Áreas protegidas, e quantas mais houvesse

Os movimentos informais de cidadãos podem e devem, como acto de cidadania, impulsionar as autarquias a preverem a criação de áreas protegidas, responsabilizando a gestão e a salvaguarda de áreas ecologicamente sensíveis.

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Gerês Adriano Miranda

Se só protegemos o que amamos temos mais de 37.400 espécies ameaçadas de extinção para nos apaixonarmos de acordo com a última revisão da lista vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

A Estratégia de Biodiversidade da União Europeia para 2030 é trazer a natureza de volta às nossas vidas, reafirmando a determinação comunitária em liderar o combate à crise da biodiversidade, transformando pelo menos 30% do território terrestre e marinho europeu em áreas protegidas, uma ambição atingível por via do rewilding, do restauro ambiental e da conservação. As áreas protegidas são essenciais para manter ecossistemas saudáveis, proteger habitats e espécies de vida selvagem e pessoas em todas as partes do mundo. Em Portugal, as áreas protegidas correspondem a 9% do território, do qual fazem parte da Rede Nacional de Áreas Protegidas 48 áreas protegidas em território continental, incluindo 32 áreas de âmbito nacional, 15 de âmbito regional/local e ainda uma Área Protegida Privada.

Estas soluções são gradualmente encaradas como assuntos de relevo da agenda política dos governos, mas também pelas autarquias locais, e tratam não apenas da conservação da biodiversidade mas também do apoio ao bem-estar da comunidade humana, contribuindo para a segurança alimentar e hídrica, o armazenamento de carbono, a redução do risco de desastres, mitigação e adaptação climática, fornecendo inclusive meios de subsistência locais.

Em Lousada, no distrito do Porto, a mais recente área protegida, a Paisagem Protegida Local do Sousa Superior, composta por 1609 hectares de matriz agroflorestal, está dedicada à conservação da natureza e biodiversidade, protegendo os recursos culturais, melhorando os meios de subsistência e impulsionando o desenvolvimento sustentável. O papel das áreas protegidas será ainda mais crítico à medida que as nações emerjam e recuperem da pandemia, reconhecendo a natureza como um elemento essencial na saúde mental da comunidade humana e para a implementação de estratégias equilibradas de turismo de natureza e de turismo em espaço rural como impulsor da economia local.

Pelo estatuto que adquirem, assumem ainda um papel educador na comunidade, mediando a visitação e esforçando-se para instruir ambientalmente os visitantes e os seus residentes e o tecido escolar em prol da protecção do património natural. Nesta lógica, no caso particular, as áreas protegidas locais e os investimentos das agendas ambientais municipais permitem descodificar a complexidade do conhecimento científico e afirmar uma investigação aplicada, próxima da comunidade, com resultados tangíveis materiais e acima de tudo educacionais e comunicacionais.

Afinal, como justificar a criação de uma área protegida? Atribuir valor a uma porção do território caracterizada pelos seus factores bióticos e abióticos é uma responsabilidade muito grande na hora de o explicar formalmente às populações. Algumas vozes temem que a criação de áreas protegidas se banalize na linguagem popular e nos media.

Na minha opinião, os impulsos comunitários à sua criação chegam tarde e são hoje a boa razão para gerir, conservar e promover activos ambientais assentes sobretudo num programa global de educação para a sustentabilidade. Por fim, os movimentos informais de cidadãos podem e devem, como acto de cidadania, impulsionar as autarquias a preverem a criação de áreas protegidas, responsabilizando a gestão e a salvaguarda de áreas ecologicamente sensíveis, geodiversas e/ou detentoras de fenómenos singulares e harmoniosos entre a natureza e a cultura.