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Há fome no Afeganistão e milhões de dólares retidos nos EUA. Fotógrafos vendem obras para ajudar

O Afeganistão atravessa, após a tomada do poder pelos taliban, uma crise económica e humanitária profunda, agravada pela seca extrema e pela retirada de fundos públicos do país. A organização britânica Ishkar lançou uma venda de fotografia online com o objectivo de angariar fundos para fazer face a essa crise. 

"Refugiados afegãos esperam por transporte junto ao Aeroporto Internacional Hamid Karzai. Os talibã assumiram controle de Cabul a 15 de Agosto; os EUA e outros exércitos internacionais deram início a uma operação de evacuação gigantesca que terminaria a 31 de Agosto, a data em que os EUA decidiram abandonar o Afeganistão." ©Andrew Quilty
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"Refugiados afegãos esperam por transporte junto ao Aeroporto Internacional Hamid Karzai. Os talibã assumiram controle de Cabul a 15 de Agosto; os EUA e outros exércitos internacionais deram início a uma operação de evacuação gigantesca que terminaria a 31 de Agosto, a data em que os EUA decidiram abandonar o Afeganistão." ©Andrew Quilty

No dia 15 de Agosto de 2021, após 20 anos de guerra ininterrupta com os Estados Unidos, o Afeganistão caiu, finalmente, sob jugo taliban. O país, que sofreu ao longo desse período de conflito uma profunda crise política, social e económica, viu, então, a situação degradar-se ainda mais com a retirada do exército norte-americano, a 30 de Agosto.

Presentemente, o Afeganistão sofre uma crise económica sem precedentes, agudizada pela seca extrema que deixou, segundo dados da ONU, 98% da população em situação de escassez alimentar. Mas não só. Os serviços públicos afegãos estão à beira do colapso. Com a crise provocada pela covid-19, com o afastamento das mulheres das equipas médicas dos hospitais e com 3,5 mil milhões de fundos públicos retidos pelos Estados Unidos, o sistema nacional de saúde do Afeganistão não consegue dar resposta à procura, fazendo disparar a mortalidade, sobretudo a infantil.

"Nos últimos 12 meses, milhões de afegãos enfrentaram uma nova onda de dificuldades: fome generalizada, desemprego, pobreza universal", pode ler-se num comunicado lançado por 32 organizações não-governamentais de cariz social do Afeganistão publicado recentemente, no qual apelam em conjunto à devolução dos fundos públicos retirados do Banco Central do Afeganistão pelo governo norte-americano. O pedido surge um ano depois de sete mil milhões de dólares, aproximadamente o mesmo valor em euros, terem sido retirados do Banco Central do Afeganistão e depositados no Banco de Reserva Federal dos Estados Unidos. O presidente Joe Biden congelou os fundos e decidiu dividi-los a meio, justificando que metade deveria destinar-se à possível compensação de familiares das vítimas do 11 de Setembro e que a outra seria aplicada em ajuda humanitária à população afegã.

Após vários protestos populares e exigências por parte das ONG, os 3,5 mil milhões de dólares prometidos à população afegã continuam retidos nos Estados Unidos, que justifica temer vê-los em cair mãos erradas. Ao mesmo tempo, a ONU e a UNICEF apelam à contribuição civil para o combate à crise e a Amnistia Internacional condena a "indiferença" da comunidade internacional em relação às condições de vida e direitos humanos no Afeganistão​.

É neste contexto que surgem iniciativas internacionais que têm como objectivo a angariação de fundos para os hospitais afegãos. A Ishkar, uma organização britânica de cariz social, lançou, em conjunto com um grupo de fotógrafos - entre os quais Steve McCurry, Andrew Quilty, Emily Garthwaite - uma venda de fotografia online que pretende obter receita para doação à Emergency, que opera no Afeganistão em três centros médicos e 40 postos de primeiros socorros. "Durante a guerra, as pessoas morriam no conflito", explica um dos médicos do Centro Médico Cirúrgico da Emergency, em Cabul. "Agora morrem de malnutrição. Antes, as pessoas não podiam andar na rua para evitar os bombardeamentos, agora estão a morrer dentro de casa. A situação económica é pobre e os problemas de saúde agravam-se em resultado disso." 

Parte das 24 imagens para venda no site da organização está à vista nesta fotogaleria. "Um ano depois [da transição política no Afeganistão], o mundo esqueceu o assunto", refere a Ishkar, em comunicado. "Aqui damos oportunidade de o mundo provar que ainda se importa."

