Trump reanima os seus apoiantes, Biden volta a falar para o país

O segundo e último debate entre os dois principais candidatos à Casa Branca ficou marcado por um tom menos crispado do que o primeiro. Mas os ataques foram duros e confirmaram as visões radicalmente diferentes que os eleitores têm à sua frente.

Numa altura em que os votos de quase 50 milhões de eleitores nos EUA já chegaram aos sítios onde vão começar a ser contados, na noite de 3 de Novembro, Donald Trump e Joe Biden tiveram uma derradeira oportunidade, esta madrugada, para mudarem as opiniões de uma fatia do eleitorado cada vez mais pequena.

Num cenário como este, e a apenas 11 dias da grande noite eleitoral de 3 de Novembro, era difícil que o segundo e último debate entre os dois principais candidatos à Casa Branca fosse decisivo, mesmo que um deles tivesse saído como o grande vencedor.

É verdade que o Presidente dos EUA superou as expectativas em relação ao primeiro debate, mas a sua prestação mais contida e disciplinada foi, em parte, neutralizada por um adversário igual a si próprio: longe de entusiasmar, Biden também não cometeu erros e falou mais vezes para o país (para todo o país, republicanos e democratas), e isso pode bastar para um candidato que lidera nas sondagens nacionais e em muitos estados que vão ser decisivos para a eleição.

Depois de um primeiro debate caótico, em que a discussão sobre os assuntos que interessam aos cidadãos dos EUA foi substituída por um festival de interrupções e ofensas pessoais, não era difícil que o debate desta madrugada fosse melhor.

E foi isso que aconteceu. Comparado com o debate em Cleveland, no Ohio, o frente-a-frente em Nashville, no estado do Tennessee, chegou a ter momentos em que a campanha eleitoral de 2020 parecia ter sido teletransportada para uma época menos conflituosa. Mas só à superfície.

Pandemia alterou tudo

Logo nos primeiros momentos do debate, Trump e Biden falaram sobre a pandemia de covid-19 como se estivessem em mundos diferentes.

O Presidente dos EUA repetiu a sua mensagem de que a crise de saúde pública está a caminho de ser controlada, com o aparecimento de uma ou mais vacinas “nas próximas semanas” – um prazo que nunca foi confirmado por nenhuma das equipas envolvidas nas investigações, nem pelas próprias autoridades de saúde do país.

E a sugestão de que a pandemia está controlada não podia ter sido feita numa noite menos indicada para declarações de vitória – quase ao mesmo tempo, soube-se que foram registados mais de 74 mil novos casos de infecção nos EUA nas últimas 24 horas, o segundo valor mais elevado desde o início da pandemia.

No tema que é provavelmente o mais difícil para a candidatura de Trump, Biden demarcou-se do seu adversário e apresentou-se com uma mensagem forte: “Quem é responsável por tantas mortes não deve continuar a ser Presidente dos Estados Unidos da América. Eu vou pôr fim a isto. Farei com que tenhamos um plano.”

Depois de ter começado a cair nas sondagens logo após o primeiro debate, a 29 de Setembro, Trump estava pressionado a dar outra imagem ao eleitorado – não à sua base de apoio mais fervorosa, que estará ao lado dele aconteça o que acontecer, mas principalmente a uma fatia de eleitores que, não desgostando das suas políticas, começavam a ficar cansados da sua postura. 

E o Presidente dos EUA mostrou que também consegue ser um candidato disciplinado, à imagem do que aconteceu no último debate com Hillary Clinton, na campanha eleitoral de 2016. O seu grande problema, em 2020, é que perdeu o elemento de surpresa – desta vez, terá mais dificuldade para ganhar os votos de quem esteve disposto, há quatro anos, a dar-lhe o benefício da dúvida.

Para Biden, a liderança nas sondagens e a trégua da ala progressista do Partido Democrata, numa aliança comum anti-Trump, fazem com que a sua tarefa seja um pouco menos complicada. E se aos olhos dos apoiantes de Trump ele será sempre um candidato fraco seja qual for a sua prestação nos debates, aos olhos do Partido Democrata só tem de continuar a ser o que tem sido: pouco entusiasmante, mas mais confiante e desenvolto do que nos debates nas eleições primárias.

Hunter Biden presente

O trabalho da moderadora do debate, Kristen Welker, da NBC News, estava à partida mais facilitado do que o de Chris Wallace no primeiro debate. Enquanto o jornalista da Fox News teve de lidar com um Donald Trump apostado em não deixar falar o seu adversário, Welker teve à sua disposição – por intermédio de um colega escondido nos bastidores – um botão para cortar os microfones dos dois candidatos. O facto de esse botão existir fez com que Trump e Biden se mantivessem, na maioria das vezes, dentro dos limites de um debate civilizado.

Apesar de ter conseguido manter os dois candidatos focados nas suas perguntas, Kristen Welker seguiu a mesma linha de Chris Wallace e não confrontou os candidatos – em particular Donald Trump – com declarações erradas ou falsas. 

O Presidente dos EUA tinha uma última oportunidade para colar a Joe Biden o rótulo de corrupto perante uma audiência nacional. Mas as acusações que lançou, sobre o suposto enriquecimento do filho do candidato do Partido Democrata, Hunter Biden, em negócios na Ucrânia e na China, dificilmente são credíveis fora da bolha dos seus apoiantes – em Setembro, os próprios senadores do Partido Republicano disseram que não encontraram provas de que Biden tenha feito algo reprovável quando foi vice-presidente dos EUA; e o procurador-geral, William Barr, também já disse que nem Biden nem Obama são alvos de qualquer investigação criminal.

Biden na defensiva

A caminho do fim do debate, quando os assuntos em discussão eram a política de imigração e o combate à criminalidade, Trump lançou o seu ataque mais eficaz da noite, acusando Biden de nada ter feito nos oito anos em que foi vice-presidente dos EUA.

“Cometemos um erro”, disse Biden, sobre alguns aspectos das políticas de imigração da Administração Obama. “Demorámos muito tempo a acertar. Mas eu vou ser o Presidente dos Estados Unidos, e não o vice-presidente dos Estados Unidos”, concluiu, numa crítica indirecta ao Presidente Barack Obama.

Até ao dia da eleição, é provável que a campanha de Donald Trump tente capitalizar uma declaração de Biden sobre o combate às alterações climáticas, através de anúncios televisivos e discursos em estados como a Pensilvânia.

Ao comprometer-se com uma transição, a longo prazo, para as energias renováveis – como parte de uma nova agenda para o combate às alterações climáticas e em coordenação com o Acordo de Paris –, Biden foi acusado por Trump de querer “acabar com a indústria do petróleo”, que é o sustento directo e indirecto de muitas famílias em estados que podem decidir a eleição.

“Foi chocante ver Joe Biden a prometer acabar com a indústria do petróleo, o que destruiria milhões de postos de trabalho e daria cabo da economia”, disse o director de comunicação da campanha de Trump, Tim Murtaugh, citado pelo New York Times. “E deu para ver que Joe Biden percebeu que cometeu um erro grave quando disse aquilo.”