Lagos

A Casa Bonança tem um buraco no tecto para se olhar o céu

Fernando Guerra
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Fernando Guerra

Era um antigo armazém onde se guardava e transaccionava cereais e frutos secos do Algarve, comércio usual na zona de Lagos. O espaço estava “desvirtuado”, tinha sofrido “intervenções de reduzido interesse” ao longo dos anos, conta o arquitecto Mário Martins ao P3. Mas das antigas ocupações do edifício ficaram muros “poderosos e robustos” que hoje abrigam a Casa Bonança da cidade.

Pintada de branco e mantendo a fachada praticamente intacta, esta poderia ser como qualquer outra casa algarvia, não fossem os mais de 400 metros quadrados e o telhado sem telhas que abre o espaço ao céu. “Decidimos abdicar de parte do edifício para remover o telhado, deixar a estrutura de madeira à vista e retirar as janelas, deixar apenas os vãos e criar um pátio, um espaço exterior no interior do edifício”, explica o arquitecto.

Este pátio “ajardinado” com piscina revisita a memória das construções resultantes da ocupação muçulmana na zona, a ideia do “ver sem ser visto” que permite uma “inesperada intimidade no centro da cidade”. A equação era mesmo essa, criar um refúgio que estivesse em “relação com o exterior, com o céu, com o Sol, com a luz”, mantendo a privacidade ao mesmo tempo que se preserva a “relação urbana com a cidade”, refere Mário Martins.

Com três pisos que se “viram” para o pátio, a ligação entre o interior e o exterior desta habitação privada é “bastante fluida, franca”. “Abrimos o envidraçado e não percebemos bem se estamos dentro ou fora da casa", considera o arquitecto, já que o pátio é uma extensão da mesma, "um espaço privilegiado”.

Sem se “impor em demasia” no local onde se ergue, a Casa Bonança é “mais uma camada na história da cidade” que, pelos séculos fora, “teve uma dinâmica própria de ocupações e de realidades que se viveram e que deixaram as suas cicatrizes”.

Texto editado por Amanda Ribeiro

Fernando Guerra
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