Devolvam-nos os abraços

Abraçar é um acto de vontade, de dupla e recíproca vontade. E, por isso mesmo, é também um acto de confiança, entrega. Renuncia-se temporariamente ao próprio espaço para encontrar, nos braços de outrem, o que por si mesmo não se é capaz de encontrar.

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Priscilla du Preez/Unsplash

É quase Natal e não se deve abraçar. É quase réveillon e não se deve abraçar. Desde que a pandemia se tornou o real estado de coisas no mundo, no início de 2020, e que o isolamento social se impôs, depositamos o direito ao abraço. Para alguns dos povos mais tradicionais do planeta, abraçar nunca foi um costume. Aliás, a depender da cultura, pode até ser ofensivo o gesto à tradição. No entanto, o Ocidente, sobretudo aquele herdeiro do latim, sabe bem o que é amplexus. Amplexus é o vocábulo que une o prefixo “ambi” (ao redor) com “plectere” (entrelaçar) e é dele que o termo abraço surge. Entrelaçar-se a alguém.

Abraçar é um acto de vontade, de dupla e recíproca vontade. E, por isso mesmo, é também um acto de confiança, entrega. Renuncia-se temporariamente ao próprio espaço para encontrar, nos braços de outrem, o que por si mesmo não se é capaz de encontrar. Assim que abraçar é, em última análise, um acto democrático, pois pressupõe deixar cair as amarras e as censuras e buscar no outro a verdade. Não é tempo dos abraços, embora nunca tenham sido tão necessários quanto hoje.

Abraçar no meio do caos é sinalizar o fim da guerra. Abraçar no meio da pandemia é saber que a entrega e a confiança já não seguem mais maculadas por um vírus mortal. Saberemos que essa fase terá chegado ao fim quando, sem medo, virmos amplexos despretensiosos nas ruas, nos lares, nas esquinas e nos bares. Por enquanto, acompanhamos a ausência de abraço em situações que somente ele poderia responder à altura. Vejamos: norte-americanos comemoram o fim de um pleito eleitoral histórico e acirrado com uma catarse solitária, sem abraço; brasileiros deixam o forró em stand-by e já sabem que a alegria do Carnaval será literalmente mascarada, sem abraço; italianos não podem mais ver a nonna que sempre os esperou com a mesa farta aos fins-de-semana, agora domingo é sem abraço; portugueses passaram Abril sem descer a Liberdade em multidão, os cravos de 2020 não viram abraço; mexicanos enterraram os seus mortos sem a festa das cores que só um abraço poderia esboçar. O mundo está a viver as datas comemorativas e festivas, os aniversários, as despedidas, os velórios, as vitórias e conquistas, as derrotas e os fracassos sem abraço.

Ficamos desfasados. A geração covid-19 vê-se (des)abraçada. Demonstrar consideração e empatia pelo outro, nestes tempos, ficou difícil. O consolo só pode vir pelas palavras, pelo olhar, os braços já não podem dizer que estão presentes. Tocamos cotovelos, fazemos um toque de leve com a mão e rapidamente procuramos o álcool em gel, mas o acto de entrega verdadeiro entre amigos, pais e filhos, avós e netos, namorados e namoradas, está suspenso. Irónico pensar que somente conseguiremos vencer um vírus que nos mata solitariamente entre desconhecidos astronautas de um hospital, através de cooperação e união, quando o gesto por excelência de harmonia foi eliminado de nosso meio.

A humanidade espera um abraço quando essa luta acabar. Abraços que paguem o tempo da ausência. Abraços que matem a saudade daqueles que o vírus matou. Abraços que curem feridas abertas na alma. Abraços que reconduzam destinos, que reencontrem vizinhos, que recuperem quem ficou sozinho. Abraços que destruam muralhas, que não se contentem com migalhas. Abraços que devolvam braços aos amigos, que satisfaçam os prazeres dos amantes e destruam de vez pseudo-democracias errantes. Devolvam-nos os abraços, queremos voltar ao amplexus da humanidade.