Sir Peter é o actor de pornografia gay do ano na Europa — e é português

Miguel Teixeira faz pornografia há três anos. Quer combater o preconceito com que se olha para os actores porno: “Porno é o que eu faço, não é o que eu sou.”

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Miguel Teixeira (Sir Peter) começou a fazer pornografia profissionalmente em 2020 DR
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Em três anos, Sir Peter passou de ter uma conta de OnlyFans onde partilhava vídeos de exibicionismo a ser considerado o actor pornográfico gay do ano, nos Grabbys europeus, uma cerimónia anual patrocinada pela GRAB Magazine. Nos prémios americanos está nomeado para as categorias de melhor activo, melhor daddy e melhor pénis, e nos GayVN — considerados os Óscares da pornografia gay — nas categorias de performer do ano, melhor actor secundário, melhor cena de sexo a dois e melhor cena de fetiche. E, embora o nome não o faça prever, é português.

Pedro Miguel Teixeira tem 33 anos e nasceu em Felgueiras, no distrito do Porto. Antes de criar o OnlyFans que lhe abriu a porta para a indústria da pornografia, trabalhou numa loja de café num centro comercial durante cerca de três anos. Insatisfeito com a estagnação na carreira, decidiu, mais tarde, ser assistente de bordo e acabou por ir viver para Palma de Maiorca e depois para Madrid. Em paralelo, continuou com o OnlyFans, onde colocava vídeos de exibicionismo, por diversão. No início de 2020, porém, recebeu a primeira proposta para fazer pornografia de forma profissional.

“Em Janeiro, um grande produtor da indústria convidou-me pelo Twitter para fazer uma cena. Na altura, pensei: ‘Sou jovem. Se realmente gostar da experiência e for bom naquilo que faço, continuo. Se não, é uma coisa que fica, uma aventura’”, conta ao P3 a partir de Madrid, por videochamada.

A escolha do nome para a persona que exibe em frente às câmaras não precisou de muita reflexão. No âmbito pessoal prefere que o tratem por Miguel, por isso, Pedro é o nome que reserva para o trabalho. É “Sir” porque assume um papel tendencialmente dominante no sexo, e porque na escola, por ser cortês com as raparigas, uma amiga lhe dizia que era como um sir, um cavalheiro. E “Peter” por ser uma versão inglesa de Pedro. “Sir Pedro parecia muito nacionalista”, brinca.

“Se fosse fácil, estávamos todos a fazê-lo”

Em três anos, estima já ter gravado “seguramente” mais de 200 filmes. Em paralelo, as páginas de OnlyFans e de JustForFans continuam activas, com conteúdo regular. Ainda presta serviços como acompanhante para clientes privados. Gosta de falar abertamente sobre o seu trabalho porque considera que é imperativo mudar as mentalidades e a forma como se olha para o universo da pornografia.

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Desde que começou a fazer filmes pornográficos, Miguel já gravou cerca de 200 cenas. DR

“As pessoas não têm informação e educação sobre o que é ser um actor porno. Não o consideram um actor. Então, parte de mim tem vontade de falar e de mudar a percepção que as pessoas possam ter”, explica. Para lá das gravações, o trabalho de Miguel envolve viajar, organizar a agenda, ver com quem vai gravar filmes, editar vídeos, fazer publicidade, encontrar parceiros de negócio. “É isso que eu quero que as pessoas entendam. Que não é chegar, gravar um vídeo e achar que é dinheiro fácil. Se fosse, estávamos todos a fazê-lo.”

Miguel também sublinha que, na indústria, a saúde é uma prioridade. Faz teste de despiste de doenças sexualmente transmissíveis todos os meses e conta que os estúdios com os quais trabalha costumam pedir que faça análises entre sete a dez dias antes de cada filmagem.

Apesar de trabalhar principalmente com produtoras na Europa, já colaborou com vários estúdios norte-americanos como o Falcon, o Naked Sword e o Raging Stallion. É grato pelos prémios que já recebeu, mas nega que simbolizem a chegada ao pico da carreira: “O prémio dá-me uma visibilidade maior, mas, ao mesmo tempo, é uma responsabilidade, porque eu quero subir. Tenho outras coisas que quero fazer.”

Entretanto, está a trabalhar na produção de um filme, tem um dildo com o formato do seu pénis a ser fabricado e um site em nome próprio em construção. O objectivo é transformar o nome Sir Peter numa marca.

A rapidez com que subiu na carreira e se tornou um nome conhecido não é comum, mas Miguel também não acha que seja mera coincidência: “Muita gente não leva [a profissão] como um trabalho sério, diário, como eu. Se me perguntas se me sinto surpreendido [com o sucesso], em certa parte, sim. Mas, por outro lado, sei o que fiz e é importante para mim deixar um trabalho de que me orgulhe.”

