Hospitais “não estão a ser ouvidos”, está-se a “gerir ao dia”. Ministra manda abrir todas as camas

A crítica é feita por Alexandre Lourenço, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares. Se o esforço dos hospitais de Lisboa fosse igual, haveria mais 230 camas para doentes com covid, calculam os administradores das unidades de saúde da periferia da capital que estão a abarrotar com doentes com covid-19.

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Paulo Pimenta

Os dois maiores centros hospitalares de Lisboa não estão a disponibilizar todas as camas que poderiam ceder para doentes com covid-19, apesar da “terrível” pressão a que estão actualmente sujeitas todas as unidades da periferia da capital, “a mais flagelada”. A crítica é dos administradores de sete hospitais da Área Metropolitana de Lisboa, que estão a abarrotar com doentes com covid-19 e que fizeram contas para concluir que, se todos estivessem a responder de acordo com o que está previsto no nível 2 do plano de contingência, haveria mais 230 camas “operacionais” na região. Deste total, 146 seriam do Centro Hospitalar e Universitário de Lisboa Central (CHULC, que integra o São José e o Curry Cabral, entre outros) e seis dezenas do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Norte (CHULN, que inclui o Santa Maria e o Pulido Valente). As restantes são de outras duas unidades de saúde mais pequenas.

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Os dois maiores centros hospitalares de Lisboa não estão a disponibilizar todas as camas que poderiam ceder para doentes com covid-19, apesar da “terrível” pressão a que estão actualmente sujeitas todas as unidades da periferia da capital, “a mais flagelada”. A crítica é dos administradores de sete hospitais da Área Metropolitana de Lisboa, que estão a abarrotar com doentes com covid-19 e que fizeram contas para concluir que, se todos estivessem a responder de acordo com o que está previsto no nível 2 do plano de contingência, haveria mais 230 camas “operacionais” na região. Deste total, 146 seriam do Centro Hospitalar e Universitário de Lisboa Central (CHULC, que integra o São José e o Curry Cabral, entre outros) e seis dezenas do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Norte (CHULN, que inclui o Santa Maria e o Pulido Valente). As restantes são de outras duas unidades de saúde mais pequenas.

Este “apelo”, assim se intitula a carta enviada no fim-de-semana para o presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) com conhecimento da ministra da Saúde, Marta Temido, é assinado pelos administradores dos hospitalares do Barreiro-Montijo e de Setúbal, e dos hospitais de Loures, de Almada, de Cascais, de Amadora-Sintra e de Vila Franca de Xira.

A ministra da Saúde já respondeu. Quarta-feira de manhã, em reunião com os responsáveis dos hospitais de Lisboa e Vale do Tejo, Marta Temido instou-os a fazerem o levantamento de toda as camas que possam ser alocadas à covid-19, sem mexer nas áreas essenciais, e mandou que tudo o que estivesse disponível fosse posto em funcionamento, disse uma fonte hospitalar ao PÚBLICO.

Para chegar ao número das 230 camas, os gestores calcularam as “taxas de esforço” (capacidade máxima para internar doentes com covid-19 versus o total de camas, retirando as dos cuidados intensivos e as necessárias para determinadas áreas e para actividades inadiáveis, como pediatria, psiquiatria, transplantes, queimados, etc.).

Os sete administradores alegam que os dois grandes centros hospitalares da capital não estão a colaborar neste combate à pandemia da mesma forma, uma vez que têm taxas de esforço substancialmente inferiores. Especificam que os seus hospitais tinham, no passado dia 22, taxas de esforço em enfermaria que oscilam entre os 45% e os 71%, enquanto a do CHULC era de apenas 25% e a do CHULN, de 32,1%.

“O que se conclui desta carta é que os hospitais não estão a ser ouvidos, não há diálogo, e que se está a trabalhar em cima do joelho, a gerir ao dia”, lamenta o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, Alexandre Lourenço. “Os hospitais prepararam planos de contingência, mas quem tem de dizer qual é o limite [de camas] é o Ministério da Saúde, que lhes devia ter pedido que definissem planos mais ambiciosos. É uma questão de planeamento. Se os hospitais não tinham capacidade de absorção, então devíamos ter confinado mais cedo.”

Num momento em que estas sete unidades de saúde “se encontram numa clara situação de resposta a uma catástrofe”, os administradores apelam “a que o nível de empenhamento de meios de todos os hospitais” da região “seja semelhante, de maneira a garantir uma distribuição equilibrada do esforço” dos profissionais de saúde, “que se abeiram da exaustão”. Reconhecem que hospitais como o Santa Maria e o São José têm de dar uma resposta mais diferenciada, mas recordam que um dos objectivos da finalmente criada gestão regional de recursos [na ARSLVT] era garantir que as taxas de esforço seriam distribuídas de uma forma equilibrada entre as unidades hospitalares da região, o que não está, obviamente, a acontecer”.

Acha que nesta altura alguém se está a encostar?”

