Luísa Abreu, Carolina Grilo Santos e Diana Geiroto Gonçalves criaram o núcleo de investigação Paralaxe, sediado no IGUP.
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Luísa Abreu, Carolina Grilo Santos e Diana Geiroto Gonçalves criaram o núcleo de investigação Paralaxe, sediado no IGUP. Teresa Pacheco Miranda

O Paralaxe junta arte e ciência para mostrar que não são dois mundos à parte

Três artistas triangularam o Paralaxe, um núcleo de investigação que, se delas depender, trará muitas vidas a espaços museológicos desconhecidos do grande público. O primeiro é o Instituto Geofísico da Universidade do Porto. Todas as semanas, cientistas e artistas apresentam um trabalho no site do projecto, que terá uma exposição final.

Luísa Abreu quis subir à torre meteorológica, Carolina Grilo Santos desceu ao bunker sísmico e Diana Geiroto Gonçalves ainda não sabe se vai além dos campos de estudo do Instituto Geofísico da Universidade do Porto (IGUP), onde as três artistas plásticas escolheram sediar a primeira residência artística do núcleo de investigação Paralaxe.

“Partiu de uma intenção que tínhamos: imaginar espaços museológicos que são activos e vivos em investigação e em que nós, enquanto artistas, poderíamos produzir trabalho ou ter uma prática artística relacionada com aquele contexto”, apresenta Luísa Abreu, co-criadora do projecto financiado pela Direcção-Geral das Artes.

Quando se aperceberam que não seriam “as únicas pessoas a ter interesse em trabalhar neste tipo de espaços”, alargaram a conversa entre amigas e formalizaram-na numa associação e núcleo de criação e investigação em arte que possibilita “o ambiente e condições financeiras para que os artistas possam estar no projecto”. “O objectivo é a investigação, poder estar no espaço e trabalhar nele ou a partir dele”, completa Diana Geiroto Gonçalves.

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As três artistas e fundadoras do Paralaxe na estação meteorológica no topo do Observatório da Serra do Pilar. Teresa Pacheco Miranda

Numa primeira fase, a colaboração com o pólo multifuncional na Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia, iria beneficiar o sistema educativo do instituto e observatório fundado em 1885 na margem do Douro, não por causa das vistas (que se aconselham), mas para ter um maior isolamento das vibrações da cidade. Na escola, interessavam-me as aulas de ciência quando eram práticas, quando podíamos fazer trabalho de campo, visitar parques e laboratórios. Normalmente o ensino é sempre um bocadinho na secretária. Por isso é que acho que este sítio pode ser muito útil para os estudantes, conta Luísa. 

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Com o confinamento, os planos iniciais de promover visitas guiadas e actividades em grupo ficaram fechados em mapas e folhetos didácticos que “permitem uma visita autónoma” ao jardim fenológico (instrumento para analisar o crescimento de espécies clonadas), ao parque meteorológico e à estação sísmica construída pelo governo norte-americano para monitorizar testes nucleares no subsolo. 

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Os folhetos desdobráveis e mapa que as três artistas desenvolveram para o Serviço Educativo do IGUP.

Estes três campos de investigação foram um dos pontos de partida dos trabalhos que estão a ser realizados pelas fundadoras e pelos restantes três artistas em residência, entretanto adiada pela pandemia. “Quisemos começar por definir territórios: o que existe aqui, o que se faz a nível de investigação, o que está activo, perceber o que poderia existir de arquivos, o que se perdeu, o que ainda existe. Nós passamos este material aos artistas convidados, estamos a incentivar as visitas e o encontro com o espaço e com quem está no espaço a trabalhar. Mas esta relação é a premissa. Quais são as afinidades e ligações que se vão estabelecer, os artistas é que sabem”, explica Diana, despertando a intervenção rápida de Luísa: “Não conseguimos controlar isso”. “Podemos até tentar antever. Convidamos artistas a pensar no trabalho deles e nos temas e processos que lhes interessam. Mas sabemos que nada do que esperamos vai ser o que eles vão fazer aqui. E ainda bem, na verdade.”

O fotógrafo e editor de vídeo Dinis Santos, a artista plástica Diana Carvalho e o escultor e artista multidisciplinar Hernâni Reis Baptista são os três convidados para participar na exposição final, com inauguração marcada para 7 de Novembro, no Instituto Geofísico. Em Janeiro de 2021 será lançada uma publicação impressa com vários trabalhos realizados ao longo do projecto, no Maus Hábitos, no Porto. “Vamos fazer um trabalho de curadoria com os artistas em residência para perceber como é que relacionamos o trabalho deles com coisas que existem no instituto e que podem, de repente, relacionar-se”, antevê Diana. “A exposição não vai ser apenas de objectos artísticos mas quase museológica.”

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A estação meteorológica no topo do Observatório da Serra do Pilar, em Gaia. Teresa Pacheco Miranda

Ao mesmo tempo, todas as semanas é possível conhecer um trabalho de um autor diferente, no site do Paralaxe. O primeiro convidado foi João Burgal — engenheiro químico tornado cientista, nas suas palavras, “um investigador com uma sensibilidade artística muito peculiar”, nas palavras das criadoras do projecto. Trouxe uma receita de bolo de laranja. “Na ciência, um protocolo não é mais que uma receita que se segue à risca para obter um determinado resultado/fim”, começa por escrever, no artigo-receita publicado na plataforma online que vai juntar “colaborações-satélite de mais de 20 autores, entre artistas, cientistas e teóricos.

“​Nem tudo o que acontece na Ciência acontece através de cálculos, a priori. Às vezes, parte do entusiasmo e da imaginação, da vontade de pensar de outra forma, que é um caminho que nos interessa muito. Quisemos estimular essa possibilidade e reunir pessoas que também sintam o mesmo entusiasmo”, expõe Carolina Grilo dos Santos, que tem agora uma prática muito ligada à Geografia, depois de ter passado pela astronomia. “Por exemplo, na astronomia tens leituras do espaço, mas elas transmitem-se muitas vezes através de desenhos e pinturas. E o que eu tenho percebido é que os cientistas têm noção de que os artistas também são muito necessários na ciência.”

Com Paralaxe, querem também desmentir o preconceito de que artistas e cientistas vivem em dois mundos diferentes. O Observatório Astronómico de Lisboa, apontam, poderá ser o segundo local a acolher estas ideias. “Eu acho que a arte e a ciência são coisas muito distintas, mesmo”, atreve-se Luísa. “Mas há uma série de coisas que podemos repensar, com outro ponto de vista, outro ângulo de observação. E isso muitas vezes faz até a própria ciência avançar. Por isso é que também chamamos ao projecto Paralaxe, esse cruzamento interessa-nos muito. De não sentir que há uma observação de um único ponto que nos dá logo a resposta certa — é preciso essa triangulação.”

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