Qual é a receita dos melhores jornais escolares? “Tudo começou com entusiasmo”

Cerimónia de entrega dos prémios do Concurso Nacional de Jornais Escolares contou com a presença do ministro da Educação. Alunos relataram as suas experiências: “Quando nos juntamos não nos adicionamos, nós multiplicamo-nos.”

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Miguel Manso

“Tudo começou com entusiasmo. Como sabemos, esse é sempre o melhor princípio das coisas” — foi esta a receita descrita por Bárbara Simões, uma das coordenadoras do projecto PÚBLICO na Escola, na cerimónia de entrega de prémios do concurso de jornais escolares, promovido pelo PÚBLICO na Escola. A jornalista, que nas últimas semanas tem falado com alguns dos vencedores do concurso, descreveu — na abertura do evento feito de contingências em contexto de pandemia — que “por várias vezes a palavra entusiasmo foi mencionada”, muitas vezes contagiante. “Espero que não percam esse entusiasmo, que o mantenham. Se conseguiram mantê-lo no meio da adversidade, não o deixem baixar quando a adversidade for desanuviando.”

Um entusiasmo que foi essencial nos tempos de confinamento. Como caracterizou o ministro da Educação Tiago Brandão Rodrigues, no encerramento da cerimónia que teve lugar no auditório do PÚBLICO com plateia reduzida, “esta transição para o digital foi a adequada para os tempos de agora”, levando a comunidade educativa “a resistir e a ser resiliente”. “Hoje aprendemos convosco”, afirmou, parabenizando os trabalhos a concurso. “Quando assim é, quando nos dias que passam nós aprendemos, nós nos vemos revolucionados, é porque algo importante aconteceu.”

O governante sublinhou a importância do projecto PÚBLICO na Escola (que conta com o apoio do Ministério da Educação e da Fundação Belmiro de Azevedo) no desenvolvimento não apenas da literacia mediática mas também de uma cidadania activa: os estudantes que se envolverem na criação de jornais escolares serão hoje certamente “mais críticos, mais bem informados, mais esclarecidos”, e no futuro aqueles que “todas as manhãs vão à banca comprar o jornal, acedem à internet para saber o que está a acontecer”.

“Os jovens leitores de hoje serão os grandes leitores de amanhã”, confirmou o director-adjunto do PÚBLICO Tiago Luz Pedro, na abertura da cerimónia. Recordando que “o PÚBLICO na escola está no nosso ADN há três décadas”, ressalva que “nestes 30 anos tudo mudou”. Num contexto de disseminação de desinformação e da importância de cultivar públicos críticos, “é um projecto de cidadania que muito nos apraz acompanhar”, afirmou o director-adjunto.

Quando nos juntamos não nos adicionamos, nós multiplicamo-nos”

As palavras dos vencedores dos prémios, escolhidos entre 105 candidaturas, foram pintando o retrato não apenas do funcionamento das escolas em tempos de pandemia, mas do contributo dos jornais escolares para desenvolvimento de uma cidadania mais activa nos estudantes.

António Santos, cujo trabalho “Olho de Boi, uma ponta solta do 25 de Abril”, recebeu o prémio de melhor reportagem, sublinhou a importância dos professores na criação de oportunidades para olhar o mundo de outras formas. “Elaborar uma reportagem com teor social chama a atenção para aspectos da sociedade que podiam estar mais obscuros”, descreve. A reportagem, com fotografia de Inês Quaresma, foi publicada no jornal Mar da Palha (agrupamento de escolas Emídio Navarro, Almada), um projecto que tem 18 anos — “é a minha idade também”, notou o aluno. 

Tomás Vicente, do jornal ponto & vírgula (agrupamento de escolas Marinha Grande Poente), que recebeu o prémio do júri no escalão do ensino secundário, explicou que “este jornal é o produto de alunos, professores, pais, família, amigos”. “Quando nos juntamos não nos adicionamos, nós multiplicamo-nos”, disse. Já o professor António José Paiva, do Agrupamento de Escolas de Freixo, Ponte de Lima, contou a “história muito particular” do jornal Comunica, vencedor na categoria do 2.º e 3.º ciclos, que está a completar o seu primeiro ano. “Fizemos uma reunião para encerrar actividades, mas daquela situação de crise que veio alterar o que tínhamos planeado surgiu uma excelente oportunidade.” A aluna Margarida, que faz a gestão das redes sociais do Comunica, confirma que “durante a pandemia foi o nosso pico de publicações, cerca de 150” — tudo escrito e publicado por alunos.

