Covid-19: um quarto das mortes em lares ocorreu em Novembro

Brigadas foram chamadas 124 vezes. Há mais de quatro mil casos activos de covid-19 em lares portugueses e 1409 mortes até à data. Responsáveis queixam-se de falta de funcionários, mas afirmam que as brigadas têm sido uma ajuda desde Outubro, ainda que com algumas falhas. Ministério diz que testes rápidos em lares começaram esta segunda-feira no distrito do Porto.

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Há mais de 4 mil casos activos em lares de idosos em todo o país Paulo Pimenta

As notícias que chegam dos lares de idosos não são animadoras. Há mais casos activos e mais mortes por covid-19 do que na primeira vaga da doença, que afectou de forma particular estas estruturas. Além disso, os números globais de infecções em pessoas acima dos 70 anos (dentro e fora dos lares) mais do que triplicaram desde o início de Outubro.

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As notícias que chegam dos lares de idosos não são animadoras. Há mais casos activos e mais mortes por covid-19 do que na primeira vaga da doença, que afectou de forma particular estas estruturas. Além disso, os números globais de infecções em pessoas acima dos 70 anos (dentro e fora dos lares) mais do que triplicaram desde o início de Outubro.

Até esta segunda-feira, existiam 4114 residentes infectados em lares, um número muito superior aos 2500 casos activos que a ministra da Saúde, Marta Temido, disse ter sido um dos valores máximos da pandemia. A 21 de Outubro, Diogo Serra Lopes, secretário de Estado da Saúde, dizia existirem 1425 infecções entre idosos nos lares, o que significa que o número de casos activos quase triplicou desde essa altura e até esta segunda-feira, pouco mais de um mês depois.

Numa tendência semelhante ao que se tem passado na generalidade do território, quando o número de casos aumenta nos lares, o número de vítimas mortais acaba por subir também. Desde o início da pandemia e até esta quinta-feira, morreram 1409 idosos que viviam em lares, óbitos que a Direcção-Geral da Saúde (DGS) diz que podem ter ocorrido nas instituições ou em hospitais. Destes, 362 ocorreram desde o dia 1 de Novembro e até esta segunda-feira, o que representa mais de um quarto (25,6%) das mortes totais em lares.

O Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSSS) explica, por escrito, que “não existe um aumento da incidência de doença nos lares que não acompanhe o que se verifica em todo o país”. “A percentagem de mortes em lares de idosos face ao total de mortes por covid-19 tem vindo a diminuir: era, em Abril, de 41% e é, actualmente, de 34%”.

A tutela que a testagem em lares com o recurso a testes rápidos, que tem como objectivo detectar casos antes que estes se acumulem e transformem em surtos, começou esta segunda-feira no distrito do Porto e é dirigida apenas aos utentes, já que os funcionários estão a ser testados no âmbito de um programa já em curso (com mais de 33 mil testes feitos desde Outubro).

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Testes à covid-19 nos centros de saúde de Santa Maria da Feira e Arouca JOSÉ COELHO LUSA

A par destes dados fornecidos pela DGS, o PÚBLICO pediu informações quanto ao número total de casos desde o início da pandemia em lares, pedido que fez também ao Ministério da Saúde, mas não obteve resposta até à publicação deste artigo.

Não tendo estes dados, olhamos para o crescimento de casos nas faixas etárias acima dos 70 anos, dados disponibilizados diariamente pela DGS. Percebemos que a 1 de Outubro, no arranque da segunda vaga da doença em Portugal, existiam 12.803 casos em pessoas acima dos 70 anos em Portugal, valor que um mês depois aumentou para 21.749 infecções. Esta quinta-feira, o boletim da DGS deu conta de 37.792 casos nestas faixas etárias, uma subida de 195% em menos de dois meses. Segundo os mesmos dados, de 1715 mortes por covid-19 acima dos 70 anos a 1 de Outubro, registam-se, à data desta quinta-feira, 3684 mortes nestas faixas etárias, um aumento de 46%.

Falta de funcionários

Ricardo Pocinho, presidente da Associação Nacional de Gerontologia Social (ANGES), diz ao PÚBLICO que não “pode sequer haver uma comparação entre a primeira e a segunda vaga” no que toca aos lares e que o problema continua a ser a falta de funcionários, o que faz com que “a resposta não esteja a ser adequada”. “A nossa maior preocupação neste momento nem é o número de casos, são as mortes, porque se os lares tivessem a capacidade de resposta que deviam ter o número de óbitos seria diferente”, refere.

Nas Misericórdias Portuguesas, o problema é o mesmo. “Somos confrontados diariamente com várias pessoas que não podem trabalhar durante duas semanas e a gestão torna-se difícil. A situação está dramática em termos de enfermeiros porque os hospitais os estão a roubar. Temos sítios que ficam com cinco ou seis enfermeiros numa semana”, diz Manuel Caldas de Almeida, vice-presidente.

