O tempo de escrever e receber cartas voltou: é só pedir à Inês

Desde Novembro que Inês Francisco Jacob escreve e envia cartas por encomenda. Com a pandemia, o projecto Código Postal tem conquistado cada vez mais pessoas que esperam fazer familiares e amigos felizes com uma carta desconhecida na caixa de correio.

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Inês Francisco Jacob

Her - Uma História de Amor (Spike Jonze, 2013) é um filme sobre um homem que se apaixona pela voz do sistema operativo do seu computador e que escreve cartas para outras pessoas como profissão. Inspirada pelo grande ecrã, a escritora e poeta Inês Francisco Jacob trouxe a ideia para o mundo real.

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Envelopes à procura de uma carta Inês Francisco Jacob

“Quando vi o filme, gostei bastante. Gostei da actuação dele, gostei da música, gostei de tudo. Mas pensei: ‘Realmente, eu adoraria ter esta profissão, é uma profissão que eu amava ter no futuro. Com as devidas mudanças, com os devidos ajustes, mas imagino-me a fazer uma coisa deste género, acho que seria uma pessoa muito feliz”, começa por explicar ao P3 a criadora do projecto Código Postal, um serviço pago que faz cartas por encomenda, procurando classificar a correspondência como uma arte, uma “necessidade” e uma “urgência”.

Tempos houve em que as cartas eram a única forma de comunicação. Demoravam dias a chegar e, em muitos dos casos, já era tarde demais. Nesses tempos eram recebidas com surpresa. Com o passar dos anos, caíram em desuso e hoje em dia associamo-las às contas que temos para pagar. Inês conta que as saudades desses tempos antigos em que se liam e escreviam cartas falaram mais alto do que qualquer receio.

O Código Postal nasceu há três meses e a lisboeta de 28 anos já enviou duas cartas por email e 90 para as caixas de correio de anónimos e também de leitores do seu livro de poemas, Sair de Cena. “As pessoas ficam um bocadinho desnorteadas e desamparadas. De repente, têm uma carta no correio que não é das Finanças, não é da electricidade, não é do carro, não é nenhuma multa… Ficam um bocadinho desarmadas no caso de ser surpresa”, conta.

Cada carta tem um valor de dois euros, no caso de ser por email, “um pedido muito raro”, ou cinco, se for pelo correio. Para fazer uma encomenda, basta enviar uma mensagem privada para a página de Instagram do Código Postal.

Em duas folhas e à mão, escreve-se o pedido de quem encomenda. Tudo é possível: uma carta com o nome do remetente, uma carta onde o mesmo não está explícito para que seja o destinatário a descobrir de quem partiu o pedido ou até uma carta para o próprio remetente. O texto pode ser em prosa ou poesia, livre ou não. Neste último caso, bastam algumas palavras-chave para que a caneta transporte para o papel tudo o que não se pode dizer, por agora, fisicamente. Tentar conhecer cada destinatário através de uma simples palavra faz com que esta seja a grande “maravilha” e, ao mesmo tempo, a grande “dificuldade” deste projecto.

Foram já muitos os textos que escreveu, mas houve um que a marcou. “Um pedido que era de um rapaz, um neto, que queria que a carta fosse para a avó que tinha enviuvado há uns meses. A carta era para celebrar a família, porque era uma família unida que se reúne frequentemente para almoçar e perdeu-se aquela figura do avô. A carta seria uma espécie de homenagem ao avô, mas dirigida à avó. Foi uma coisa muito forte.” E, assim, escreveu-lhe: “O amor confia nesta mesa. Nesta casa. Confia em todos nós. Amparamo-nos e, por isso, querida avó, nunca estarás só. Nunca.”

A receptividade tem-se revelado bastante positiva. A adesão terá sido maior por causa da pandemia, tempos em que o contacto físico com familiares e amigos está em pausa? “Sim”, refere, acreditando que a ideia teria ido para a frente em circunstâncias diferentes. O facto é que o Código Postal é também uma forma de “colmatar esta ausência” e “preencher este vazio” comum. “Sem dúvida nenhuma que a pandemia legitimou e talvez engrandeceu esta ideia”, defende.

A noção de que o Código Postal existe apenas para quem não sabe escrever ou não tem talento e disponibilidade para o fazer está errada. Este projecto, diz a autora, foi criado para que as cartas entrem novamente nessa viagem entre quem envia e quem recebe. Para Inês Francisco Jacob, pedir que o Código Postal escreva uma carta é um pedido como qualquer outro. “Como quem envia um ramo de flores para casa de alguém. Como quem pede comida e chega a casa.”

Texto editado por Amanda Ribeiro