Fotografia

Inês está a retratar vidas deixadas em suspenso pela covid-19

A premissa do projecto Suspenso de Inês Ventura é simples: acompanhar e fotografar o quotidiano de quem tem sofrido com a pandemia, especialmente a nível profissional.

"A Carolina vem da área de Comunicação Social, mas toda a sua experiência profissional tem sido na área de producão, seja em publicidade ou em eventos. É uma mulher proactiva, das que arregaça as mangas e encara o trabalho de frente. Só que em Janeiro deste ano, quando não se previa o impacto que toda esta situação iria ter, a empresa onde trabalhava accionou um despedimento colectivo e ela ficou sem emprego. 'No outro dia estava a falar com uma amiga e o que mais me chateia – porque houve aí uma semana que me fui abaixo – é esta inércia forçada. Tu quereres e precisares de trabalhar, mas não há nada de proactivo que tu possas fazer para que isso aconteça. Não poderes ir atrás.'” ©Inês Ventura
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"A Carolina vem da área de Comunicação Social, mas toda a sua experiência profissional tem sido na área de producão, seja em publicidade ou em eventos. É uma mulher proactiva, das que arregaça as mangas e encara o trabalho de frente. Só que em Janeiro deste ano, quando não se previa o impacto que toda esta situação iria ter, a empresa onde trabalhava accionou um despedimento colectivo e ela ficou sem emprego. 'No outro dia estava a falar com uma amiga e o que mais me chateia – porque houve aí uma semana que me fui abaixo – é esta inércia forçada. Tu quereres e precisares de trabalhar, mas não há nada de proactivo que tu possas fazer para que isso aconteça. Não poderes ir atrás.'” ©Inês Ventura

Uma cabeleireira, um arquitecto ou uma médica são apenas algumas das muitas profissões que a covid-19 veio pôr à prova e que foram capturadas pela lente de Inês Ventura. O projecto chama-se Suspenso e cada história tem sido apresentada no Instagram com três fotos, acompanhadas por legendas com os relatos na primeira pessoa.

“A ideia surgiu quando estávamos em confinamento e pensei que gostaria de fazer alguma coisa para retratar esta época. Comecei a olhar à volta e vi que havia uma data de histórias para serem contadas, achei que seriam interessantes para partilhar com os outros", explica Inês Ventura ao P3. Inspirando-se no projecto Humans of New York, decidiu contar as histórias das pessoas em discurso directo, partilhando-as no Instagram. 

As pessoas retratadas são sobretudo conhecidos ou conhecidos de conhecidos. “Na altura, como estávamos em estado de emergência, não podia sair à rua para fazer este trabalho, mas comecei a fazer alguns contactos. A partir do momento em que comecei a falar com as pessoas, comecei a receber mais sugestões e acho que só uma pessoa das que contactei é que não quis aparecer”, acrescenta a fotógrafa.

O foco principal do projecto é o lado laboral, mostrar como a pandemia tem afectado o trabalho. "A ideia que eu tinha era que as fotografias estivessem enquadradas na profissão da pessoa, apesar de ter retratado desempregados e uma maquilhadora em casa, por exemplo”, revela. A recolha das fotos foi feita "de acordo com a disponibilidade que as pessoas tinham” e os contactos já previamente feitos facilitaram a organização. “O projecto ainda está a decorrer e enquanto encontrar histórias que façam sentido, vou continuar”, conclui Inês Ventura. "A minha ideia inicial seria fazer disto um livro, mas ainda não sei.”