Em relação a números da segunda vaga, Manuel de Almeida refere que não estão “muito pior” do que estavam na primeira vaga e garante que tem sido feito um esforço para não deixar que os casos nos funcionários se alastrem aos utentes, algo que rotula de “muito difícil”. “A verdade é que quando há um caso num lar a coisa alastra muito, não temos só um ou dois casos, temos uma dezena ou mais, por isso a verdadeira luta é conter antes de chegar aos utentes”, refere.

O presidente da Associação de Apoio Domiciliário de Lares e Casas de Repouso de Idosos (ALI), João Ferreira de Almeida, que representa lares privados, diz que a explosão de casos a que o país tem assistido também está a acontecer nos lares. “Está pior do que na primeira vaga e ainda demorará algumas semanas a existir uma melhoria significativa”, avança. “Continua a fazer-me confusão como é que há tantos surtos em lares. Percebo que as pessoas não estivessem preparadas na primeira vaga, mas passados oito ou nove meses não entendo.”

Brigadas foram chamadas mais de 100 vezes

Depois do cenário negro vivido na primeira vaga, e em preparação para o Outono, o Governo anunciou que a partir de Outubro os lares podiam contar com Brigadas de Intervenção Rápida que tinham como objectivo de garantir, a nível nacional, uma resposta pronta se instituições ficassem sem funcionários devido a surtos graves de covid-19, um dos grandes problemas dos primeiros meses da pandemia.

Segundo o que foi anunciado pela ministra da Segurança Social, Ana Mendes Godinho, cerca de 400 profissionais integram as brigadas, que têm diferentes dimensões em função dos distritos e do número de instituições que exista em cada região. “As brigadas têm médicos, enfermeiros, psicólogos e auxiliares de técnicos de lares”, explicou em Setembro a ministra.

Ricardo Pocinho aponta algumas falhas à intervenção destas equipas. “As brigadas fazem intervenção com equipas que são constituídas na hora, quando a necessidade já está emergente. Muitas vezes ficam apenas durante sete dias nos lares, não acautelando o regresso dos trabalhadores que ficaram em casa durante pelo menos dez dias por testarem positivo ou estarem em isolamento. Às vezes deixa a instituição desfalcada, ainda que num estado melhor do que a encontraram, porque entretanto os trabalhadores vão regressando”, detalha.

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Há 178 surtos activos de covid-19 em Portugal Diogo Ventura

Questionado sobre o tempo de intervenção destas equipas nos lares, afirma que, em média, tem sido de 48 a 72 horas, mas critica que a ordem de avançar só possa ser dada em casos graves, como quando existem muitos idosos e poucos funcionários. “Os lares não fizeram um reforço dos seus números em quantidade suficiente, e muito menos na área da saúde. Os que não tinham enfermeiros continuam a não os ter”, diz ainda.

Para Manuel Caldas de Almeida, das Misericórdias Portuguesas, a respostas das brigadas tem sido muito variada, apesar de admitir que “salvam vidas” quando o fazem. “Um lar que de repente fica com 20 profissionais e tem muitos doentes precisa dessa ajuda, mas não podemos dizer que tem sido uma resposta consistente. Em alguns sítios é boa e noutros é má, há pessoas com e sem formação. É uma excelente ideia, mas muito variável no terreno”, diz o vice-presidente.

O ministério avança que estas equipas continuam com 400 profissionais e que foram activadas em 124 ocasiões. E rejeita a ideia de que existam atrasos na sua mobilização, dando o exemplo de um lar de Alhandra onde morreram 21 pessoas. “A Segurança Social recebeu no dia 5 de Novembro o pedido do lar da Associação do Hospital Civil e Misericórdia de Alhandra para mobilização da brigada de intervenção rápida, que foi activada no dia seguinte. A 7 de Novembro, a brigada estava ao serviço com dez elementos: sete ajudantes de acção directa e três auxiliares de serviços gerais”, lê-se na resposta enviada ao PÚBLICO.

Mais de 400 chamadas de apoio

Foi também anunciada, ainda em Setembro, a criação de uma linha telefónica de apoio aos lares que funciona 24 horas por dia e sete dias por semana. A tutela diz que esta linha tem capacidade para “esclarecer dúvidas, disponibilizar informação específica e auxiliar no contacto com as entidades locais de saúde, protecção civil e segurança social” e que conta actualmente com 27 pessoas, podendo receber seis chamadas em simultâneo. “Já recebeu 424 chamadas”, esclareceu.

Ainda sobre medidas implementadas para estas instituições, o Ministério do Trabalho avança que na primeira fase de testagem foram efectuados mais de 117 mil testes à covid-19 a funcionários e utentes e que estes grupos também foram priorizados no plano de vacinação contra a gripe, iniciado em Setembro.