Regra dos golos fora ainda faz sentido?

A abolição da regra dos golos fora é um apelo antigo, que parece ganhar cada vez mais apoiantes. Clubes portugueses na UEFA poderão ter problemas para resolver por culpa desta regra por muitos considerada obsoleta.

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O golo de Chiesa no Dragão pode ter peso na eliminatória europeia do FC Porto,O golo de Chiesa no Dragão pode ter peso na eliminatória europeia do FC Porto LUSA/ESTELA SILVA,LUSA/ESTELA SILVA
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Helton Leite sofreu, em Roma, um golo caseiro frente ao Arsenal Reuters/ALBERTO LINGRIA

O FC Porto sofreu um golo em casa, na Liga dos Campeões, frente à Juventus, sina que, na Liga Europa, também acompanhou o Benfica, frente ao Arsenal, e o Sp. Braga (dois golos sofridos), frente à Roma. Estes golos encaixados em casa, que valerão mais em caso de empate na eliminatória, podem vir a ter um peso grande no desfecho das mesmas – os treinadores assumiram-no. Mas será que ainda faz sentido haver esta regra?

Para analisar o problema é preciso perceber quando e por que motivo foi adoptado este regulamento. Na década de 60, o futebol inventou-o para evitar que eliminatórias empatadas fossem decididas por moeda ao ar ou que obrigassem a ser disputada uma partida adicional em campo neutro.

Com a regra dos golos fora, foi encontrada a solução que “matava três coelhos”: oferecia um sistema de desempate e, em simultâneo, não só promovia o futebol ofensivo das equipas visitantes como premiava o mérito de marcar um golo fora de casa – nesse período da história, as viagens das equipas visitantes eram difíceis e os relvados da equipa visitada poderiam ser bem distantes do ideal, tal como as próprias bolas.

Sem a tecnologia e informação actuais, as equipas não conheciam os estádios, os relvados, os ambientes, os países, entre outros aspectos. Ir jogar fora era uma tremenda desvantagem e marcar golos nessa condição era uma missão merecedora de recompensa.

E foi assim que nasceu a regra dos golos marcados fora, o chamado golo “a dobrar" em caso de empate na eliminatória. Em 2021, mitigadas que estão, em geral, boa parte das dificuldades logísticas de jogar fora de casa, continua a fazer sentido esta regra?

A discussão não é nova. Arséne Wenger já falava disto em 2013 e, mais recentemente, técnicos como Diego Simeone ou Sérgio Conceição já argumentaram, em reuniões da UEFA, a favor da abolição desta regra. E por cá? O PÚBLICO foi ouvir algumas opiniões e todas convergiram no mesmo sentido. Entre elas destaca-se a argumentação de Augusto Inácio, que foi claro. “Não faz sentido ainda haver esta regra. Está obsoleta e o melhor seria aboli-la. As coisas têm de ser resolvidas em dois jogos. Se for preciso, joga-se prolongamento e/ou penáltis. Simples”, apontou.

Já Hélder Cristóvão foi mais longe, dizendo mesmo que esta regra impacta muito na qualidade do futebol: “Se os golos fora não valessem a dobrar, as equipas jogariam mais abertas”.

Impacto no jogo

A regra dos golos fora é, em tese, um mero critério de desempate. Ainda assim, talvez seja, entre os critérios de desempate existentes, aquele que mais peso directo tem nos jogos, como crê Hélder.

Actualmente, empatar 0-0 em casa na primeira mão de uma eliminatória nem sempre é um mau resultado. A regra de os golos fora valerem a dobrar permite que uma equipa, levando tudo a zeros para o segundo jogo, longe do seu estádio, jogue com a possibilidade de um golo fora quase “matar” a eliminatória e obrigar os anfitriões a um esforço adicional.

A regra que pretendia, entre outras coisas, promover o futebol mais ousado dos visitantes acaba por promover o futebol mais cauteloso dos visitados – sobretudo na primeira mão.

“Essa regra acabou por ser um ‘pau de dois bicos’. A ideia era obrigar as equipas visitantes a atacarem, mas acabou foi por colocar as equipas da casa a defenderem mais. Jogam para não sofrerem golos. No fundo, não ganha quem melhor ataca, mas quem melhor defende”, argumentou Augusto Inácio.

Inácio e Hélder Cristóvão convergem também no cariz positivo de um 0-0 caseiro. O treinador campeão nacional pelo Sporting aponta que, actualmente, “o 0-0 não é um mau resultado” e que “uma equipa que ganhe 1-0 em casa tem uma vantagem tremenda se conseguir marcar fora, porque obriga o adversário a marcar três golos”.

Hélder, pensando como treinador, assina a mesma visão. “Com a regra actual, o 0-0 é um bom resultado. Não sofrendo em casa, fica tudo em aberto para o segundo jogo”. Jogo no qual haverá uma vantagem regulamentar não necessariamente contrabalançada pela desvantagem logística de jogar longe de casa.

Há, porém, um detalhe que pode contrariar esta tese, que tem que ver com o apoio do público. Algumas equipas oferecem, em casa, um ambiente hostil aos adversários, algo que motivaria o mérito e a recompensa a quem marcasse golos nessas condições adversas.

A vantagem do prolongamento

Por fim, há ainda o detalhe de, em muitas competições (como as europeias), os golos fora contarem mesmo no prolongamento da segunda mão. Tal equivale a dizer que a equipa visitante na segunda mão joga mais 30 minutos com essa vantagem.

Com medo de sofrerem um golo em casa no prolongamento – quase uma sentença de morte na eliminatória –, as equipas visitadas acabam por ter receio de se exporem e os prolongamentos tornam-se enfadonhos e um caminho longo e doloroso até aos penáltis. Ou seja, muitas vezes prejudica o espectáculo.

Mas também há o reverso da medalha. Sem a regra dos golos fora, vantagem concedida aos visitantes, as equipas da casa jogam aquela meia hora adicional perante o seu público e no seu estádio, honra que a outra equipa não teria.

Há argumentos para os dois lados e a regra dos golos fora não é só negativa nem só positiva. Mas parece haver, por agora – em Portugal e na Europa –, uma tendência para considerar esta regra obsoleta, conforme se pode deduzir das palavras de Giorgio Marchetti, director de competições da UEFA, que no final do fórum de treinadores de 2018 afirmou que a maioria dos técnicos nesse encontro considerou que, actualmente, “marcar golos fora já não é tão difícil como no passado”. Terá a palavra a UEFA, organismo que mais empenhado tem estado em discutir o assunto e em levá-lo ao International Board.