Esta sexta-feira, o império Disney contra-ataca com Baby Yoda

Com a segunda temporada de The Mandalorian, regressa uma personagem que é filha da televisão da era Internet: os espectadores baptizaram-no, criaram memes, fizeram brinquedos, tornaram-no seu. É um pequeno grande fenómeno vital para um novo serviço, o Disney+, que tem na série um dos seus principais trunfos na arena do streaming.

werner-herzog,star-wars,disney,george-lucas,televisao,culturaipsilon,
Foto
Baby Yoda, ou The Child Lucasfilm

Regressa esta sexta-feira aos ecrãs após um ano de triunfo na cultura pop, um filho da televisão da Internet: Baby Yoda (e não The Child, o seu nome oficial) é a estrela de The Mandalorian, a série Star Wars que se estreou apenas nos EUA em Novembro de 2019 mas que logo se tornou um fenómeno global, a cavalo entre dois tempos, o do streaming e o da nostalgia. Nomeada para o Emmy de Melhor Série Dramática, motor de milhões de subscrições do serviço Disney+, é com ela que o império Disney contra-ataca e disputa terreno aos seus concorrentes na arena do streaming.

A segunda temporada da série, acabada de filmar dias antes do Grande Confinamento de Março, estreia-se esta sexta-feira no Disney+. A importância do momento tem sido assinalada com acções promocionais como a exposição, por estes dias, na National Gallery de Londres, de um retrato a óleo das duas personagens, o caçador de recompensas a quem chamam “Mando”, por ser do povo Mandalorian, e o pequeno Jedi verde. Quando a plataforma chegou a Portugal, em Setembro, o primeiro episódio da série foi exibido em simultâneo nos canais Fox (agora detidos pela Disney).

Passada nos interstícios de dois filmes da saga Star Wars, O Regresso de Jedi (1983) e O Despertar da Força (2015), a série deu um novo rosto ao universo. Mas o Mandalorian do título, interpretado por Pedro Pascal (Narcos, A Guerra dos Tronos), é um eterno e contido mascarado. O actor diz por isso não ser apenas a nova “silhueta” da saga, como brincou na revista Variety, porque o principal rosto actual de Star Wars é mesmo o de uma criança alienígena verde que enterneceu meio mundo. A personagem é quase maior do que a sua série.

E Baby Yoda é dos espectadores e dos internautas, que mesmo sem o serviço legalmente disponível nos seus países o baptizaram, fizeram com ele milhentos memes, musicais do TikTok, uma conta de fãs no Twitter e centenas de versões artesanais no site Etsy para preencher o vazio oficial de merchandising e continuar a brincar à nova sensação Star Wars. “É uma prova do poder das redes sociais. Nunca vimos uma coisa assim”, disse na altura à BBC o vice-presidente de licenciamento da Lucasfilm, Paul Southern. Segundo o site Axios, na semana após a sua estreia, a personagem verde gerou o dobro das interacções nas redes sociais e o dobro de notícias de qualquer um dos candidatos à nomeação do Partido Democrata para a corrida à Casa Branca.

PÚBLICO -
Foto
Francois Duhamel

Mais procurada do que Stranger Things

The Mandalorian vive em dois tempos. O da Internet que tudo sabe e revela, das empresas preparadas para lucrar com cada peça de Lego ou refeição de fast food associada ao Baby Yoda, e o da nostalgia dos anos 1970 e 80, em que todas as surpresas eram possíveis. Até na forma como chega, uma vez por semana e não no modelo Netflix que disponibiliza todos os episódios de uma só vez, é dual.

Esta é a primeira série de acção real do valioso universo Star Wars e tem um tom bem afinado: é um western espacial e uma “buddy comedy", uma história de mestre e jovem protegido itinerantes, um Kung Fu sem David Carradine, um Clint Eastwood com uma carga em forma de bebé numa história simples que impressionou tanto os subscritores da plataforma de streaming da Disney quanto a indústria que vota os Emmys. O produtor executivo Dave Filoni, um discípulo não oficial do autor da saga, George Lucas, passou das séries de animação Star Wars (como Clone Wars) para a construção de The Mandalorian.

Em 2019, a Disney contrariou os seus instintos, que lhe renderam 3,8 mil milhões de euros em vendas de merchandising geral em 2018, e, para não estragar a surpresa que foi a revelação da personagem no final do episódio de estreia no Disney+, não fez produtos com a personagem. “Ao reter esses produtos, sabíamos que poderíamos ter a desvantagem de não ter brinquedos disponíveis na data certa, mas em troca conseguimos um entusiasmo à volta da personagem porque toda a gente sentiu que a tinha descoberto em conjunto”, disse o criador da série, Jon Favreau (Iron Man, O Livro da Selva) à Hollywood Reporter.

Favreau procurava, como tanta cultura popular neste século, emular a experiência que teve enquanto criança. Era um mundo sem Internet e com mais espanto. Em 1977, após o sucesso do primeiro filme Star Wars, também não houve brinquedos no Natal por pura falta de preparação da Lucasfilm. Agora, a Disney terá perdido conscientemente pelo menos 2,5 milhões de euros em vendas possíveis, segundo a Jungle Scout, que trabalha com quem vende produtos na Amazon. Este ano, pelo contrário, já há um manancial de material Baby Yoda para comprar.

PÚBLICO -
Foto
O final do episódio de estreia, de 2019 Lucasfilm

No Natal passado, a analista de mercado Parrot Analytics avaliou que The Mandalorian era 31 vezes mais procurada do que séries como Stranger Things para ver em streaming. Baby Yoda é também um símbolo do modelo de negócio do Disney+, serviço que já tem mais de 60 milhões de subscritores (a líder e pioneira Netflix tem cerca de 190 milhões) graças à combinação de biblioteca de franchises e marcas (Marvel, Star Wars, Pixar, National Geographic) e ao trunfo que é ter a série imperdível, o Stranger Things de 2019/20, para gerar atenção. No streaming, angariar novos subscritores é muito mais importante do que vender figuras coleccionáveis ou t-shirts de The Child a beber uma sopinha.

Uma pista para o futuro

Numa altura em que a pandemia acelerou a importância do streaming como espaço de estreia e em que os filmes Star Wars estão em reavaliação, a importância de The Mandalorian é grande como pista para o futuro. “Há uma fronteira muito ténue entre o que está nos cinemas e o que está nos ecrãs de casa”, disse Jon Favreau à Hollywood Reporter. “As coisas que só poderíamos ver num cinema agora vemos via streaming e penso que o mesmo pode acontecer no sentido inverso”, completou na Variety, abrindo a porta à expansão de The Mandalorian, cuja primeira temporada terá custado perto de 85,7 milhões de euros, para os cinemas.

O que é que o Baby Yoda tem, para além de tanto potencial comercial? O realizador Werner Herzog chorou quando o viu pela primeira vez. “De partir o coração”, descreveu. Herzog é também actor na série que agora lança mais oito episódios e que conta ainda com Carl Weathers (Rocky), Giancarlo Esposito (Breaking Bad) ou com a voz de Nick Nolte. A nova temporada, da qual não foram mostrados episódios antecipadamente à imprensa portuguesa, contará com Rosario Dawson (Sin City), Michael Biehn (Exterminador Implacável) ou Timothy Olyphant (Justified) e realização de Bryce Dallas Howard, Weathers ou Favreau. A memorável banda-sonora original continua a cargo de Ludwig Göransson e a intriga expandirá a vista para novos mundos no universo Star Wars, dizem os autores.

Sugerir correcção