“Chéquia”, ouvimos várias vezes durante o fim-de-semana, por causa dos jogos da Liga das Nações. “Türkiye”, pediram-nos dias antes os turcos que passássemos a chamar ao seu país. “Países Baixos”, passámos a chamar à Holanda aqui há dois anos. Porque mudam afinal os países de nome? Os últimos tempos têm sido férteis em exemplos, cada um com as suas razões.

Turquia -> Türkiye

O plano do Presidente turco Recep Tayyip Erdogan já tinha vários anos, mas é agora que começa a produzir efeitos. Na semana passada, as Nações Unidas aceitaram o pedido do Governo de Ancara para actualizar o nome do país de Turquia para Türkiye, designação pela qual Erdogan quer que a sua nação seja conhecida internacionalmente e em todas as línguas. Como se lê Türkiye? Exactamente como se lê Turquia em português.

Porquê esta mudança? As más-línguas dizem que Erdogan estava especialmente incomodado com a versão inglesa do nome, Turkey, que é inevitável associar a peru, o animal, que em inglês se diz turkey. Curiosamente, em português é o Peru, na América do Sul, que partilha o nome com a ave. Que se saiba, os peruanos não estão incomodados com o assunto.

Oficialmente, Erdogan argumenta que Türkiye é simplesmente a palavra “que melhor representa e exprime a cultura, civilização e valores do povo turco”. Os seus opositores políticos, no entanto, dizem que a mudança do nome é apenas mais uma forma de Erdogan moldar o país ao seu gosto e de distrair os turcos de problemas mais urgentes, como uma inflação superior a 70%

República Checa -> Chéquia

Neste caso, trata-se mais de abreviar um nome do que mudá-lo. A República Checa ainda se chama oficialmente República Checa (tal como o nome oficial de Portugal é, na verdade, República Portuguesa, e o de França é República Francesa). No entanto, desde 2016, Chéquia passou a ser utilizada como a versão curta do nome do país, sobretudo em contextos diplomáticos e alguns eventos desportivos, para facilitar. Fora desses contextos, porém, não é um nome muito popular. Ao contrário do que acontece com Portugal e França, o termo República Checa continua a ser mais utilizado.

Holanda -> Países Baixos

Aqui tentou-se sobretudo corrigir um erro antigo: a Holanda nunca foi mais que uma região dos Países Baixos. Devido à importância económica internacional que teve ao longo dos séculos (é onde ficam Amesterdão, Roterdão e Haia, por exemplo), a região holandesa foi roubando protagonismo ao país onde está inserida, e convencionou-se chamar Holanda ao que, afinal, deveríamos chamar Países Baixos. 

Depois de muitos anos de tolerância, em Janeiro de 2020, o Governo decidiu deixar de aceitar e de promover a marca Holanda e passou a impor o nome Países Baixos nos seus documentos e sites oficiais, nas empresas e no sector do turismo, aproveitando para promover internacionalmente uma nova imagem do país, mais moderna e inclusiva. Meses depois, Países Baixos já era a designação oficial usada nos Jogos Olímpicos e no Festival Eurovisão. 

Macedónia -> Macedónia do Norte

Este é um caso envolto numa crise diplomática de várias décadas: a antiga Macedónia tornou-se independente da Jugoslávia em 1991, adoptando um nome que a vizinha Grécia considera pertencer-lhe. É que Macedónia é também o nome de uma região grega, e os dois países não se entendem sobre isto e sobre outros símbolos históricos que os gregos dizem ser só seus, desde a figura de Alexandre, o Grande até ao Sol de Vergina que aparece na bandeira macedónia (do Norte). Para a Grécia, a questão é mais que simbólica: temia-se que não deixar esta questão arrumada abrisse a porta à possibilidade dos macedónios (do Norte) considerarem seu o território da Macedónia grega. 

Isto levou a que, até 2018, a Macedónia independente fosse oficialmente reconhecida nas Nações Unidas como Antiga República Jugoslava da Macedónia, e que a Grécia não permitisse a entrada do país vizinho na NATO e na União Europeia. A questão só ficou resolvida nesse ano com uma mudança de nome, aprovada em referendo pelos macedónios, para Macedónia do Norte, depois de uma longa negociação entre gregos e macedónios que chegou a incluir propostas como “Nova Macedónia”, “Alta Macedónia” e “Macedónia Vardar”. O novo nome passou a ser utilizado oficialmente em 2019.

Suazilândia -> Eswatini 

Eswatini. Ou melhor, eSwatini, segundo a grafia escolhida pelo Rei Mswati III, que em 2018 anunciou a mudança de nome da antiga Suazilândia, a pequena monarquia absoluta situada entre Moçambique e a África do Sul. Trata-se de um corte com o passado colonial britânico, apesar do significado do nome se manter: “a terra dos suazi”. O mesmo tipo de corte pós-colonial deu-se em África com o Zimbawe (antiga Rodésia), a Namíbia (ex-Sudoeste Africano) ou o Burkina Faso (antigo Alto Volta), entre outros casos. Mas aqui, tal como no caso da Turquia/Türkiye, os críticos da mudança dizem que se trata de um mero (e dispendioso) capricho de um líder autoritário. 

Voltaremos na próxima segunda-feira para explicar outro assunto que é notícia. Boa semana!

Comentar