Carta aberta sobre o recurso à inteligência artificial no mercado editorial

Uma palavra dos escritores, tradutores, editores, revisores, críticos e livreiros dirigida ao Ministério da Cultura e ao público geral.

Foto
dro Daniel Rocha
Ouça este artigo
00:00
06:24

A tradução de livros feita essencialmente com recurso a programas de inteligência artificial (ChatGPT, DeepL) tem sido uma prática cada vez mais utilizada em certos sectores do meio editorial português, sem que isso seja sequer tornado transparente aos leitores. É normal que haja tradutores que recorram a programas de tradução automática para executarem fases do seu trabalho; no entanto, a ocultação do seu uso como instrumento principal ou quase exclusivo de tradução, que transforma os tradutores em revisores de linguagem gerada por máquinas, não pode ser ignorada.

Em muitos destes casos, os livros traduzidos por esses instrumentos desrespeitam os códigos de autor, infringindo regras editoriais elementares: nas fichas técnicas não se indica nem o título original da obra nem a língua a partir da qual se traduz, nem os nomes dos tradutores e revisores.

A tradução feita de raiz a partir de programas de tradução automática implica uma inegável regressão na qualidade das obras. Nestas edições encontram-se erros ortográficos e gramaticais, mistura de acordos ortográficos, termos brasileiros e diversas incoerências idiomáticas. Além disso, a tradução de obras literárias, longe de se resumir a um jogo de correspondências mais ou menos lineares entre diferentes línguas, envolve inúmeros contextos (culturais, históricos, filosóficos, sociais) e questões estilísticas e formais a que a IA é insensível. Traduzir obriga a decisões e escolhas interpretativas altamente variáveis, cuja qualidade depende de conhecimento especializado, experiência no ofício e, não menos decisivo, de uma visão poética. Há um irredutível carácter autoral no acto de traduzir.

Do ponto de vista do panorama editorial português, as consequências são lamentáveis: os leitores, atraídos pelos preços baixos destas edições e desconhecendo os motivos que os justificam, adquirem traduções de fraca qualidade; as editoras abalam a confiança dos leitores quanto à qualidade dos seus livros, o que os levará a optar por edições de referência noutras línguas. Deste processo pouco transparente resulta ainda a dessensibilização dos leitores para as subtilezas da leitura, ou até a perda de interesse na própria literatura.

Este modo de tradução tem ainda repercussões graves ao nível laboral. Uma vez que as obras assim produzidas dispensam a tarefa do tradutor, o trabalho do revisor é duplo: não só tem de fazer uma revisão, mas também uma re-tradução de um texto que não é fruto da reflexão de ninguém, recebendo em troca a menor remuneração de entre os dois serviços, o que agrava uma situação já de si precária. Note-se que neste modelo de produção não só é possível como provável que o revisor contratado não domine a língua original do livro, não podendo fazer uma verificação competente da tradução artificialmente gerada. Tendo em conta as actuais condições laborais dos trabalhadores do sector, é inevitável que muitos se vejam obrigados a aceitar tais propostas por razões de simples sobrevivência.

Esta política editorial é directamente responsável por um empobrecimento real destes profissionais e pelo definhamento geral de editores e livreiros, além de prestar um mau serviço aos leitores, escritores, mas também, e acima de tudo, à língua portuguesa.

Dada a situação descrita, e tendo em conta os preocupantes números relativos aos hábitos de leitura em Portugal, consideramos urgente que o Governo recentemente empossado, em particular a nova ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, preste especial atenção à regulação e transparência no uso de inteligência artificial generativa no sector editorial, não só obrigando legalmente as editoras a indicar a fonte de qualquer tradução, explicitando-a logo no frontispício dos livros, como criando mecanismos de incentivo ao financiamento e publicação de traduções não geradas artificialmente.


Afonso Reis Cabral (escritor)
A.M. Pires Cabral (escritor)
Ana Bárbara Pedrosa (escritora)
Ana Margarida Carvalho (escritora)
Ana Teresa Pereira (escritora)
Anabela Mota Ribeiro (jornalista; escritora)
André Barata (professor universitário; escritor)
André Canhoto Costa (escritor)
André Letria (ilustrador; editor da Pato Lógico)
António Araújo (historiador; editor da Fundação Francisco Manuel dos Santos)
António Caeiro (professor universitário; tradutor)
António Feijó (professor universitário; tradutor)
António Sousa Ribeiro (professor universitário; tradutor)

Bárbara Bulhosa (editora da Tinta-da-China)
Bernardino Aranda (livreiro na Tigre de Papel)

Carlos Bobone (livreiro na Bizantina)
Carlos Vaz Marques (jornalista; editor da Zigurate)
Catarina Sobral (escritora)
Changuito (livreiro na Poesia Incompleta)
Cláudia Andrade (escritora)
Cláudia Lucas Chéu (escritora)

Dinis Machado (escritor; editor da Poets and Dragons Society)
Diogo Morais Barbosa (revisor)
Diogo Ramada Curto (professor universitário; historiador)
Duarte Pereira (livreiro e editor da Snob)
Dulce Maria Cardoso (escritora)

Filipa Martins (escritora)
Francisco José Viegas (escritor; editor da Quetzal)
Francisco Luís Parreira (escritor; tradutor)
Frederico Lourenço (professor universitário; tradutor)

Helena Bento (jornalista; revisora)
Hugo Pinto Santos (tradutor; crítico literário)

Inês Fonseca Santos (jornalista; escritora)
Isabel Campos (revisora)
Isabel Minhós Martins (escritora; editora da Planeta Tangerina)
Isabela Figueiredo (escritora)

Jacinto Lucas Pires (escritor; tradutor)
Joana Bértholo (escritora)
João Pedro Vala (escritor; tradutor)
José Bragança de Miranda (professor universitário; ensaísta)
José Lima (tradutor)
José Luís Peixoto (escritor)

Lúcia Pinho e Melo (editora da Quetzal)
Luís Naves (jornalista; escritor)
Luís Quintais (escritor; ensaísta)
Luísa Costa Gomes (escritora; tradutora)

Manuel Alegre (escritor)
Maria Filomena Molder (professora universitária, ensaísta)
Maria do Rosário Pedreira (escritora; editora da Leya)
Marta Chaves (escritora)
Mia Couto (escritor)
Miguel Real (escritor; ensaísta)

Pedro Mexia (escritor; tradutor)

Richard Zenith (escritor; tradutor)
Richard Zimler (escritor)
Rita Canas Mendes (escritora; tradutora)
Rosa Azevedo (livreira e editora da Snob)
Rui Carvalho Homem (professor universitário; tradutor)
Rui Couceiro (escritor; editor da Contraponto)
Rui Pires Cabral (escritor; tradutor)

Simão Lucas Pires (escritor)
Susana Moreira Marques (jornalista; escritora)

Vasco Santos (editor da VS)

Sugerir correcção
Ler 14 comentários