Caso Queiroz: o Brasil é uma série da Netflix

Às vezes pergunto-me se não valerá a pena restringir-me aos outros conteúdos menos agressivos à intelectualidade humana, como o tal filme 365 Dias ou La Casa de Papel.

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Fabrício Queiroz LUSA/Sebastiao Moreira

As personagens de uma série não podem ser também telespectadores. Podem, sim, observar e interagir com outros personagens e com a própria acção, mas não têm um campo de visão suficientemente distante e imparcial como o de um assíduo telespectador. 

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As personagens de uma série não podem ser também telespectadores. Podem, sim, observar e interagir com outros personagens e com a própria acção, mas não têm um campo de visão suficientemente distante e imparcial como o de um assíduo telespectador. 

E é assim que eu me sinto. Enquanto luso-brasileiro a morar em Portugal há 15 anos, sinto-me um telespectador desta grande série da Netflix chamada Brasil: Ó Pátria Amada. De carácter anual, a série já vai na 520.ª temporada que ainda mal chegou a meio e já tem tantos twists and turns que um hiatus até já calhava bem.  

O último episódio que se estreou no passado dia 18 de Junho, por exemplo, foi sem dúvida de tirar o fôlego: Fabrício Queiroz, um ex-assessor do filho “zero-um” do Presidente da República acusado de ser o pilar de corrupção da família Bolsonaro, foi finalmente encontrado. Já no final da 518.ª temporada os telespectadores e algumas personagens se perguntavam sobre o paradeiro do dito cujo, mas ninguém esperava que o roteirista fosse tão irónico.

Vejamos, neste último episódio foi-nos dado conhecimento de seis factos importantes. Primeiro: foi, por fim, desvendado o mistério que deu origem ao movimento #CadeOQueiroz. Segundo: o desaparecido estava numa quinta no interior de São Paulo, em Atibaia – cidade, aliás, muito conhecida por ter levado à prisão do ex-Presidente Lula da Silva que tinha, segundo a justiça, também lá comprado uma quinta com dinheiro público (gostava de saber o que há de tão atractivo nas quintas de Atibaia). Terceiro: segundo os caseiros da quinta, Queiroz já estava na propriedade há mais de um ano – propriedade esta que está no nome do advogado de Flávio Bolsonaro (o “zero-um”), Frederick Wassef, que afirmou, também há mais de um ano, que não sabia do paradeiro do antigo companheiro militar de Messias.

Quarto: estava também prevista a prisão da companheira de Queiroz, uma ex-cabeleireira envolvida no chamado “esquema de rachadinha” e que não se encontrava na propriedade no momento da actuação da polícia. Quinto: descobrimos que o Ministério Público divulgou mensagens da filha do ex-sumido, Nathália Queiroz, onde esta o criticava pelas suas articulações políticas e o chamava várias vezes “burro”. Sexto (e talvez mais satírico): Heloísa de Carvalho, filha de Olavo de Carvalho, guru e astrólogo de Bolsonaro, foi quem denunciou, nas redes sociais, a respectiva localização.

Vestido com uma t-shirt de cor “vermelho-PT”, o ex-assessor conhecido como “laranja” (termo que designa uma pessoa que intermedeia transacções financeiras fraudulentas) aparecia nas imagens da sua prisão de braços cruzados e visivelmente cabisbaixo e aborrecido com a surpresa. O momento foi incansavelmente reproduzido nos meios de comunicação e é possível prever que as mesmas imagens sejam repetidas nos próximos episódios. 

E como se já não bastasse, no desenrolar dos enredos secundários, ficamos a descobrir que fora negado o pedido de habeas corpus da “activista” Sara Giromini (também conhecida como Sara Winter, uma versão wannabe brasileira da socialite nazi Sarah Winter, membro da União Britânica de Fascistas no início da Segunda Guerra Mundial) e que o ministro da Educação, Abraham Weintraub, fora involuntariamente demitido pelo “mito” após chamar os ministros do Supremo Tribunal Federal “vagabundos”. 

Weintraub, para concluir a sua majestosa e espectacular gestão do Ministério da Educação, suspende, no dia da sua demissão, o incentivo de inclusão de minorias em cursos de pós-graduação das universidades públicas – pelo menos deve ter assinado a decisão feliz, uma vez que foi indicado por Jair Bolsonaro para ir já trabalhar para o Banco Mundial a ganhar 250 mil ao ano.

Às vezes pergunto-me se não valerá a pena restringir-me aos outros conteúdos menos agressivos à intelectualidade humana, como o tal filme 365 Dias ou La Casa de Papel, mas chego sempre à conclusão de que, como brasileiro, se assim o fizer, vou estar a contribuir para que as próximas temporadas sejam tão agressivas ou mais que estas três últimas – tanto para os personagens como para os telespectadores.