Ana Gomes, Major Tomé, Daúto Faquirá: pessoas “de carne e osso” apoiam Mamadou Ba

Grupo de pessoas criou o site Aqui em Carne e Osso em solidariedade com Mamadou Ba e com o anti-racismo. Activista do SOS Racismo responsabiliza moralmente os partidos da direita Chega e CDS por petição que pede a sua deportação. Continua a receber ameaças de morte.

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Mario Lopes Pereira

A ex-candidata a presidente da República, Ana Gomes, chama-lhe um “miserável” projecto de “decreto-lei” de quem quer “pôr em causa a democracia”. Assume-se como fazendo parte dos que darão “a cara e tudo mais que for preciso para defender um Portugal inclusivo, em liberdade e em democracia”. 

Num vídeo para uma plataforma online, chamada Aqui em Carne e Osso, Solidariedade com Mamadou Ba, Ana Gomes fala da petição lançada na semana passada a pedir a deportação do activista Mamadou Ba por causa das suas declarações sobre o coronel Marcelino da Mata, que segundo o presidente da Associação 25 de Abril, Vasco Lourenço, e outros, cometeu “crimes de guerra” durante as lutas de libertação das ex-colónias. 

Mamadou Ba escreveu um post no Facebook em que criticava a proposta de luto nacional pela morte de Marcelino da Mata, feita pela CDS, e chamou-lhe “torcionário do regime colonial”. Em reacção, o CDS pediu a “expulsão” do dirigente do SOS Racismo do grupo de trabalho governamental que estuda políticas contra o racismo e apareceu a petição que, até à manhã desta quinta-feira, ia nas mais de 31 mil assinaturas.

Numa espécie de contra-resposta, foi criado o site Aqui em Carne e Osso..., em construção, por pessoas “que não suportam o racismo nem as suas formas de violência”, “que não podem ficar caladas face às iniciativas que tentam transformar o antirracismo e activistas antirracistas em inimigos da democracia”. Criticando o anonimato das redes sociais referem que não criaram “perfis automáticos” e são, por isso, pessoas “de carne e osso”.

Aparecem a dar testemunho gente de várias origens e background profissional — artistas, académicos, políticos, militares deixaram o seu testemunho em vídeo ou por escrito. O capitão de Abril Mário Tomé homenageia a “coragem cívica” e “grande destemor” de Mamadou Ba na “luta global contra contra a ideologia fascista, colonialista e racista, da tortura, da chacina e do massacre responsável pelo maior crime do século XX português, a Guerra Colonial”.

O ex-jogador de futebol e actual comentador desportivo Daúto Faquirá defende que “pessoas corajosas e activistas como Mamadou Ba devem ser enaltecidas não só pelo seu  comportamento desempoeirado mas também pela astúcia da sua crítica”: são “pessoas que não se calam e usam o protesto activo como meio legítimo de conquistas”, que “percebem que todas as mudanças históricas se dão por pessoas como ele”.

A cantora Manuela Azevedo cita a letra de Sérgio Godinho “a democracia é o pior de todos os sistemas com excepção de todos os outros”, para dizer que “no nosso país (...) ninguém é expulso por exercer o seu direito à livre expressão e opinião”. 

O economista e ex-líder do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, aponta o dedo a uma petição “ridiculamente inconstitucional” e “até impossível” ; a professora da Faculdade de Letras Inocência Mata acha “estranho que pessoas que se dizem democratas e até cristãs proponham a expulsão de um cidadão” numa “petição claramente racista”. “É evidente que se Mamadou Ba não fosse negro não estaríamos a ter esta conversa”, afirma. 

Mais consciência colectiva contra racismo

Ao PÚBLICO, Mamadou Ba comenta que apesar “dos perigos para a democracia ainda há pessoas na nossa sociedade realmente comprometidas e preocupadas com as ameaças à democracia e isso é saudável”. Pessoas que, refere: “Perceberam que defenderem-me é defender a democracia”. O activista nota que “está a aumentar o grau de consciência colectiva e compromisso de pessoas racializadas com influêcia social no combate ao racismo”. 

Para o activista o que originou a petição foi o facto de ter feito uma crítica à ordem colonial “que sustenta a ordem racial vigente”: “A herança colonial está tão impregnada, que atravessa o espectro político quase todo. Muito do discurso sobre a petição [no espaço público] tinha implícita uma crítica à crítica que fiz ao passado colonial. Quando digo que Marcelino da Mata é criminoso de guerra e não merece honras de Estado —e não fui o primeiro, nem o único a dizê-lo — as pessoas dizem que tive necessidade de instrumentalizar a história. Foi o partido com assento parlamentar [CDS] que propôs a homenagem a um torcionário da guerra colonial e ninguém se indigna com isso?” 

O SOS Racismo está a estudar a hipótese de apresentar queixa ao Ministério Público sobre a petição — o PÚBLICO contactou a Procuradoria-Geral da República para saber se há alguma queixa, mas ainda não teve resposta. Mamadou Ba refere que já foram feitas dezenas de petições contra ele, mas esta tem a diferença de ter sido “orquestrada politicamente”. E identifica: “A petição em causa é uma responsabilidade do CDS e do Chega porque são os autores morais do discurso de ódio e da sugestão da minha expulsão do país. O objectivo da petição parte das posições públicas do CDS e do Chega. O André Ventura disse várias vezes que, se eu não gosto do país, tenho de me ir embora. É grave quem, no espectro político que se diz democrata, concorde que eu possa ser expulso ou deportado por delito de opinião. Há muita gente supostamente democrata que acha que eu, como não tenho tento na língua, deixo de ser português.”

Ameaças é, de resto, o que não falta no percurso do activista — há anos que as recebe. “Tenho milhares de print screens, já me cansei.” No ano passado recebeu ameaças de morte, com mais nove pessoas, num email que “ordenava” a sua “saída imediata” do país, por um grupo que se identificou como Nova Ordem de Avis-Resistência Nacional. Recebeu protecção policial por isso. Recentemente, o SOS Racismo recebeu um email de um auto-referido grupo de lusodescendentes em língua francesa a ameaçar Mamadou Ba e todos os membros da associação dizendo que seriam executados com explosivos, armas brancas e armas de fogo e que tinham listado os seus apoiantes.