Ninguém pára o vento com as mãos. Nem com um poste

A verdade é que o caminho para chegar aqui foi longo e tortuoso, mas já não nos chega ficar por aqui. E isso é a maior prova de que estamos no caminho certo. Saibamos lutar por ele, juntas.

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À quarta-feira à noite faz uma ventania desgraçada em Monsanto. Entre o frio, a chuva e os joelhos esfolados das quedas (ou ‘carrinhos’ mais aventureiros para cortar a bola - eu que o diga) num sintético meio careca, ninguém diria que duas dezenas de mulheres das mais variadas áreas experienciam 90 minutos de felicidade apenas pela partilha de um objeto esférico que, convenhamos, nem sempre é bem tratado - mas prometo que tentamos.

Ex-jogadoras de futebol e futsal misturam-se com outras que nunca jogaram de forma regular mas que sentem o mesmo amor pela bola e, com mais ou menos qualidade, querem divertir-se a jogá-la. Até há uns anos, estes projetos de grupos amadores de futebol - Favos de Mel, Samouco
FC, Malta FC, etc… - eram impensáveis no feminino. O quê, as mulheres também podem juntar-se para uma futebolada? Podem, pois. E são muitas dezenas as que o fazem atualmente, não só em Monsanto, mas por esse país fora.

É que, há uns anos, estes grupos amadores de mulheres eram, bom, os clubes que disputavam o Campeonato Nacional. No meu tempo de “jogadora”, mesmo participando na Liga dos Campeões, éramos todas amadoras, gastávamos mais do que recebíamos e a verdade é que nos juntávamos muito mais por amor à bola do que por qualquer esperança de um dia fazer dela profissão.

Se hoje isso parece outro universo distante do atual, é porque, em 2016, a Federação Portuguesa de Futebol abriu um novo período ao endereçar um convite aos 18 clubes da Liga masculina para se unirem ao então remodelado campeonato feminino. Alguns aceitaram na hora, outros juntaram-se durante o percurso e ainda há quem falte no movimento evolutivo. Mas a grande diferença entre 2015 e 2023 é esta: agora, há condições para que as raparigas e mulheres portuguesas possam fazer do futebol uma carreira profissional, em clubes que o tratam dessa forma.

E foi assim que, entretanto, vimos a nossa seleção participar pela primeira vez no Europeu (já por duas vezes) e no Mundial - além de termos também, a partir de 2024/25, de forma inédita, dois clubes portugueses a participar na Liga dos Campeões feminina. O que Portugal conseguiu ontem perante as bicampeãs mundiais foi muito além de um simples empate: foi o culminar de um longo e trabalhoso processo que envolveu muitas pessoas e organizações dedicadas ao longo dos últimos anos, muitas delas sem colher qualquer recompensa visível além do brio e da alegria.

Agora, é maravilhoso ver como muita gente nova se junta a esta caminhada, por culpa dos feitos de quem muitas vezes nem recebe assim tanto apoio, ou nem tem assim tantas condições - é preciso não esquecer que a Liga BPI feminina continua a ser amadora, disputada às vezes em sintéticos pouco próprios para a prática e até com balneários em que nem as equipas cabem. E é também curioso que Portugal quase, quase tenha superado aquelas que sempre protagonizaram as maiores lutas pelo futebol feminino, desde o equal pay a melhores condições de trabalho, além dos direitos para jogadoras grávidas ou a negação de qualquer forma de racismo ou homofobia.

Quando aquela bola de Ana Capeta decidiu embater no poste e não na rede, teremos todas e todos, profissionais ou amadores, pensado o mesmo: que valente merda. Porque a verdade é que o caminho para chegar aqui foi longo e tortuoso, mas já não nos chega ficar por aqui. O que antes parecia impossível agora está ao nosso alcance. Se somos do tamanho dos nossos sonhos, agora teremos de ouvir aquela que foi provavelmente a maior jogadora portuguesa da
história, Carla Couto: “Vitórias morais já não nos chegam”. E isso é a maior prova de que estamos no caminho certo. Saibamos lutar por ele, juntas.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico

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