Porque é que as pessoas não se respeitam? É possível trabalhar a empatia

Os ecrãs estão cada vez mais presentes na nossa vida e trazem riscos. O não desenvolvimento da empatia é um deles, mas há formas de trabalhar esta competência sócioemocional. “Ouvir atentamente os outros leva a uma maior consciência de si mesmo”, diz a professora Helena Águeda Marujo.

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Daniel Rocha

São amigas desde crianças, sentem que o mundo está “menos empático” e nem a pandemia que, ao início parecia ter juntado as pessoas, ajudou a fomentar a empatia. Porque é que as pessoas não se ouvem? Por que não se respeitam? Marta Vences, Ana Sarroeira, Leonor Castelo e Beatriz Falcão, quatro estudantes universitárias de Lisboa, decidiram criar o projecto EmpatizArte com o objectivo de fomentar a empatia através de conversas, que actualmente são feitas à distância, mas o desafio é fazê-las presencialmente.

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São amigas desde crianças, sentem que o mundo está “menos empático” e nem a pandemia que, ao início parecia ter juntado as pessoas, ajudou a fomentar a empatia. Porque é que as pessoas não se ouvem? Por que não se respeitam? Marta Vences, Ana Sarroeira, Leonor Castelo e Beatriz Falcão, quatro estudantes universitárias de Lisboa, decidiram criar o projecto EmpatizArte com o objectivo de fomentar a empatia através de conversas, que actualmente são feitas à distância, mas o desafio é fazê-las presencialmente.

A falta de empatia está na base de tudo, diz Marta Vences ao PÚBLICO. O projecto é ainda recente, mas já foram organizadas três sessões que funcionam por Zoom. Se os ecrãs podem fomentar a falta de empatia, neste caso, são usados para que cada participante dê a sua opinião. “Muitas vezes as conversas vão parar a outros temas”, conta a estudante, referindo que, no último debate sobre se “A empatia é um luxo?”, a conversa fluiu até ao Holocausto, que é o tema do próximo encontro, que acontece esta quarta-feira, a partir das 17h.

“Calçar os sapatos do outro” é talvez a expressão mais comum quando se fala de empatia. Mas ser empático é mais complexo e profundo do que isso. A empatia é a “capacidade humana de ver o humano no outro através da compreensão e da reflexão”, diz ao PÚBLICO Helena Águeda Marujo, professora associada do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa e responsável pela cátedra da UNESCO para a Paz Global Sustentável. Colocar-se no lugar do outro é apenas o ponto de partida para a empatia porque é necessário ir “mais além, compreendermos a sua vivência, a sua emoção, conseguirmos sofrer e alegrarmo-nos com ele”.

Mas será que os ecrãs nos tornam mais empáticos, já que tornam a comunicação mais próxima? Ou impedem o desenvolvimento desta característica? A resposta não é linear. “Nessa área, a investigação é muito inconclusiva”, explica a investigadora. “Temos dados que apontam para essa diminuição, ou seja, que o envolvimento nas plataformas digitais pode distanciar as pessoas da emoção e da vivência dos outros, mas também há dados que não o confirmam e, portanto, a investigação não tem confirmado este indicador”. No entanto, quando a relação com as tecnologias é de alguma dependência “a investigação mostra que há menor empatia”. Embora admita que a tecnologia possa ser um impeditivo para uma atitude empática, Helena Águeda Marujo refere que “há indicadores que mostram que tem havido mais filantropia e generosidade com as redes sociais”

O comportamento offline também é um factor importante já que se o utilizador for pouco empático e tiver relações superficiais, os ecrãs vão ser um impeditivo para o desenvolvimento da empatia. “A dependência da tecnologia nas pessoas que têm menos essa capacidade [de serem empáticas] também não as vai ajudar a desenvolvê-la”, explica Ivone Patrão, psicóloga e docente e investigadora no Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida​ (Ispa) e coordenadora do Projecto Geração Cordão. Desta forma, os ecrãs não estimulam a empatia e contribuem para o “empobrecimento” se usados de forma pouco saudável. 

Na perspectiva de Helena Águeda Marujo, os ecrãs e as plataformas digitais são também terreno fértil para a criação de “espaços de desumanização”. Por um lado, “as redes sociais podem dar uma sensação de omnipotência que leva as pessoas a ficarem muito autocentradas, diminuindo a sua autocrítica”. Por outro, “são muito superficiais” e levam a que o utilizador não se preocupe com o impacto emocional das suas acções no outro.

Trabalhar a empatia

Numa altura em que as tecnologias são uma extensão do corpo e que interferem no desenvolvimento de personalidades empáticas, o “declínio da empatia humana traz riscos globais múltiplos” e o impacto de uma sociedade não empática é “terrível” porque a “empatia é básica para a entreajuda e para a cooperação”. 

E a empatia trabalha-se? “Nós vimos biologicamente preparados para sermos empáticos e, depois, essa experiência pode ser mais ou menos estimulada”, explica a investigadora da Universidade de Lisboa. Se há pessoas que são mais empáticas por natureza, há outras que não têm essa característica tão trabalhada, mas há várias formas de a desenvolver. “Ouvir pontos de vista diferentes” e “criar espaços para que as pessoas possam falar das suas emoções e compreendam os sentimentos dos outros”, sugere Helena Marujo. 

Ainda que o EmpatizArte esteja numa fase embrionária, Marta Vences refere que o grupo, além das conversas, pretende expandir o projecto utilizando a arte, a literatura e o teatro para fazer exercícios que estimulem a empatia. Pretendem também criar um sentido de comunidade à volta da empatia e as quatro amigas querem ainda “criar parcerias com outros projectos”. 

Ivone Patrão destaca o papel da leitura e da literatura no desenvolvimento da empatia nos mais jovens, já que “as histórias infantis são uma excelente ajuda para ajudar a expressar aquilo que as crianças sentem e para os colocar a reflectir sobre o que acontece com os outros, pô-los a sonhar um pouco, a colocá-los no lugar do outro”, explica. “As histórias estão sempre ao serviço de aumentarmos competências e para melhorar a forma de as crianças e dos jovens de se expressarem”, isto se o adulto estiver “desperto para trabalhar a mensagem da história e ouvir as crianças”, acrescenta.

Ouvir uma história tem, assim, múltiplos benefícios para o trabalho das competências socioemocionais, já que os mais novos acabam por se identificar com algum personagem e, desta forma, podem expressar as suas próprias emoções e compreender as dos outros. “O livro não fala e é tão bom porque permite mais interacção, o toque, o olhar, estar ao lado, folhear a página, aprender a cuidar do livro”, remata a investigadora. 

Helena Águeda Marujo partilha da mesma opinião, já que “as narrativas, através da imaginação, podem levar à empatia”, na medida em que “ouvir atentamente os outros leva a uma maior consciência de si mesmo”. Mas, acima de tudo, a também docente considera que é preciso tempo para ser empático, já que “a empatia nos convida à complexidade dos relacionamentos, à profundidade emocional, ao tempo, para sermos capazes de ver a humanidade no outro”.


Texto editado por Bárbara Wong