Suspensão da vacina da AstraZeneca obriga a adiar para Abril imunização dos professores

A suspensão implicará um atraso de “cerca de duas semanas” da operação de vacinação em Portugal. Interrupção temporária da administração da vacina da AstraZeneca tem por base “o princípio da precaução em saúde pública”, explicou o presidente do Infarmed. Em Portugal há registo de dois casos de tromboembolismo, mas menos graves e complexos do que os registados noutros países.

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LUSA/TIAGO PETINGA

É uma espécie de reacção em cadeia. Portugal juntou-se esta segunda-feira ao cada vez maior grupo de países europeus que decidiram suspender temporariamente a vacina da AstraZeneca-Universidade de Oxford por uma questão de precaução, enquanto se tenta perceber se as três dezenas casos de tromboembolismo (coágulos sanguíneos) reportados até à data nos cerca de cinco milhões de pessoas que já receberam a primeira dose na União Europeia estão ou não relacionados com a administração deste fármaco. Por causa da interrupção, a vacinação contra a covid-19 dos professores, educadores e funcionários do pré-escolar e do 1.º ciclo, que estava programada para este fim-de-semana, vai ter que ser adiada, em princípio para o final de Abril.

Portugal seguiu o exemplo de França, Itália, Alemanha e Espanha que esta segunda-feira se juntaram à lista de países que na semana passada tinham já decidido suspender temporariamente o uso da vacina do consórcio anglo-sueco, na sequência de notícias sobre possíveis efeitos secundários como a formação de coágulos sanguíneos, hemorragias e baixos níveis de plaquetas. No Reino Unido, onde foram já inoculadas com a primeira dose da AstraZeneca cerca de 11 milhões de pessoas, a vacinação prossegue.

Atraso de duas semanas

A suspensão implicará um atraso de “cerca de duas semanas” da operação de vacinação em Portugal, adiantaram esta segunda-feira em conferência de imprensa conjunta o presidente da autoridade nacional do medicamento (Infarmed), Rui Ivo, a directora-geral da saúde e o coordenador do grupo de trabalho (task force) responsável pela operação. A “interrupção temporária” da administração da vacina tem por base “o princípio da precaução em saúde pública”, depois de terem sido conhecidos “novos casos de reacções adversas graves em vários países europeus”, explicou Rui Ivo. Os casos estão em avaliação para se perceber se há ou não uma relação de causalidade com a toma da vacina e os resultados devem ser conhecidos durante esta semana, acrescentou. 

Em Portugal foram notificados dois “eventos tromboembólicos” que têm, porém, “características clínicas e laboratoriais” de “menor gravidade e complexidade”, explicaram posteriormente a DGS, o Infarmed e a task force num comunicado conjunto. “São casos diferentes dos que efectivamente foram hoje reportados a nível europeu, não estão no mesmo padrão. São situações que estão totalmente em recuperação”, enfatizou Rui Ivo.

Além de implicar o adiamento da vacinação dos docentes e funcionários do pré-escolar e 1.º ciclo, a suspensão vai ter ter também um impacto na inoculação das pessoas entre os 50 e os 79 anos com doenças de maior risco associado à covid-19 (insuficiência cardíaca, doença coronária, insuficiência renal mais grave, doença pulmonar obstrutiva crónica e trissomia 21), que estão a tomar sobretudo as doses da AstraZeneca, uma vez que as doses das vacinas da Pfizer-BioNtech e da Moderna estão a ser reservadas basicamente para os idosos a partir dos 80 anos. Mas, a partir de agora, as doses da Pfizer e da Moderna vão ser administradas também aos doentes de maior risco.

Por causa da interrupção, o coordenador da task force, Henrique Gouveia e Melo calcula que o plano de vacinação sofra um atraso de “cerca de duas semanas” . “Atendendo a que já foram administradas mais de 17 milhões de doses desta vacina na União Europeia e no reino Unido, os eventos que têm sido reportados são muito raros e representam um número residual entre as pessoas vacinadas, pelo que não há motivos de preocupação acrescida para quem já recebeu esta vacina”, frisaram a DGS, o Infarmed e a task force no comunicado conjunto. Se a situação se prolongar, “prevê-se que a fase 1 do Plano de Vacinação possa terminar na terceira semana de Abril, retomando-se então a administração aos profissionais de educação”, acrescentaram. 

Apelo à tranquilidade

Apelando à tranquilidade, a directora-geral da saúde” corroborou na conferência de imprensa que, “apesar de as reacções adversas mencionadas serem extremamente graves, também são extremamente raras”. Graça Freitas pediu, porém, às pessoas que já tomaram a primeira dose que se mantenham atentas a eventuais sintomas “de mal-estar persistente durante alguns dias” que possam vir a surgir, sobretudo se vierem “acompanhados de nódoas negras ou hemorragias cutâneas”. Se tal acontecer, não hesite e consulte um médico”, recomendou. A segunda dose é tomada passadas 12 semanas.

Até que haja conclusões das avaliações em curso, cerca de “200 mil doses” da vacina da Astrazeneca vão permanecer nos armazéns em Portugal, em condições que garantem a sua correcta preservação, assegurou Gouveia e Melo. Segundo o vice-almirante, até ao momento foram administradas “cerca de 400 mil doses da AstraZeneca em território português”. O número não coincide, porém, com o que estava contabilizado até esta segunda-feira no Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC, na sigla em inglês). Das mais de 374 mil doses recebidas em Portugal, foram administradas até à data pouco mais de 173 mil em Portugal, segundo o ECDC.

Os casos reportados nos diversos países estão a ser analisados pelo Comité de Avaliação do Risco em Farmacovigilância (PRAC, na sigla em inglês) da Agência Europeia do Medicamento. Este segunda-feira foram também discutidos com os parceiros europeus e internacionais da DGS e do Infarmed em duas reuniões – a da Rede de Autoridades do Medicamento da UE e a do National Immunization Technical Advisory Group.

O comité de especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a segurança de vacinas reúne-se esta terça-feira para discutir esta questão e a Agência Europeia do Medicamento (EMA, na sigla em inglês) anunciou que vai realizar uma reunião especial na quinta-feira para analisar a situação, mas já adiantou que continua a considerar que os benefícios da utilização da vacina da AstraZeneca superam os riscos. “Enquanto a investigação está em curso, a EMA continua a considerar que os benefícios da vacina AstraZeneca na prevenção da covid-19, com o risco associado de hospitalização e morte [devido à pandemia], superam os riscos de efeitos secundários”, sublinhou o regulador em comunicado.

“Os eventos envolvendo coágulos de sangue, alguns com características invulgares como o baixo número de plaquetas, ocorreram num número muito reduzido de pessoas que receberam a vacina”, contextualizou A EMA. “O número de eventos tromboembólicos em geral nas pessoas vacinadas não parece ser superior ao verificado na população em geral” e “muitos milhares de pessoas desenvolvem anualmente coágulos de sangue na UE, por diferentes razões”, acrescentou.

com Miguel Dantas