A criptoarte dos NFT é a entidade mais influente da arte contemporânea

A lista anual dos mais poderosos da arte contemporânea, elaborada pela Art Review, dá o primeiro lugar aos NFT que agitaram o mercado em 2021, sucedendo ao movimento Black Lives Matter.

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O NFT de Everydays: The First 5,000 Days, obra do artista americano Beeple, foi notícia em Março, quando foi comprado por cerca de 61 milhões de euros Beeple

A lista publicada desde há duas décadas pela ArtReview tem por título Os 100 Poderosos: As Pessoas mais Influentes no Mundo da Arte. Mas não têm de ser necessariamente pessoas os poderosos escolhidos. No ano passado, por exemplo, o lugar cimeiro da lista foi atribuído ao movimento Black Lives Matter, em 2018 tínhamos o #metoo em terceiro e é comum, sem surpresas, surgirem listados museus e galerias. Este ano, porém, a imaterialidade, digamos assim, é total: os NFT, os tokens não- fungíveis que vieram abalar o mercado da arte, surgem em 2021 no lugar cimeiro da lista da ArtReview revelada na terça-feira.

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A lista publicada desde há duas décadas pela ArtReview tem por título Os 100 Poderosos: As Pessoas mais Influentes no Mundo da Arte. Mas não têm de ser necessariamente pessoas os poderosos escolhidos. No ano passado, por exemplo, o lugar cimeiro da lista foi atribuído ao movimento Black Lives Matter, em 2018 tínhamos o #metoo em terceiro e é comum, sem surpresas, surgirem listados museus e galerias. Este ano, porém, a imaterialidade, digamos assim, é total: os NFT, os tokens não- fungíveis que vieram abalar o mercado da arte, surgem em 2021 no lugar cimeiro da lista da ArtReview revelada na terça-feira.

Escolhida por 30 personalidades do mundo da arte contemporânea espalhadas pelo mundo, a lista é elaborada seguindo três critérios, como lemos no site da revista fundada em Londres em 1949: “Que as pessoas em questão tenham estado activas ao longo dos últimos 12 meses; que o que quer que seja que façam esteja a moldar o tipo de arte produzida actualmente; e que o seu impacto possa ser considerado global em vez de puramente local”. Não sendo uma pessoa, é inegável que os NFT cumprem os requisitos. Falamos de unidades de dados digitais únicas, alojadas num arquivo de transacções digital (o blockchain), criadas há quatro anos sob o termo técnico “ERC-721” – é essa a designação que surge no topo da lista da ArtReview —, e entraram com estrondo no mundo da arte em Março deste ano, quando a obra Everydays: The First 5,000 Days, do artista americano Beeple, foi comprada por 69,3 milhões de dólares (cerca de 61,1 milhões de euros, pagos na criptomoeda Ethereum), transformando-se numa das mais caras peças de arte de um artista vivo.

“Perante os preços impressionantes atingidos pelo trabalho de Beeple no último ano, o mercado de arte descobriu uma nova geração de coleccionadores, enquanto artistas à volta do mundo descobriram uma forma de mercantilizar a sua arte que contorna a velho sistema do marchand”, escreve a ArtReview no texto que contextualiza a escolha do NFT. JJ Charlesworth, editor da publicação, refere, citado pelo Guardian, que os NFT deram um impulso poderoso “a um novo cruzamento entre cultura pop e arte contemporânea, mesmo que não possamos ignorar o facto de a explosão de NFT ser guiada por uma especulação febril à volta das criptomoedas”.

A escolha do primeiro lugar da lista concentra todas as atenções, mas é também de notar a entrada, em segundo lugar, da antropóloga e escritora sino-americana Anna L. Sing, autora de The Mushroom at the End of the World: On the Possibility of Life in Capitalist Ruins, obra que perspectiva o fim do capitalismo perante a degradação ecológica e a precariedade económica, e co-fundadora de uma plataforma de curadoria, a Feral Atlas, que promove o encontro entre investigação científica e expressão artística. Imediatamente abaixo, uma constância: o colectivo indonésio Ruangrupa, baseado em Jacarta, que propõe a prática artística como obra comunitária e ao qual foi entregue a direcção da próxima edição da Documenta, a influente exposição de arte contemporânea organizada de cinco em cinco anos em Kassel, na Alemanha, (no ano passado, o Ruangrupa surgia na segunda posição). Dois artistas, o americano Theaster Gates e a alemã Anne Imhof, completam o top cinco.

O movimento Black Lives Matter, primeiro na lista de 2020, desaparece este ano, tal como o #metoo (quarto há um ano), encontrando-se no seu lugar artistas que reflectem e criam sobre as preocupações e aspirações de ambos os movimentos, como o colectivo aborígene australiano Karrabing Film Collective (oitavo lugar), a fotógrafa e artista visual Carrie Mae Weens (nono), que aborda a feminilidade dos corpos negros, ou o curador americano Ebony L. Haynes.

Ainda assim, como refere a publicação ArtNews, “apesar de o advento dos NFT ter reorganizado o cenário e reclamado o primeiro lugar, os habituais ‘gatekeepers’ mantêm-se presentes”. O negociante de arte David Zwiner surge em 23.º lugar, Larry Gagosian em 25.º e Monika Sprüth e Philomene Magers, da galeria Sprüth Magers, em 66.º.

Como discreta novidade, regista-se a entrada no grupo dos mais poderosos da arte contemporânea de uma figura que exerce o seu poder de forma bem evidente noutras esferas.: Mark Zuckerberg, o senhor Facebook, encerra agora a lista.

Elaborada pela primeira vez em 2002, a lista da ArtReview teve como números 1 ao longo dos anos nomes como o artista dissidente chinês Ai Weiwei, o curador, crítico e historiador suíço Hans Ulrich Obrist, director da Serpentine Gallery, em Londres, ou a artista alemã Hito Steyerl. Em 2018, surgia na lista, na 51.ª posição, o português João Fernandes, então subdirector do Museu Rainha Sofia, em Madrid.