O prémio para o escalão do primeiro ciclo, atribuído ao jornal Horta das Notícias (agrupamento de escolas Severim de Faria, Évora), foi recebido pela aluna Sarah, que leu algumas frases escritas por uma colega: “No jornal vimos várias pessoas como crianças e adultos a fazer esta actividade para brincarmos com as nossas ideias e nos distrairmos da covid-19. Conseguimos fazer esta actividade sem nenhuma dificuldade com esperança de conseguirmos voltar à escola.” Fernando Moital, professor, completou com mais uma nota sobre a liberdade que os alunos encontram nos espaços de debate criado pelos jornais escolares desde a infância: “Eu gosto deste jornal porque podemos dizer o que pensamos.”

Jornais feitos “de alunos, para os alunos”

A Revista Brick, feita pelos alunos da EPI - Escola Profissional de Imagem (Lisboa), foi toda elaborada “durante o terceiro período, tudo em casa, tudo em confinamento”, descreve o professor José Pacífico. O projecto pedagógico, que recebeu o prémio de melhor design gráfico, resultou de um processo em que “os alunos tiveram que se adaptar”, mas em que todos trabalharam em conjunto em todas as fases de tomada de decisão.

Num evento feito de contingências em contexto de pandemia, ouviram-se também professoras que falavam de outros pontos do país e da Europa, como Amélia Pessoa, coordenadora do Valais em Português, jornal do ensino do Português na Suíça que recebeu uma menção especial, ou Luísa Diz-Lopes, que agradeceu o prémio pelo melhor trabalho de ciência em directo da sala do Clube de Jornalismo do Agrupamento de Escolas Abade de Baçal (Bragança). O prémio foi atribuído a um trabalho sobre “O Tempo”, elaborado por mais de dez alunos do ensino secundário e publicado no jornal Outra Presença, que completou no ano passado 30 anos — “o jornal escolar é um elemento fundamental na construção da vida da escola”, disse a docente.

Entre as menções especiais, conhecemos histórias de resistência como a do Se bem nos lembramos, jornal da Escola Secundária Vitorino Nemésio (Terceira, Açores) — João Pedro Costa, que com a colega Raquel Couto agradeceu a menção, descrevendo que, neste “jornal feito de alunos, para os alunos”, “muitas vezes o nosso trabalho é feito contra tudo e contra todos” —, e de verdadeiro trabalho de grupo, como o do Jornal da Escolinha, jornal de parede do Externato A Escolinha (Lisboa), onde os alunos do primeiro ciclo fazem “as reportagens, as notícias, as entrevistas” e tiram as fotografias.

O pequeno Manuel, que agradeceu pelo prémio em nome dos colegas, falou nos temas que os têm preocupado, como o Dia Mundial da Alimentação e “como as crianças se sentiram durante a quarentena”. O tema da próxima edição já está na ponta da língua: conversar com agentes PSP sobre situações de bullying e algumas dicas para lidar com os perigos da internet. “Para o ano não vou estar na escolinha, estou no quarto ano, mas espero que a escola para onde vou tenha um jornal. Os jornais ajudam-nos a pensar e a crescer”, completou o pequeno jornalista.

“Sempre achei que a escola só fazia sentido articulada com o que se passava no mundo à volta dela”, lembrou Luísa Gonçalves, professora que com Bárbara Simões coordena o projecto PÚBLICO na escola, na sua intervenção no início da cerimónia. “O mundo tem que ser convidado”.

O segundo evento deste Dia P dedicado à literacia mediática acontece esta sexta-feira às 17h no auditório do PÚBLICO, com a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Siga em directo em publico.pt, no Facebook ou no YouTube.