Texto editado por Amanda Ribeiro

"A Susanne é da Suíça, filha de mãe portuguesa, e veio para Portugal há dez anos. Dez anos depois encontra-se à frente de um espaço no Lx Factory, em conjunto com a sua sócia. Um espaço alternativo, encaixando-se no espírito do colectivo de Alcântara. E, acima de tudo, encaixando-se no espírito da Susanne. A Madame Dussu reabriu assim que o Estado permitiu, tendo sofrido as devidas alterações e adaptações para que pudesse receber os seus clientes com toda a segurança. 'Acaba por ser mais difícil agora porque há mais contas para pagar. Não posso atender muitos clientes por dia, faço cerca de quatro clientes por dia porque implica limpar tudo [entre clientes] e só atendemos com marcação, um de cada vez e torna-se um bocadinho mais complicado.'"
"A Susanne é da Suíça, filha de mãe portuguesa, e veio para Portugal há dez anos. Dez anos depois encontra-se à frente de um espaço no Lx Factory, em conjunto com a sua sócia. Um espaço alternativo, encaixando-se no espírito do colectivo de Alcântara. E, acima de tudo, encaixando-se no espírito da Susanne. A Madame Dussu reabriu assim que o Estado permitiu, tendo sofrido as devidas alterações e adaptações para que pudesse receber os seus clientes com toda a segurança. 'Acaba por ser mais difícil agora porque há mais contas para pagar. Não posso atender muitos clientes por dia, faço cerca de quatro clientes por dia porque implica limpar tudo [entre clientes] e só atendemos com marcação, um de cada vez e torna-se um bocadinho mais complicado.'" ©Inês Ventura
"A Maria é ucraniana e está em Portugal há 18 anos, sendo que explora o restaurante Mariema há 12 com a sua sócia, Luba. A Maria veio para Portugal em busca de uma vida melhor e encontrou-a em Aveiras de Cima. Apesar de conseguir ir de dois em dois anos à sua terra, ela própria diz que já não pretende voltar, que a sua casa é Portugal. A culpa é das pessoas, diz ela. Mas com a pandemia teve de fechar o seu café, tendo reaberto assim que pode para começar a fazer take-away. Ainda assim, avista tempos difíceis, pois ainda vai demorar algum tempo para conseguir repor aquilo que se perdeu nestes meses. Agora, diz ela, 'é fazer mais com menos'."
"A Maria é ucraniana e está em Portugal há 18 anos, sendo que explora o restaurante Mariema há 12 com a sua sócia, Luba. A Maria veio para Portugal em busca de uma vida melhor e encontrou-a em Aveiras de Cima. Apesar de conseguir ir de dois em dois anos à sua terra, ela própria diz que já não pretende voltar, que a sua casa é Portugal. A culpa é das pessoas, diz ela. Mas com a pandemia teve de fechar o seu café, tendo reaberto assim que pode para começar a fazer take-away. Ainda assim, avista tempos difíceis, pois ainda vai demorar algum tempo para conseguir repor aquilo que se perdeu nestes meses. Agora, diz ela, 'é fazer mais com menos'." ©Inês Ventura
"A história da Catarina é a primeira da série que não está relacionada com o mundo laboral. A Catarina foi diagnosticada com um linfoma de Hodgkin em 2016. Desde então, já passou por duas recidivas, sendo que a última foi detectada um pouco antes do início desta pandemia.  'O impacto que a covid teve em mim foi… [suspiros] O impacto foi apenas e somente em termos de saúde porque em termos profissionais, como estava de baixa, não mudou muito. Em termos de saúde, estou a fazer tratamentos oncológicos e foi uma grande incerteza se faria os tratamentos, se o hospital continuaria a funcionar da mesma maneira, se as prioridades médicas iriam mudar ou não e como é que a vida se iria desenrolar para um doente oncológico.'”
"A história da Catarina é a primeira da série que não está relacionada com o mundo laboral. A Catarina foi diagnosticada com um linfoma de Hodgkin em 2016. Desde então, já passou por duas recidivas, sendo que a última foi detectada um pouco antes do início desta pandemia. 'O impacto que a covid teve em mim foi… [suspiros] O impacto foi apenas e somente em termos de saúde porque em termos profissionais, como estava de baixa, não mudou muito. Em termos de saúde, estou a fazer tratamentos oncológicos e foi uma grande incerteza se faria os tratamentos, se o hospital continuaria a funcionar da mesma maneira, se as prioridades médicas iriam mudar ou não e como é que a vida se iria desenrolar para um doente oncológico.'” ©Inês Ventura
