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Joana Gonçalves
Série Ciências Sociais em Público (XVII) - Análise

Trabalho: perante a incerteza, os mais novos procuram ser “felizes naquilo que fazem”

As tradicionais profissões de sonho envolviam um percurso no ensino superior, como ser médico, advogado, arquiteto ou engenheiro. Hoje existem entre os jovens portugueses novas aspirações e opções profissionais, já não exclusivamente associadas a profissões de prestígio e carreiras certificadas por diplomas universitários. E cada vez mais aceites e incentivadas pelas famílias.

Um ano letivo conturbado está a finalizar. Muitos jovens, em conjunto com as suas famílias e amigos, ponderam escolhas sobre o que fazer. Prosseguir os estudos? Estudar o quê? Onde? Tentar o mercado de trabalho? Para fazer o quê? O que há disponível? Para muitos, tomar estas decisões não é fácil. Particularmente numa época em que os percursos de vida juvenis trilhados são menos lineares e mais imprevisíveis, sujeitos a condições de crescente incerteza, insegurança e risco, como muitas investigações nacionais e internacionais têm vindo a demonstrar. E tanto mais quando os efeitos expectáveis da pandemia de covid-19 nas economias mundiais apontam para que os cenários de imprevisibilidade nas formas de transição para a idade adulta venham a ganhar amplitude.

Já durante a recente conjuntura de crise em Portugal (marcada pela recessão económica e pela aplicação de medidas de austeridade) se haviam acentuado as condições para que o valor de empregabilidade dos diplomas de ensino superior começasse a ser questionado entre as mais jovens gerações. O número de matriculados no ensino superior diminuiu progressivamente entre 2012 e 2014, contrariando a tendência de crescimento das três décadas precedentes e não recuperando, até hoje, o valor máximo de estudantes atingido em 2011. Deram-se profundas transformações no mercado de trabalho penalizando os mais novos, mesmo os graduados. Precariedade, desemprego intermitente, subemprego (com estágios remunerados, “biscates” e ocupações informais), e/ou trabalho não remunerado (como algumas formas de voluntariado) passaram a ser parte integrante das transições entre a escola e o mercado de trabalho.

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Prova de Português durante o período de Exames Nacionais, na Escola Secundária Rainha Dona Leonor, em Lisboa Rui Gaudêncio

A relação virtuosa entre instrução, profissão, remuneração e estatuto social, em que se acreditava, viu-se descredibilizada. O diploma de ensino superior, afinal, não garante o acesso e progressão numa carreira ou um emprego que corresponda à qualificação obtida. Sai fragilizada a sua procura otimista, bem como os itinerários que oferece. Os jovens e suas famílias estão cada vez mais conscientes destas realidades. São cada vez mais procuradas alternativas que articulem escola, formação e trabalho. E novas atividades inspiram os imaginários dos mais jovens acerca dos seus possíveis meios de vida no futuro.

Fazer o que se gosta

Se a insegurança e o risco estão em todos os caminhos disponíveis, porque não estudar e/ou fazer o que realmente se gosta, em vez de optar por rumos que, supostamente, conferem maiores garantias, como seja um percurso no ensino superior? Porque não explorar uma prática que dê prazer e que, quem sabe, pode vir a tornar-se um trabalho de onde certamente se obterá um sentimento de realização pessoal e profissional? Ao longo da pesquisa Tornando profissões de sonho realidade: transições para novos mundos profissionais atrativos aos jovens, realizada por uma equipa de sociólogos sob a minha coordenação, entre 2012 e 1015, no ICS-ULisboa (com fundos da Fundação para a Ciência e a Tecnologia), ouvimos mais de uma centena de jovens entre os 18 e os 35 anos, residentes na região de Lisboa, pensar em voz alta sobre as opções que tomaram em termos de formação e profissionalização.

