Paredes de escolas secundárias e universidades em Lisboa vandalizadas com frases racistas

À chegada, estudantes depararam-se com as entradas e muros dos estabelecimentos de ensino tingidos com mensagens de discriminação racial. As imagens foram divulgadas nas redes sociais e ainda não foram apuradas responsabilidades.

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Na madrugada desta sexta-feira, dia 30 de Outubro, várias escolas secundárias e universidades em Lisboa foram vandalizadas com mensagens de ódio racistas e xenófobas. Os ataques foram feitos nas entradas das escolas secundárias da Portela e de Sacavém, na Escola Secundária António Damásio, nos Olivais, e ainda na Universidade Católica Portuguesa e no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE). Segundo fonte da PSP, também o Centro de Acolhimento para Refugiados da Bobadela, do Conselho Português para os Refugiados (CPR), foi alvo de ataque. Ainda não foi identificado o autor dos crimes. As imagens foram divulgadas na rede social Twitter e Instagram, onde são várias as críticas entre a comunidade. “Mas calma, Portugal não é racista”, lê-se numa das publicações que revela o ódio tingido em vários muros da Universidade Católica Portuguesa.

“Morte aos pretos, por uma faculdade branca”, “Zucas, voltem para as favelas! Não vos queremos aqui!”, “Portugal é branco. Pretos voltem para África!”, “Morte aos ciganos. Portugueses digam sim ao racismo”, “Viva a Europa branca” - são algumas das mensagens de ódio, que incentivam a discriminação, espalhadas pelos estabelecimentos de ensino em Lisboa.

Ao PÚBLICO, fonte do Comando Metropolitano da PSP de Lisboa confirma que "até ao momento não foi identificado nenhum possível suspeito, apenas foram reportadas as situações pelos elementos policiais que se deslocaram ao local”. Foram alertados “às 10h” em relação ao vandalismo na Universidade Católica Portuguesa. As ocorrências “estão participadas como situações criminais”, e “foi feito um auto de notícia pela polícia, que vai ser remetido ao Ministério Público”. Quanto aos símbolos desenhados junto das mensagens, a mesma fonte assume que “ele está devidamente anexado nos ficheiros mas não se sabe qualquer coisa sobre isso”.

Para Nuno Reis, director do Agrupamento de Escolas de Portela e Moscavide, onde a Escola Secundária da Portela se insere, a solução passa por “dar a menor atenção possível a estas situações”, por mais “desagradáveis” que sejam. Relembra que se trata de um ataque com precedentes,"este ano já é a terceira vez”, e espera que não passem de mensagens numa parede. "São situações provocatórias e a nossa posição enquanto agrupamento tem sido de não dar relevância e limpar rapidamente”, garante. O director assegura que as frases duraram "pouco mais de uma hora”. Pelo “símbolo que apresentam, do poder branco”, assume que os vários ataques sejam de uma só organização da zona. Nuno Reis prefere enaltecer a solidariedade que se gerou na comunidade. Fala, com agrado, da iniciativa de um aluno da escola que, tendo visto as imagens nas redes sociais de manhã, dirigiu-se às aulas munido de uma lata de tinta branca para pintarem os muros. “Um aluno branco”, destaca.

Fonte do gabinete de Manuel Grilo, vereador da Educação na Câmara Municipal de Lisboa, já expressou a intenção do Bloco de Esquerda em "pintar de branco” as paredes com mensagens discriminatórias, e “colocar uma faixa”, amanhã. O Bloco de Esquerda, em comunicado, escreve que “repudia actos hediondos e recorrentes” face às instituições de ensino vandalizadas em Lisboa, e ao Centro para Recolhimento de Refugiados da Bobadela, no concelho de Loures.​ O dirigente do BE na localidade, Fabian Figueiredo, considera que as mensagens “não são aceitáveis em democracia e merecem a condenação de toda a sociedade”. Acusa o sucedido de ser “fruto da banalização que tem sido feita das premissas” que “a extrema-direita” defende em Portugal. E recorda: “a 18 de Junho, a Assembleia Municipal de Loures aprovou um voto de condenação do Bloco de Esquerda pelas mensagens racistas e xenófobas em escolas do concelho e no Centro de Acolhimento para Refugiados”.

Também o secretário de Estado da Educação, João Costa, já recorreu ao Facebook para reagir às mensagens pintadas: “Não podemos aceitar que alguém escreva isto”, critica, mostrando indignação por este tipo de ataques prevalecerem em 2020, “tantos anos depois de Rosa Parks”, repara. Contesta o silêncio que dá permissão a estas afrontas, e apela a que sejam denunciadas. “Não podemos parar de denunciar que estas atitudes estão cada vez mais legitimadas por pessoas que, tendo crescido em democracia, suspiram, discursam e anseiam pelo regresso a um qualquer regime de que têm saudades sem nunca terem conhecido”, acusa. Termina a sua intervenção na rede social com questões dirigidas ao autor do vandalismo:  “Só me conseguiste gerar um pensamento feliz: o teu escrito parvo ficou do lado de fora da escola! O racismo não tem lugar lá dentro”.

Num comunicado enviado ao PÚBLICO, a reitora da Universidade Católica Portuguesa, Isabel Capeloa Gil, condena o vandalismo nas paredes da Universidade e mostra preocupação com a violação da segurança do campus: “a universidade rejeita este acto, que atenta contra os princípios basilares do que a universidade enquanto espaço de abertura e diálogo representa”. Isabel Capeloa Gil confirma que, “pelo conteúdo dos dizeres, este é um crime público” e, portanto, foi denunciado pela universidade “junto do Ministério Público” para apurar responsabilidades. A reitora garante que a instituição continuará a primar pela “inclusão e coesão sociais em prol do bem comum da sociedade”, desenvolvendo uma acção educativa “assente no respeito pela dignidade da pessoa, nos valores da liberdade e do diálogo, rejeitando qualquer forma de discriminação social, de raça ou sexo”.

Em comunicado na rede social Instagram, a Associação de Estudantes do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE) expressa um “total choque” com o sucedido nesta madrugada. “Este tipo de acções são repugnantes e vão contra todos os nossos valores”, escrevem, sublinhando que “actos racistas não podem ser tolerados ou confundidos com liberdade de expressão”, por violarem os direitos humanos. Terminam com uma mensagem de solidariedade destinada a estudantes que se possam sentir ofendidos com este vandalismo racista e xenófobo.

Texto editado por Ana Fernandes

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