Valor do trigo atinge novo máximo em Paris

Cereal, negociado nos mercados como matéria-prima agrícola, está a sofrer impacto da invasão da Ucrânia pela Rússia, países que, juntos, representam quase um terço do fornecimento global. Previsões da FAO apontavam para subida da Ucrânia a terceiro maior exportador de milho em 2021/2022. Portugal é comprador de parte.

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Reuters/MOHAMED ABD EL GHANY

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O preço do trigo atingiu, ao início da tarde desta sexta-feira, o valor de 426 euros por tonelada na praça de Paris, para os contratos de entrega em Março, e de 406 euros, nos contratos de entrega em Maio, um novo recorde histórico, de acordo com os dados da Bloomberg. E representa uma valorização de mais de 30% no trigo para moagem na Euronext Paris numa semana. Os preços acabaram por recuar durante a sessão, para 396,25 euros (Março) e 374 euros (Maio) por tonelada.

Em Chicago, o valor do alqueire (medido pelo norte-americano bushel, que neste caso é cerca de 25 quilos) subiu já 52% desde que, a 24 de Fevereiro, a Rússia invadiu a Ucrânia, tendo tocado esta manhã nos 13,4 dólares.

A Organização para a Alimentação e a Agricultura das Nações Unidas (FAO) recordou, esta sexta-feira, num comunicado sobre o compromisso da agência com o povo ucraniano neste momento, que a “Ucrânia é o quinto maior exportador de trigo do mundo, com uma quota de mercado global de 10% entre os períodos de 2016/17 e 2020/21” e que, neste cereal, o país que há uma semana foi invadido pela Rússia “representava 9% da quota de mercado global das exportações” no ano passado.

No milho, a quota de exportação em 2021 foi ainda mais significativa, acrescenta a organização, com uma quota média de 15% e conferindo-lhe o lugar do quarto maior exportador mundial do cereal, que é alimento de populações por todo o mundo e base para vários tipos de indústrias (dos alimentares aos biocombustíveis).

“Antes do actual conflito”, diz a FAO, a organização “tinha previsto que as entregas de milho pela Ucrânia ascenderiam a 33 milhões de toneladas em 2021/22, o que a teria tornado no terceiro maior país exportador mundial de milho”.

A FAO (sigla em inglês para Food and Agriculture Organization of the United Nations) dá a localização da produção naquele país, para que se sobreponha ao mapa do conflito que a Ucrânia agora vive, e se perceba as repercussões: “A maior parte do trigo da Ucrânia é originário de Kyiv [sic, no comunicado em inglês] e da região de Mykolaiv”; a que se junta “a região de Chernihiv”, com “principais áreas produtoras de milho da Ucrânia”.

Na saída do produto para exportação, “os principais portos de cereais da Ucrânia, também no Mar Negro, encontram-se em Odessa e Mykolaiv”.

Fornecedora de Portugal

No abastecimento de Portugal, será no milho que os cortes de abastecimento vindo da Ucrânia se deverão sentir. Dos 152,05 milhões de euros de cereais importados por Portugal da Ucrânia em 2021, segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), o milho representou 99,76% do total.

A Ucrânia foi, no ano passado, a origem de 34,5% de todo o milho que Portugal importou, equivalente a 46,6% do total das importações desse grão fora da União Europeia. No total, o país que foi invadido pela Rússia há uma semana representou 16,26% do valor global das importações directas de cereais de Portugal entre Janeiro e Dezembro de 2021.

Juntas, recorda o Financial Times, Ucrânia e Rússia são responsáveis por 30% do fornecimento de trigo ao mundo, tendo ambas ainda cereais da campanha passada por embarcar. O que vai ser impossível para a Ucrânia, que desde a semana passada deixou de ter escalas de navios de carga e passageiros; e complicado para a Rússia, não só devido às sanções económicas impostas pela União Europeia, EUA, Reino Unido e Canadá, como pelo facto de as maiores companhias de transporte marítimo (e no caso da Maersk também ferroviário) terem limitado a sua relação com o mercado russo a bens essenciais como alimentos, equipamento médico e ajuda humanitária. O que, aliás, foi hoje também alargado à Bielorrússia.

Actualizado às 20h39m com informação adicional sobre Portugal