Caetano (a quem reservamos o anonimato sob este pseudónimo), depois de tentar fazer duas licenciaturas (Produção Animal e Veterinária), desistiu do caminho no ensino superior e inscreveu-se aos 21 anos num curso profissional de cozinha. Parou para pensar e concluiu: “Já estou farto de andar a fazer aquilo de que não gosto. Nem toda a gente tem de ter um curso superior, nem toda a gente tem de ter um mestrado. Isso não interessa! As pessoas têm é que ser felizes naquilo que fazem. E sentir-se bem com o que fazem!” Um número crescente de jovens justifica com este argumento expectativas e opções profissionais que decorrem das suas práticas de lazer e prazer de todos os dias, tentando explorar o seu potencial de empregabilidade e de realização profissional.

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Curso profissional de cozinha e pastelaria de uma escola em Coimbra Paulo Ricca

As promessas académicas de mais segurança, salário, mobilidade social, interesse e prazer nos trabalhos que os diplomas validam competem com promessas idênticas ligadas a atividades ratificadas por outros meios sociais, como as culturas juvenis de pares e as culturas mediáticas de celebridade. Tenho investigando algumas dessas atividades, como as de tatuador, DJ, jogador de futebol, cozinheiro ou modelo, e mais recentemente, as de youtuber, streammer ou gamer, estas exercidas em plataformas digitais. Entre muitas outras, estas ocupações estão envoltas numa retórica de “sonho” que alimenta as aspirações profissionais de um número crescente de jovens. Mesmo que — diga-se — com diferentes possibilidades objetivas da sua concretização, tendo em conta condições como: acesso a formação específica (em grande medida na mão de privados); equipamentos tecnológicos dispendiosos; redes sociais que permitem a validação e reconhecimento de habilidades pessoais; e acesso a circuitos sociais de reconhecimento e profissionalização.

Começa-se na “brincadeira”

Cada vez mais jovens exploram o potencial de empregabilidade de práticas de lazer/prazer quotidianas, no fundo, paixões que os conduziram à aprendizagem informal de habilidades. Gabriel (pseudónimo), 20 anos, estudante de Produção Musical numa das várias escolas de DJ’ing que abriram em Lisboa, conta que, apesar de passar música desde novo, “por brincadeira”, em festas e com amigos, não pensava fazer “disso” ganha-pão: “Se for tocar [expressão usada para passar música], não sinto que seja uma profissão. Porque é como um hobby.

O envolvimento dos jovens nestas novas profissões de sonho começa frequentemente em tenra idade, no contexto de experiências lúdicas entre amigos e/ou entre familiares, com o objetivo de ocupar o tempo livre ou expressar identidades através de um consumo e/ou uma prática: jogar à bola na rua, pôr discos em festas, cozinhar uma refeição, o prazer em tratar do visual e o de modificar o corpo. No decorrer destas “brincadeiras”, vão-se aprendendo, exercitando e acumulando saberes práticos ou saberes-fazer.

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Jogadores durante um torneio online Athit Perawongmetha/Reuters

A profissionalização crescente destas atividades tem vindo a ser beneficiada pela formalização pedagógica destes conhecimentos e modos de transmissão, acompanhando uma evolução da procura destes serviços no mercado. É crescente a oferta formativa nesses domínios de atividade, explorando economicamente o entusiasmo juvenil por estas práticas: diferentes tipos de curricula (mais e menos longos), cursos mais técnicos ou académicos (profissional, superior, de formação, de valorização pessoal e workshop de apenas algumas horas). As competências, qualificações e certificações que vendem são apelativas a determinados perfis juvenis, detentores de recursos (tempo e dinheiro) para investir não apenas como atividade de ocupação de tempos livres, mas também como potencial meio de vida.