Para lá das câmaras, Miguel não se vê como “um modelo a seguir”, mas, sim, como uma pessoa normal, com rotinas normais. “Tenho uma rotina bastante estruturada”, conta. No pouco tempo que sobra com todo o trabalho, gosta de ler mangas japonesas e aprender novas línguas sozinho. Também escreve poesia — cuja publicação não põe completamente de parte dos planos — e não diz que não a jogos de tabuleiro. Parte da descontracção que sente nas cenas que protagoniza vem dos 12 anos que passou a fazer teatro amador e semiprofissional, em Portugal.

“[Comecei] a amar-me mais”

Quando começou a fazer pornografia, encontrou um lado de si mesmo que desconhecia. Tímido por natureza, descobriu que podia ir buscar à personalidade de Sir Peter “um pouco mais de confiança” para o dia-a-dia de Miguel: “[Comecei] a aceitar-me mais, a amar-me mais. Antes, eu precisava sempre da validação de outras pessoas para me sentir bem”, revela.

Não esconde, também, que as viagens que faz e a situação financeira são das partes mais positivas da sua profissão. Hoje pode “cobrar cerca de dois mil euros por cena”. Mas reconhece que o valor que pagam a actores no início de carreira — como foi o seu caso — é problemático e não valoriza o profissional: “Quando comecei, recebia 250, 300 euros por uma cena. Esquecemo-nos de que este vídeo vai durar para sempre, vai ter rentabilidade sempre e só se é pago uma vez. Se aceitas que te ofereçam 200 euros para gravar uma cena durante cinco horas e ficas contente, algo está mal.”

Além disso, os episódios de bullying e de assédio e ameaças como “se não dormes comigo, não te dou mais trabalho” são comuns. E se Miguel sempre respondeu “não”, e nunca fez nada contra a sua vontade, há colegas que, “com medo de não trabalhar mais”, cedem à pressão: “Muita gente sai com problemas de saúde mental, creio que é a causa mais frequente para pararem de fazer porno.”

Sublinha que é preciso ser “uma pessoa bastante forte e convicta” para vingar na indústria. À medida que se vai de ter uma conta de OnlyFans a fazer pornografia, a fazer serviços de acompanhamento, por vezes põe-se o trabalho em perspectiva e pensa-se: “Vale a pena?”. Quando contou à família e aos amigos o que fazia, nem sempre foi recebido de braços abertos. A família aceitou a decisão, apesar de evitarem o assunto em convívios, numa lógica de “se não quiseres saber não perguntes”, conta.

Alguns amigos afastaram-se “por não quererem ser associados” a Miguel, mas foi a reacção do irmão gémeo, que deixou de falar com ele, que mais o surpreendeu.

“Entendo que com o facto de as pessoas nos confundirem ele, se calhar, se sente um pouco incomodado”, justifica. “Mas não posso deixar de viver a minha vida porque tenho um irmão gémeo...”

A vida amorosa também sofre com a profissão: “Jamais tive uma relação com alguém que se dedica ao que eu faço. E é bastante difícil, somos todos humanos. Tenho de viajar, gravar, fazer sessões fotográficas. Mas, no final do dia, chegas à cama, olhas para o lado e pensas que seria bom ter alguém com quem compartilhar e falar da vida. Às vezes sentes-te um pouco só.”

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Miguel Teixeira encontrou em Sir Peter uma fonte de confiança para o dia-a-dia. DR

Em Portugal era impossível fazer porno

Sempre que lhe dizem que parece ser espanhol ou brasileiro, Miguel não perde a oportunidade de esclarecer que é português. Sabe, no entanto, que não seria possível ter a sua carreira se não tivesse saído de Portugal: “Se tivesse ficado, teria sido muito pior. Porque se fizesse apenas um filme e ficasse em Portugal, seria estigmatizado. Amo o meu país, amo de onde sou, as minhas origens. [Mas] nunca me senti tão bem num país como em Espanha.”

Nas redes sociais e na rua, ao contrário do que acontece com o público americano ou o espanhol, os portugueses não costumam abordar Miguel na rua para comentar o seu trabalho. Por vezes repara “num olhar ou dois”, mas nada mais. “Há tabu em conheceres o actor porno”, diz, um preconceito que começa em admitir que se vê pornografia.

Condena que as pessoas costumem reduzir o actor porno a alguém que “não tem nada na cabeça, não tem educação, não tem estudos” e esclarece que há até actores que escolheram fazer pornografia “por questão vocacional e porque gostam de o fazer.”

O envelhecimento da população e a falta de diálogo podem estar na base do preconceito que ainda existe no país em relação a trabalhadores do sexo: “Quando escutas a palavra puta ou a palavra prostituta, é sempre com um tom negativo. Isso já vem do que os teus pais te ensinam.”

Ainda há um longo caminho a percorrer, avisa: “No final do dia, todos merecemos o mínimo de respeito e de aceitação pelo que fazemos. Porno é o que eu faço, não é o que eu sou.”

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