Não há um único martelo à vista nas ruas do Porto em vésperas de S. João

Devido à pandemia da covid-19, a Câmara Municipal do Porto cancelou os festejos de São João. Pela primeira vez na memória dos portuenses, não há sequer martelos à venda nas bancas das ruas.

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A imagem que este ano não se verá Paulo Pimenta

É um São João diferente. Pelas ruas do Porto, vêem-se os cartazes com as mensagens da Câmara: “A festa é como a sardinha, quer-se pequenina”, “Arraial? Só meia dúzia no quintal”, “No São João, fica ao portão”. A expectativa de festa, que por esta altura do ano poria todo o Porto em polvorosa, é nestes dias apenas uma recordação. Na rotunda da Boavista, onde habitualmente se montavam os carrosséis e se vendiam farturas, vê-se apenas o jardim que em vésperas de São João parece despido. Na Avenida dos Aliados já estaria montado o palco e os portuenses percorreriam as ruas com martelos. Só quem abrir bem os olhos reparará em algumas bancas com manjericos espalhadas pela cidade - um símbolo da resistência.

Na rua Júlio Dinis, Margarida Guimarães, que vende manjericos há 30 anos, nunca viu um ano assim. O genro, Vítor, vem ajudá-la durante o dia e bem que o pode confirmar. Esta vendedeira ambulante, que viu o seu negócio de meias e cuecas ressentir-se com a covid-19, lamenta: “Este ano foi muito fraco”. E fraco não só porque a cidade se move a passo lento, mas também porque foi proibida a venda na rua de artigos como os martelos, tão característicos desta época do ano. Rosa Amaral, junto à travessa do Carmo, abana a cabeça, desiludida, ao declarar que nesta segunda-feira ainda não vendeu um único manjerico. 

Chegando à estação de São Bento, o panorama é desconcertante. Marlene Morais, que durante o ano vende castanhas e cachorros, afirma que está a viver numa “cidade fantasma”. Há 15 anos que vende manjericos com a sogra que, por sua vez, já os vende há 50 – o seu marido cresceu ali mesmo, em São Bento, e se há noite de que se lembra da sua infância é a de São João, em que a multidão se unia com os martelos em riste para festejar. 

Mas o marido de Marlene não é o único que cresceu com a memória dos manjericos e dos martelos – também Margarida Marques, na praça da República, se recorda da sua meninice, quando ajudava a mãe na venda dos manjericos. E o mesmo poderá dizer Maria Soares, com a banca montada ao lado da de Margarida. Estão ali há quatro dias mas Maria, em tempos costureira fabril, revela-se mais optimista do que a maioria: “A gente nem sabe se está a vender bem ou a vender mal, ao menos estamos a vender alguma coisa”. Alguns transeuntes ainda vão parando, levando consigo não só o manjerico mas também as típicas mensagens alusivas à festa - “Cantai, Cantai, raparigas/Cantai sempre ao S. João/Porque ele paga as cantigas/Com muito bom coração”. 

Mas este ano pouca será a cantoria. Não haverá bailaricos, alho-porro pelas caras dos populares, sardinhadas pelas ruas, fogo-de-artifício sobre o Rio Douro nem longos passeios até à Foz do Douro. O São João será passado dentro de quatro paredes, com as lojas de conveniência e os serviços de transporte a encerrar mais cedo e a ponte D. Luís I, que todos os anos chegava a tremer com a procissão de gente, interdita quer para a circulação automóvel, quer para a circulação pedonal. Reforçar-se-ão as acções de fiscalização, o patrulhamento e a gestão de limpeza urbana. Para todos os portuenses, fica o trago amargo de uma festa por viver. Pela primeira vez desde sempre na memória dos portuenses que hoje olham para a sua cidade estranhamente serena, os martelos não sairão à rua

Texto editado por Ana Fernandes

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