Sonhando ser alguém na vida

O valor social e simbólico destas ocupações no mercado das profissões em Portugal e no mundo tem vindo a ser promovido. Até recentemente, jogar futebol ou cozinhar eram apenas modestos métiers, pouco promissores, tendencialmente desenvolvidos por quem não tinha grande sucesso na sua trajetória escolar; e as atividades de DJ ou de tatuador, por exemplo, eram revestidas de uma aura de suspeição, boémia e marginalidade. Hoje estas ocupações estão envoltas numa aura de celebridade socialmente cultivada e amplificada em inúmeros reality shows transmitidos em canais televisivos generalistas e temáticos, filmes, revistas de teor variado e redes sociais, que as revalorizaram social e simbolicamente. Contava-me a diretora de uma escola de modelos e atores que a televisão estava entre os principais motivos para a procura desta formação: “Há jovens de 13, 14 anos, que acreditam que é possível fazer vida disto e é isso que eles querem. Dizem: Eu adoro a Tyra Banks. Eu via o American Next Top Model todos os dias.”

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DJ Gonçalo no Festival Neopop, Viana do Castelo Paulo Pimenta

Durante a pesquisa, numa conversa em grupo, a Clara e a Jessica (duas modelos iniciantes, com 22 e 20 anos, respetivamente) refletem de forma crítica sobre a influência mediática: “Criam-se grandes ilusões…” “Sim. Expectativas e ilusões. E as redes sociais também têm contribuído para que se banalize muito. Tenho um amigo que tira fotos muito bem, tiro umas fotografias ao pé de uma parede branca, meto no Facebook e tenho um book [portefólio].”

A visibilidade mediática destas ocupações, exercidas ou aprendidas por real people [figuras da vida real que participam nos reality shows], reforça a crença, entre anónimos sonhadores, da possibilidade de acederem às luzes da ribalta. Familiarizam-nos com dicas de acesso e de sucesso, com competências e qualidades básicas ao exercício da profissão. Mais: os reality shows produzem ficções profissionais e idealizações de glamour e fama sobre os seus protagonistas. Estes deixam de ser as distantes vedetas ou ícones de referência e reverência que vivem num mundo à parte, mas “jovens comuns” aos quais é dada a oportunidade de aceder ao estatuto de microcelebridade: atores de um estilo de vida cosmopolita, cool, moderno, estruturado em torno de atividades em que o trabalho se mescla com o fruir da vida e prazeres de vária ordem. Pratica-se a tempo inteiro a atividade de que mais se gosta, com gratificações que daí podem decorrer, como o amplo reconhecimento social, dinheiro, viajar pelo mundo, etc. Como dizia um DJ formador numa escola de produção musical em Lisboa, o que motivava os seus estudantes para a música de dança em Portugal era também a envolvência, “o brilho”, “as luzes”, “ser o centro das atenções”. “Vejo que eles vêm à procura desse sucesso das luzes da ribalta, do ‘Sou DJ!’ [diz com um ar muito convencido]. Assim algo grandioso! Eles sentem aquilo como se fosse a vida eterna!”

As novas profissões de sonho nos horizontes juvenis são ocupações que atraem os jovens de hoje não apenas como possíveis meios de subsistência económica, mas também, e sobretudo, enquanto meios de existência social. Movidos pela crença de assim se poder “estar em cena”, “viver da cena” e “vir a ser alguém na cena”, muitos encontram nestas ocupações um sentimento de protagonismo e de existência singular simultaneamente enquanto indivíduo e trabalhador. Tomar a decisão de enveredar profissionalmente por uma destas atividades tem subjacente o desejo de escapar ao vazio de uma subsistência anónima e anódina. Não ser apenas mais uma voz e um nome que se identifica numa chamada para um call center, mas esse nome poder ser conhecido, reconhecido e existir socialmente como chef, DJ, futebolista ou youtuber. Muitos destes jovens fogem a uma condição de inexistência no mundo do trabalho, percebidos como mais um entre muitos, colocados nos bastidores da cena social, em zonas marginais, subterrâneas, intersticiais, e deixados à mercê de caminhos e mecanismos de inserção laboral que conduzem à invisibilidade do subemprego, desemprego ou emprego desolador e não promissor.


Sociólogo, ICS-ULisboa


O autor segue o novo acordo ortográfico

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