tantas outras. Uma criança que quer brincar. Uma criança com um braço amputado... que quer brincar. Esta é a primeira vez que experiencio uma guerra, enquanto fotojornalista. Tenho 22 anos, sou apaixonado por trabalho ambiental e humanitário. Dantes vivia em Jerusalém e visitava Gaza ocasionalmente. Costumava viajar e a vida era boa. Nunca esperei viver algo assim. Vivo a guerra como um ser humano e cubro-a enquanto jornalista. O medo domina-nos porque nada nos pode proteger." - Jehad Al Shrafii
10 de Janeiro de 2024, Faixa de Gaza. "O Ibrahim tem 12 anos. Ele foi atingido por um estilhaço de um projéctil de um tanque na escola onde se tinha refugiado. Perdeu o seu braço direito. Ele é uma criança, como tantas outras. Uma criança que quer brincar. Uma criança com um braço amputado... que quer brincar. Esta é a primeira vez que experiencio uma guerra, enquanto fotojornalista. Tenho 22 anos, sou apaixonado por trabalho ambiental e humanitário. Dantes vivia em Jerusalém e visitava Gaza ocasionalmente. Costumava viajar e a vida era boa. Nunca esperei viver algo assim. Vivo a guerra como um ser humano e cubro-a enquanto jornalista. O medo domina-nos porque nada nos pode proteger." - Jehad Al Shrafii ©Jehad Al Shrafii
10 de Novembro de 2023, nos arredores da cidade de Gaza. "Milhares de palestinianos foram forçados a abandonar as suas casas devido aos bombardeamentos incessantes das suas casas. Quando tirava esta fotografia lembrei-me do que o meu avô me contou acerca da Nakba e como ele próprio foi forçado a abandonar a sua casa. Comecei a chorar. O meu avô morreu em 2002 e eu vi a sua história repetir-se com todos os detalhes: as crianças, as mulheres, a comida e os pertences que transportavam nas suas mãos impotentes. É exactamente igual ao que o meu avô me descreveu. Por isso, desmoronei, com amargura e dor no coração." - Ahmed Zakot
10 de Novembro de 2023, nos arredores da cidade de Gaza. "Milhares de palestinianos foram forçados a abandonar as suas casas devido aos bombardeamentos incessantes das suas casas. Quando tirava esta fotografia lembrei-me do que o meu avô me contou acerca da Nakba e como ele próprio foi forçado a abandonar a sua casa. Comecei a chorar. O meu avô morreu em 2002 e eu vi a sua história repetir-se com todos os detalhes: as crianças, as mulheres, a comida e os pertences que transportavam nas suas mãos impotentes. É exactamente igual ao que o meu avô me descreveu. Por isso, desmoronei, com amargura e dor no coração." - Ahmed Zakot ©AHMED ZAKOT
5 de Dezembro de 2023, Hospital Nasser, em Khan Yunis, no sul da Faixa de Gaza. "Foi um dia particularmente sangrento. Os feridos chegavam em grande número ao hospital Nasser. Ouvi dizer que a zona junto à casa da minha família foi atingida. Fiquei em estado de choque. Comecei a procurar por eles entre os feridos. Graças a Deus, nenhum dos meus familiares estava lá. Mas a situação era muito difícil. Enquanto jornalistas, estamos particularmente cientes do que está a acontecer. Eu mesmo fiquei ferido e tiveram de retirar-me debaixo de escombros, conheço bem a sensação. Naquele dia registaram-se imensas mortes. Os médicos não tinham capacidade para lidar com tantos feridos. Ao ponto de, no chão da emergência do hospital, mal haver espaço para todos. À medida que me movia entre os feridos, ouvia os seus gemidos... Foi muito difícil. Foi um dos dias mais difíceis que vivi nesta guerra." - Haitham Imad
5 de Dezembro de 2023, Hospital Nasser, em Khan Yunis, no sul da Faixa de Gaza. "Foi um dia particularmente sangrento. Os feridos chegavam em grande número ao hospital Nasser. Ouvi dizer que a zona junto à casa da minha família foi atingida. Fiquei em estado de choque. Comecei a procurar por eles entre os feridos. Graças a Deus, nenhum dos meus familiares estava lá. Mas a situação era muito difícil. Enquanto jornalistas, estamos particularmente cientes do que está a acontecer. Eu mesmo fiquei ferido e tiveram de retirar-me debaixo de escombros, conheço bem a sensação. Naquele dia registaram-se imensas mortes. Os médicos não tinham capacidade para lidar com tantos feridos. Ao ponto de, no chão da emergência do hospital, mal haver espaço para todos. À medida que me movia entre os feridos, ouvia os seus gemidos... Foi muito difícil. Foi um dos dias mais difíceis que vivi nesta guerra." - Haitham Imad ©HAITHAM IMAD
7 de Janeiro de 2024, Hospital Nasser, Faixa de Gaza. "Costumávamos dormir no hospital Al-Nasser. Acordávamos cedo e fomos para a morgue para documentar as perdas. Numa das manhãs, uma família despedia-se de uma menina muito nova. Foi uma cena implacável. Havia mais de 35 corpos na morgue naquele dia. A menina, em conjunto com outras vítimas, foi colocada num saco plástico negro e transportada para o cemitério. Não há fotografia no mundo que possa descrever o que se sente. Vemos isto todos os dias e é esgotante." - Ismael Abu Dayyah
7 de Janeiro de 2024, Hospital Nasser, Faixa de Gaza. "Costumávamos dormir no hospital Al-Nasser. Acordávamos cedo e fomos para a morgue para documentar as perdas. Numa das manhãs, uma família despedia-se de uma menina muito nova. Foi uma cena implacável. Havia mais de 35 corpos na morgue naquele dia. A menina, em conjunto com outras vítimas, foi colocada num saco plástico negro e transportada para o cemitério. Não há fotografia no mundo que possa descrever o que se sente. Vemos isto todos os dias e é esgotante." - Ismael Abu Dayyah ©Ismael Abu Dayyah
29 de Janeiro de 2024, Rafah, junto à fronteira com o Egipto. "Tirei esta fotografia junto à fronteira, no meu primeiro dia em Rafah, depois de fugir de Khan Younis. Vi crianças a baloiçar em fios eléctricos. Os cabos estavam mortos, como tantas outras coisas por ali, mas pelo menos alguém podia sentir alguma alegria com eles." - Ismael Abu Dayyah
29 de Janeiro de 2024, Rafah, junto à fronteira com o Egipto. "Tirei esta fotografia junto à fronteira, no meu primeiro dia em Rafah, depois de fugir de Khan Younis. Vi crianças a baloiçar em fios eléctricos. Os cabos estavam mortos, como tantas outras coisas por ali, mas pelo menos alguém podia sentir alguma alegria com eles." - Ismael Abu Dayyah ©Ismael Abu Dayyah
1 de Novembro 2023, Khan Yunis, Faixa de Gaza. "Este é um espelho que permaneceu intacto depois de 11 pessoas terem sido mortas por um míssil israelita que caiu sobre a sua casa, enquanto dormiam. Quando olhei para o meu reflexo no espelho perguntei-me: 'O que é que já fizeste por Gaza? Estás cansado? Porque ainda estamos a ser chacinados.'" - Belal Khaled
1 de Novembro 2023, Khan Yunis, Faixa de Gaza. "Este é um espelho que permaneceu intacto depois de 11 pessoas terem sido mortas por um míssil israelita qu