"A Sofia vem da área de Marketing e Publicidade, mas fez do mundo da maquilhagem a sua profissão. A Sofia é camaleónica e não precisa de truques de maquilhagem para isso. Facilmente se encontra a fazer trabalhos na televisão, como de seguida está numa produção de cinema ou de publicidade, a maquilhar uma noiva ou em eventos. Independentemente da zona geográfica, seja de norte a sul do país ou nas ilhas, a Sofia está lá. 'Toda esta situação foi um choque muito grande porque eu passava a vida na rua. Eu tinha dois e três trabalhos por dia e de um momento para o outro vejo-me sem absolutamente nada. Foi um choque não só a nível monetário como também psicológico porque não era a minha rotina, se não trabalhar não ganho porque sou freelancer.'"
"A Sofia vem da área de Marketing e Publicidade, mas fez do mundo da maquilhagem a sua profissão. A Sofia é camaleónica e não precisa de truques de maquilhagem para isso. Facilmente se encontra a fazer trabalhos na televisão, como de seguida está numa produção de cinema ou de publicidade, a maquilhar uma noiva ou em eventos. Independentemente da zona geográfica, seja de norte a sul do país ou nas ilhas, a Sofia está lá. 'Toda esta situação foi um choque muito grande porque eu passava a vida na rua. Eu tinha dois e três trabalhos por dia e de um momento para o outro vejo-me sem absolutamente nada. Foi um choque não só a nível monetário como também psicológico porque não era a minha rotina, se não trabalhar não ganho porque sou freelancer.'" ©Inês Ventura
"A Sara e o Eduardo foram pais na altura em que toda a situação da pandemia estava a começar, em que se tentava perceber como é que toda esta situação nos iria afectar, em que os serviços fecharam e as burocracias complicaram para que um simples registo de uma criança pudesse ser feito. Com mais dois filhos, de 3 e 6 anos, são também o testemunho da telescola e do impacto que esta teve na dinâmica do seu seio familiar -uma filha recém-nascida e um dos pais em teletrabalho.'Sara: Há que relativizar, há dias em que conseguimos relativizar e pensar que, pelo menos, estamos todos saudáveis… Eduardo: Eu acho que nunca perdemos isso de vista, acho que a nossa ansiedade veio de tentar manter uma normalidade quando ela não existe.'"
"A Sara e o Eduardo foram pais na altura em que toda a situação da pandemia estava a começar, em que se tentava perceber como é que toda esta situação nos iria afectar, em que os serviços fecharam e as burocracias complicaram para que um simples registo de uma criança pudesse ser feito. Com mais dois filhos, de 3 e 6 anos, são também o testemunho da telescola e do impacto que esta teve na dinâmica do seu seio familiar -uma filha recém-nascida e um dos pais em teletrabalho.'Sara: Há que relativizar, há dias em que conseguimos relativizar e pensar que, pelo menos, estamos todos saudáveis… Eduardo: Eu acho que nunca perdemos isso de vista, acho que a nossa ansiedade veio de tentar manter uma normalidade quando ela não existe.'" ©Inês Ventura
"O Ivo vive em Londres há já uns largos anos. Todas as suas formas de rendimento, como a de muitos de nós, sofreram um grande impacto com o confinamento. Os concertos pararam, deixou de haver turismo e vive em Inglaterra, um país cujo comportamento face à pandemia foi bastante diferente do nosso. 'O período mais stressante foi mesmo aquele antes de fazerem o lockdown cá em Londres, naquele período em que não sabes quem é que está ou não infectado, em que olhas desconfiado para toda a gente, a tentar perceber o que se passa, a tentar lidar com esta nova situação. O que veio do Governo na altura foi muito confuso, por isso ninguém sabia muito bem o que devia fazer.'"
"O Ivo vive em Londres há já uns largos anos. Todas as suas formas de rendimento, como a de muitos de nós, sofreram um grande impacto com o confinamento. Os concertos pararam, deixou de haver turismo e vive em Inglaterra, um país cujo comportamento face à pandemia foi bastante diferente do nosso. 'O período mais stressante foi mesmo aquele antes de fazerem o lockdown cá em Londres, naquele período em que não sabes quem é que está ou não infectado, em que olhas desconfiado para toda a gente, a tentar perceber o que se passa, a tentar lidar com esta nova situação. O que veio do Governo na altura foi muito confuso, por isso ninguém sabia muito bem o que devia fazer.'" ©Inês Ventura