“Temos de perceber como se fazem essas contas. É preciso ver que esses dois centros hospitalares são de fim de linha e têm de ter camas em várias especialidades [que os outros não têm]”, retorque o presidente da ARSLVT, Luís Pisco. “Acha que nesta altura do campeonato há alguém que se está a encostar? Todos os hospitais estão a fazer um grande esforço. É óbvio que há hospitais mais pequenos que servem uma população enorme, mas estamos a tentar distribuir os doentes. É uma operação complexa, mas temos uma equipa composta por médicos dos próprios hospitais que estão a fazer esta gestão”, disse ao PÚBLICO. De resto, enfatizou, “os planos de contingência foram feitos a pensar em determinados cenários que já foram ultrapassados pela realidade”.

Para os sete administradores, porém, os números são claros. Segundo a previsão de camas que a ARSLVT enviou aos hospitais, e de acordo com o cenário de contingência de nível 2, o CHULC deveria ter disponíveis 361 camas e, em 22 de Janeiro, tinha 215 doentes com covid internados. Já o CHULN deveria alocar neste nível de contingência 254 camas e tinha nessa data 194. Ao mesmo tempo, e só para dar alguns exemplos, Loures, tinha nesse dia 227 doentes com covid, mais 93 do quer estava previsto no plano de contingência (taxa de esforço de 71,2%), o de Vila Franca de Xira tinha 184, mais 70 do que estimado no plano (taxa de esforço de 69,2%).

De igual forma, o Amadora-Sintra tinha então 246 internados, mais 18 do que o previsto no plano, uma situação que se agravou substancialmente nos últimos dias — esta quarta-feira o hospital tinha 331 pacientes com covid internados, depois de no dia anterior ter transferido 43 na sequência da sobrecarga da rede de abastecimento de oxigénio e de esta quarta-feira ter anunciado a transferência de mais 32.

No CHULC, o número de pessoas internadas com covid-19 esta quarta-feira era 284, das quais 51 estavam em unidades de cuidados intensivos (UCI). O CHULC tem, de momento, 302 camas dedicadas à covid-19, distribuindo-se pela enfermaria de adultos (237), pediatria (10 camas) e UCI (55).

Já o CHULN tinha 287 doentes com covid internados no Santa Maria, 233 dos quais em enfermaria e 54 em UCI. A capacidade total do centro hospitalar, que tem vindo a ser actualizada desde que o número de casos começou a aumentar de forma exponencial nas últimas semanas, é de 294 camas em enfermaria e 55 em UCI. Esta capacidade deverá ser, contudo, aumentada ainda esta semana com a abertura de uma nova enfermaria de 24 camas que ficará instalada no Hospital Pulido Valente, descentralizando o internamento destes doentes no centro hospitalar, já que agora estavam todos no Santa Maria. 

O Hospital de Loures tinha esta quarta-feira 265 doentes com covid internados, 22 dos quais em cuidados intensivos. Já no Garcia de Orta, em Almada, o número de pacientes não tem parado de aumentar e, nesta quarta-feira, o hospital voltou a registar um novo “crescimento de doentes internados em enfermaria”, o que o obrigou a reajustar, mais uma vez, a disponibilidade para esta patologia. Os números eram, neste dia, de 220 doentes com covid-19, 20 dos quais em UCI. Apesar de ter iniciado, na terça-feira, o processo de abertura de uma nova enfermaria dedicada à covid-19, com capacidade para 33 camas, e que já acomoda dez doentes, o Garcia de Orta continua “a ter necessidade de transferir doentes”, e mantém uma taxa de ocupação na área dedicada à covid-19 perto dos 300% em relação ao que estava planeado no seu plano de contingência.

Faltam enfermeiros

O Centro Hospitalar de Setúbal (CHS) tem 214 camas para doentes com covid-19 no Hospital de São Bernardo, incluindo 18 em UCI, e a taxa de ocupação é de “100%”, diz fonte desta unidade, salientando que esta é, de momento, “a capacidade máxima” do hospital para receber doentes com esta patologia.

Já para os doentes com outros problemas, o São Bernardo tem 149 camas e está, também aqui, a braços com uma “taxa de ocupação superior a 90%”. O CHS dispõe ainda de mais 87 camas para doentes sem covid-19 no Hospital Ortopédico Sant’Iago do Outão e garante que, apesar das “dificuldades que são conhecidas”, está a conseguir “cumprir a sua missão e a garantir o acesso e o tratamento da população”.

Esta quarta-feira, o Hospital de Cascais tinha 138 doentes com covid-19 internados, 16 dos quais em UCI, o que significava uma taxa de ocupação de, respectivamente, 70% e 80%, disse fonte desta unidade. A taxa de esforço desta estrutura, face à capacidade inicialmente instalada em UCI, é, à data, “de 266%, revelando a necessidade que o hospital teve em criar mais camas de cuidados intensivos para dar resposta ao contexto pandémico”, esclarece a mesma fonte. 

Este hospital tem transferido doentes para outras unidades, mas também tem recebido doentes de outros locais, “sempre em articulação com a ARSLVT”, e de acordo com as necessidades agregadas da região, explica ainda a assessoria de imprensa. 

Neste momento, apesar da elevada taxa de ocupação, não é esse o maior problema do Hospital de Cascais, mas sim a falta de pessoal. “O maior constrangimento que o hospital enfrenta prende-se com a disponibilidade dos recursos humanos, nomeadamente de enfermeiros”, informa a mesma fonte, em resposta escrita.