"Cavalo e Duas Torres". "Posso pensar em poucas organizações humanitárias que tenham operado no Afeganistão sobre os hospitais tão contiamente como a Emergency durante o ano passado. Quando muitos abandonara o país, a Emergency duplicou o seu compromisso de cuidar dos afegãos, tal como fazem desde 1999."
"Cavalo e Duas Torres". "Posso pensar em poucas organizações humanitárias que tenham operado no Afeganistão sobre os hospitais tão contiamente como a Emergency durante o ano passado. Quando muitos abandonara o país, a Emergency duplicou o seu compromisso de cuidar dos afegãos, tal como fazem desde 1999." ©Steve McCurry
"Mulheres afegãs protestam nas ruas de Cabul, exigindo a reabertura das escolas secundárias para raparigas, em Cabul." Afeganistão, Março de 2022
"Mulheres afegãs protestam nas ruas de Cabul, exigindo a reabertura das escolas secundárias para raparigas, em Cabul." Afeganistão, Março de 2022 ©Elise Blanchard
"Esta venda de fotografia é uma oportunidade para reflectir sobre a beleza de países como o Afeganistão sem negligenciar as questões críticas que enfrentam."
"Esta venda de fotografia é uma oportunidade para reflectir sobre a beleza de países como o Afeganistão sem negligenciar as questões críticas que enfrentam." ©Emily Garthwaite
"Um rapaz afegão empurra um amigo num carrinho de gelado durante o pôr do sol, nos arredores de Mazar-i-Sharif"
"Um rapaz afegão empurra um amigo num carrinho de gelado durante o pôr do sol, nos arredores de Mazar-i-Sharif" ©Farshad Usyan
"Mulher num campo de refugiados em Herat, Afeganistão, onde vive depois de ter sido desalojada da província de Badghis." Afeganistão, 2021
"Mulher num campo de refugiados em Herat, Afeganistão, onde vive depois de ter sido desalojada da província de Badghis." Afeganistão, 2021 ©Elise Blanchard
"Jovens apoiantes do clube de futebol Socotri durante um jogo em Hadibo, Socotra." Afeganistão, 2021
"Jovens apoiantes do clube de futebol Socotri durante um jogo em Hadibo, Socotra." Afeganistão, 2021 ©Charles Thiefaine
"Ao longo de muitos anos, a foto deste abraço percorreu o mundo. Foi emprestada, muitas vezes roubada e manipulada para se transformar numa ilustração, num poster, num ícone. No mês passado, o abraço foi transformado num gigantesco mural, em Riga, e acompanha os autocarros da companhia nacional letã na entrega de bens primários à população ucraniana. Esta nova vida desta imagem faz-me pensar no seu poder e por isso decidi torná-la disponível para aqueles que trabalham em prol da paz e da solidariedade. Eu gostaria que estas jovens mulheres abraçassem a Emergency."
"Ao longo de muitos anos, a foto deste abraço percorreu o mundo. Foi emprestada, muitas vezes roubada e manipulada para se transformar numa ilustração, num poster, num ícone. No mês passado, o abraço foi transformado num gigantesco mural, em Riga, e acompanha os autocarros da companhia nacional letã na entrega de bens primários à população ucraniana. Esta nova vida desta imagem faz-me pensar no seu poder e por isso decidi torná-la disponível para aqueles que trabalham em prol da paz e da solidariedade. Eu gostaria que estas jovens mulheres abraçassem a Emergency." ©Francesca Tilio
Afeganistão
Afeganistão ©Farshad Usya
Uma fotografia de géneas tirada no centro de Cabul, em 2020
Uma fotografia de géneas tirada no centro de Cabul, em 2020 ©Lynzy Billing
"Perto do lago gelado de Chaqmaqtin, uma manada de iaques passeia-se sobre as montanhas Pamir. São animais que se adaptam incrivelmente à neve porque conseguem usar as patas para afastar a neve até atingirem a erva castanha. Durante a minha quatra expedição às montanhas para a National Geographic, fotografei a comunidade nómada e isolada de quirguistaneses que andam pela região. Inverno de 2012.
"Perto do lago gelado de Chaqmaqtin, uma manada de iaques passeia-se sobre as montanhas Pamir. São animais que se adaptam incrivelmente à neve porque conseguem usar as patas para afastar a neve até atingirem a erva castanha. Durante a minha quatra expedição às montanhas para a National Geographic, fotografei a comunidade nómada e isolada de quirguistaneses que andam pela região. Inverno de 2012. © Matthieu Paley
Operários de construção de tijolos, em Cabul
Operários de construção de tijolos, em Cabul ©Michael Christopher Brown