Podem as artes tradicionais (renovadas) ser uma alternativa ao industrial?

Projecto Saber Fazer investiga há uma década as técnicas de fabrico portuguesas. A perda destes ofícios é um “mito”, diz a criadora Alice Bernardo, mas é preciso apostar na divulgação. Combater o industrial não é preciso, criar alternativas mais sustentáveis sim

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Paulo Pimenta

Quando Alice Bernardo puxa os fios da história do projecto Saber Fazer não encontra uma linha contínua, mas antes um caminho de “muitas voltas e reviravoltas” onde as peças do puzzle acabam por se encaixar pouco a pouco. Licenciada em Arquitectura, percebeu numa obra de restauro de um edifício o potencial de registar o processo e as técnicas utilizadas. A criação de um negócio de fabrico manual de peças têxtil foi o primeiro passo para uma mudança de rumo na sua vida: o curso ficaria em segundo plano e a paixão pela produção artesanal e semi-industrial ganharia terreno.

Nascia assim o Saber Fazer, há quase dez anos, “de forma muito simples, directa e ingénua até”. A ideia de Alice Bernardo era “registar o conhecimento de algumas técnicas, não que estivessem a perder-se, mas que não estavam a ser passadas”. 

Visitou carpintarias, marcenarias, alfaiatarias, conheceu maqueteiros, puxadores de metal, torneiros de madeira, tamanqueiros. Em cada um deles, procurava a marca distintiva, aquilo “que fazia a diferença entre um trabalho bem feito e um não tão bem feito”, recorda em conversa com o PÚBLICO.

A necessidade de “focar” acabaria por surgir anos depois, quando o projecto de investigação, valorização e divulgação destas técnicas ganhou uma vertente pedagógica e o mundo das artes e ofícios se revelou demasiado vasto. “Acabámos por nos especializar no têxtil.” E só nesse sector, conta a arquitecta, “há uma variedade imensa de temas”. Tinturaria natural (fazem investigação contínua sobre as práticas mais sustentáveis), lãs portuguesas (produziram uma investigação pioneira sobre as 16 raças autóctones portuguesas), produção de índigo, de linho, de seda, de plantas tintureiras. “Cada um dava para estudar uma vida”, comenta Alice, acrescentando ainda que na Saber Fazer são produzidas e angariadas matérias-primas portuguesas, utilizadas nas oficinas e vendidas na loja física e online do projecto.

Perda não, transformação sim

Dez anos de investigação depois, Alice Bernardo acredita ser “um mito” a ideia de que as técnicas das artes e ofícios tradicionais estão a perder-se. Para a arquitecta, “a informação passa”, embora por vezes mude de “demografia”. “Tínhamos um trabalho artesanal mais tradicional e localizado nas zonas rurais que está a deixar de existir e está a transformar-se noutra coisa. Está a haver uma transformação e não uma perda.”

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É a convicção de alguém pouco dada a “tendências revivalistas” e com um diagnóstico feito no terreno. Se o problema é uma “desconexão entre as pessoas que têm formação e aquelas que querem aprender”, a solução passa por “tornar essa informação mais acessível”. É isso, acredita, que pode ajudar na “disseminação” destas artes e ofícios tradicionais e provocar “uma revolução em escalas de produção mais pequenas”.

Para Alice Bernardo, essa falta de pontes entre estes dois mundos – quem sabe e quem quer aprender – ocorreu devido a uma mudança na sociedade: a passagem de um “excelente ensino técnico” para um “ensino mais intelectual, onde todos tiram cursos de Direito, Arquitectura ou Medicina”. Foi um erro crasso: “O ensino profissional, por ser considerado de segunda categoria, começou a perder a atenção e rigor técnico que tinha em meados do século passado e passou a ser visto como segundo recurso”, lamenta.

A boa notícia, diz, é que esse tempo parece ter ficado para trás. “Felizmente nos últimos dez anos isto mudou. Há muito mais gente a procurar este ensino”. É uma realidade que Alice e a equipa do Saber Fazer, que entretanto cresceu, também sentiu em casa. Inicialmente em Matosinhos e depois no Porto, a loja e espaço de oficinas despertou interesse crescente. E variado.

Saber Fazer/DR
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Por lá já passaram, desde 2014, cursos e oficinas de produção de linha, trabalho da lã, tinturaria natural, tecelagem, tapeçaria, feltragem, tingimento com índigo, lãs portuguesas ou cestaria – só para dar alguns exemplos. O próximo, já no dia 28 de Novembro (online), é para quem quer aprender a trabalhar a lã, desde a ovelha até ao fio. E em 2021, os cursos da Saber Fazer vão estar todos online, com vídeos de 20 a 30 minutos e material de apoio. 

Nas conversas com artesãos, Alice Bernardo identificou quase sempre uma grande vontade de partilhar conhecimento (“quem é verdadeiramente apaixonado por aquilo que faz geralmente quer ensinar ou falar sobre aquilo”), mas nem sempre esse desejo era acompanhado das capacidades necessárias. “Um artesão pode ser excelente e não saber ensinar. Não é uma falha, é o que é”, aponta. E foi nessa brecha que o Saber Fazer entrou, com a investigação como base, mas a produção de programas educativos e manuais pedagógicos como parte importante do projecto.

Depois de descobrir que ofícios existiam em Portugal onde estavam, a equipa foi criando uma “rede”– entre artesãos, produtores, gente com vontade de aprender – e identificando outro problema: “Muitas vezes estas pequenas empresas não sabiam como criar uma estratégia comercial.” Para isso, foi criado o Ofício, que disponibiliza serviços de desenvolvimento de produto e dá uso à tal rede de artesãos e produtores.

“Um olhar muito pitoresco”

No discurso de Alice Bernardo não há diabolizações nem um combate ao industrial. “Essa é uma solução que faz sentido existir porque cobre um certo tipo de necessidades existentes”, comenta assertiva. “O que defendemos é a existência de alternativas mais sustentáveis.” Essa criação obriga, antes de mais nada, a um “acesso ao conhecimento”, defende: como se produz um determinado produto, que material é necessário, que tecnologia está envolvida, como se cria uma rede de produção? “Se não o soubermos não podemos criar essas alternativas de produção em média e pequena escala, que são muito mais sustentáveis, não só a nível ambiental, mas também social e económica”.

Alice Bernardo tem identificado “um olhar muito pitoresco da produção artesanal” e políticas “demasiado voltadas para o turismo”. Isso, diz, pode ser uma “armadilha” para um sector incapaz de se sustentar a si mesmo e onde a “dignidade e valorização” do trabalho ainda são escassas. Uma proposta que ajudaria projectos como o Saber Fazer? Criar em Portugal a denominação de empresa social, para quem tem “propósitos éticos e está a meio caminho entre uma ONG e uma empresa privada”.