O que fazer para ter um bom CV — e alguns caminhos a evitar

Um currículo é um veículo para que exista um “match entre a pessoa e a função”. Para que isso aconteça, é necessário adaptá-lo ao longo do percurso profissional. Há mitos a desfazer (não, um currículo não tem de ter apenas uma página) e estratégias a adoptar. Duas recrutadoras deixam as suas dicas ao P3.

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Sigmund/Unsplash

O teu emprego tira-te dias de vida: não vês a hora de encontrar uma nova oportunidade que te dê mais ânimo para sair da cama todos os dias. Na volta até gostas do que fazes, mas sabes que há mais oportunidades para ti. Ou, então, acabaste a tua formação académica e está na altura de enfrentar a procura de trabalho (que parece infinita). Também é provável que estejas a ler este artigo porque estás a pesquisar um part-time simpático para suportares algumas das tuas despesas.

Todos estes cenários partilham um adereço: o Curriculum Vitae (CV). E convém ser bom para te destacares, não é? Há caminhos a evitar, outros a explorar e mitos a desfazer. Duas recrutadoras explicam-nos o que é, afinal, um bom currículo.

Antes de qualquer coisa: adapta o currículo à vaga

Não tem de ser trabalhoso, mas adaptar um currículo a diferentes vagas pode ser um pouco maçador. Boas notícias: não tens de alterar tudo, mas antes priorizar diferentes valências de acordo com o emprego a que te candidatas. Porque, afinal, os recrutadores procuram sempre “o match entre a pessoa e a função”. Ou seja: se o trabalho implica conhecimentos a nível de edição de vídeo, e se os tiveres, convém teres essa informação no teu currículo. “Os recrutadores podem mesmo eliminar por falta de informação”, avisa a recrutadora Ana Lopes, da Cognizant.

Cabe tudo numa página?

Se te disseram que um currículo só pode ter uma página, mentiram-te. Tanto Ana Lopes como Célia Marques, também ela recrutadora, descartam, até certo ponto, limites. “Um currículo tem de ter o que eu procuro no candidato, ponto”, esclarece Ana Lopes, que acrescenta: “Não tem que ver com o tamanho, mas sim a relevância. O currículo deve ser, sim, conciso. E se fizeste algo que possa ser relevante para aquele cargo, coloca, por favor.” Mas não te estiques — não é preciso enviar um anexo com direito a índice, como já aconteceu a Célia Marques.

A recrutadora da Landing.Jobs aponta para as três páginas como o máximo (e caso se justifique). “Uma página é perfeita para alguém que acabou os estudos e está à procura do primeiro emprego, ou que tem pouca experiência”, explica. E caso estejas mesmo a começar, Célia Marques apela a que coloques informações como “estudar no estrangeiro, voluntariado e até práticas desportivas”.

Atenção à fotografia (que nem sempre é obrigatória)

Às mãos de Ana Lopes já chegaram currículos cujas fotografias eram um pouco… inusitadas. “Já aconteceu receber currículos com a típica foto da discoteca ou com o gato ao colo”, conta. Homenageia o teu animal de estimação noutra altura: o melhor é mesmo apostar numa foto de rosto simples e simpática, sem muito ruído visual. Mas, caso não te sintas à vontade, não tens de colocar uma fotografia tua no teu currículo. A tua experiência fala por ti.

Dados pessoais: o essencial, apenas

No topo do currículo deve surgir uma secção dedicada aos dados pessoais — mas não é preciso colocares tudo. Os recrutadores devem saber o teu nome, mas não precisas de escrever a tua morada. “Deve, sim, ser mencionada a cidade onde se vive. Caso a pessoa esteja a candidatar-se para outra cidade, deve mencionar essa disponibilidade na carta de motivação”, explica Célia Marques. A data de nascimento também é facultativa. Por outro lado, número de telemóvel e endereço de e-mail são imprescindíveis. “E não aconselho a colocarem só o e-mail. O recrutador pode querer agendar de imediato a entrevista e é mais fácil ligar”, acrescenta a recrutadora. Já agora: coloca um link de acesso directo para o LinkedIn. E se a tua área é o design, podes colocar “um link de acesso ao portefólio”, por exemplo.

Experiência profissional: hora de brilhar

Sendo esta outra secção, deves optar por escolher “um fundo e até um tamanho de letra diferentes”. Porque num currículo tem de haver “uma linha de seguimento” e o recrutador deve “conseguir diferenciar logo as diferentes partes”. É possível que já saibas disto, mas nunca é demais reforçar: a experiência “deve ser colocada pela ordem mais recente”. “Tem de estar presente o nome da entidade, a data de início e de fim, caso tenha acabado, descrição do projecto e, claro, as funções e tarefas desempenhadas”, explica Célia Marques. Ao descrever o que fizeste no teu trabalho anterior, opta por tópicos e não “texto corrido”. Podes, ainda, deixar para outra secção, a das competências, os programas que utilizaste — mas, se escolheres colocá-las aqui, o recrutador saberá logo “se trabalhaste muito ou pouco tempo com determinado programa”. Caso já tenhas alguma experiência e não se adeque ao posto, não é necessário relembrares aquele trabalho que tiveste há dez anos naquela loja. Caso estejas a começar, “coloca tudo”. “Nós [recrutadores] temos de tentar espremer o máximo de um currículo.”

A mesma lógica para o percurso académico

Diferencia esta parte do currículo das outras. O método é semelhante ao da experiência profissional: o mais recente primeiro, com o nome da instituição de ensino e a data de início e término. Quanto à média de curso, Célia Marques aconselha a que se coloque apenas em duas circunstâncias: “Caso estejas à procura do primeiro e emprego e se a nota for boa. Tudo o que é mau não se coloca”, aponta. “Não é um escândalo” evidenciares aqueles 17 valores incríveis, mas “não faz muito sentido” quando já estás no mercado de trabalho há algum tempo. Certificados de formações e cursos extra também entram, mas não aqueles com quase uma década em cima — “o entrevistador pode ser chatinho e perguntar algo sobre” aquela formação da qual já não te lembras muito bem.

Idiomas, competências e alguns aspectos visuais

Quanto aos idiomas, o nível pode ser apresentado de duas formas. O mais usual é utilizar os seis níveis (A1 a C2) de referência do Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas (QECR). Por outro lado, também podes dizer que és “fluente” ou “intermediário”, por exemplo. Não precisas de esmiuçar e colocar B1 para a escrita ou C2 para a audição.

Relativamente às competências, como já dissemos, podes colocá-las (sem ser muito maçador) na parte da experiência profissional ou numa outra secção. Também podes escrever, no teu currículo, que poderás disponibilizar “referências de outras chefias”, mas apenas “a pedido”. 

A nível visual, uma dica que te pode ajudar: nunca uses fundos escuros. “O recrutador pode querer imprimir o currículo e depois não consegue ler”, alerta Célia Marques. Já Ana Lopes defende que, “desde que tenha todas as informações necessárias, o formato não faz grande diferença”. Podes, claro, aventurar-te por modelos engraçados que encontras na internet ou dar asas à imaginação. É bom diferenciares-te.