"O Marcos é chefe de bar no Restaurante Infame. Foi o vencedor deste ano da competição Bacardí Legacy com o seu cocktail Perception e iria à grande final mundial em Miami. Só que este ano tudo o que foram grandes eventos de bar foram cancelados ou adiados. No entanto, o Marcos acredita que quando voltarem, voltarão em grande. 'Este ano começámos com o melhor Janeiro e Fevereiro de sempre para todo o sector hoteleiro, é praticamente unânime. Tínhamos em perspectiva um ano muito bom, com muitos projectos já próximos de concluir e ficou tudo pendurado. Eu gosto de ser optimista, mas ao mesmo tempo temos de olhar para as coisas com algum realismo e percebermos que o turismo, no fundo, é um luxo para muita gente. E acho que isto ainda vai durar mais algum tempo. Muitas pessoas perderam os seus empregos, quem não perdeu está com medo de perder, o que é natural, e prevejo ainda mais alguns meses difíceis, mas acho que vamos conseguir recuperar com um sorriso no rosto.'”
"O Marcos é chefe de bar no Restaurante Infame. Foi o vencedor deste ano da competição Bacardí Legacy com o seu cocktail Perception e iria à grande final mundial em Miami. Só que este ano tudo o que foram grandes eventos de bar foram cancelados ou adiados. No entanto, o Marcos acredita que quando voltarem, voltarão em grande. 'Este ano começámos com o melhor Janeiro e Fevereiro de sempre para todo o sector hoteleiro, é praticamente unânime. Tínhamos em perspectiva um ano muito bom, com muitos projectos já próximos de concluir e ficou tudo pendurado. Eu gosto de ser optimista, mas ao mesmo tempo temos de olhar para as coisas com algum realismo e percebermos que o turismo, no fundo, é um luxo para muita gente. E acho que isto ainda vai durar mais algum tempo. Muitas pessoas perderam os seus empregos, quem não perdeu está com medo de perder, o que é natural, e prevejo ainda mais alguns meses difíceis, mas acho que vamos conseguir recuperar com um sorriso no rosto.'” ©Inês Ventura
"O Tó dispensa qualquer tipo de apresentação. Músico conhecido do público português de projectos musicais como os Lulu Blind, Ladrões do Tempo, Club Makumba e, claro, Dead Combo. Tó lançou um manifesto em género de desabafo no seu Facebook que acabou por ressoar pela internet fora. 'Porque o concerto não é só o concerto, o concerto são as pessoas, as conversas, beber um copo com a malta amiga que está lá, o pessoal que tu encontras, o pessoal que já não vês há não sei quanto tempo, pessoas que vês sempre que vais, sei lá… isso é que são celebrações. Seja um concerto, seja um espectáculo, seja sair com os amigos, sejam jantares, é essa partilha, não é? Que eu acho que um gajo até pode viver num palácio mas um gajo sem os outros não é nada, já o Joe Strummer dos Clash dizia isso e é verdade. Um gajo pode fazer aqui músicas, pode fazer discos a solo… mas a música tem esse lado de união das pessoas, de juntar pessoas, sabermos que não estamos sozinhos no mundo.'”
"O Tó dispensa qualquer tipo de apresentação. Músico conhecido do público português de projectos musicais como os Lulu Blind, Ladrões do Tempo, Club Makumba e, claro, Dead Combo. Tó lançou um manifesto em género de desabafo no seu Facebook que acabou por ressoar pela internet fora. 'Porque o concerto não é só o concerto, o concerto são as pessoas, as conversas, beber um copo com a malta amiga que está lá, o pessoal que tu encontras, o pessoal que já não vês há não sei quanto tempo, pessoas que vês sempre que vais, sei lá… isso é que são celebrações. Seja um concerto, seja um espectáculo, seja sair com os amigos, sejam jantares, é essa partilha, não é? Que eu acho que um gajo até pode viver num palácio mas um gajo sem os outros não é nada, já o Joe Strummer dos Clash dizia isso e é verdade. Um gajo pode fazer aqui músicas, pode fazer discos a solo… mas a música tem esse lado de união das pessoas, de juntar pessoas, sabermos que não estamos sozinhos no mundo.'” ©Inês Ventura