Ex-assessor de Flávio Bolsonaro detido pela Polícia Civil em investigação a esquema de corrupção

Fabrício Queiroz foi na manhã desta quinta-feira detido pela polícia na casa do advogado do chefe de Estado e do filho, onde estava escondido há um ano.

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Fabrício Queiroz é apontado como figura central do esquema de corrupção Sebastiao Moreira/Lusa

A Polícia Civil deteve esta quinta-feira Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, filho do Presidente Jair Bolsonaro, em Atibaia, no estado de São Paulo, no Brasil, que estava foragido há muitos meses. Em causa está uma investigação da existência de um esquema de “rachadinha" (em que funcionários são obrigados a entregar parte dos seus salários ao chefe) no gabinete de Flávio Bolsonaro quando este era deputado estadual no Rio de Janeiro. Queiroz estava escondido na casa do advogado da família Bolsonaro, Frederick Wassef.

A detenção de Queiroz na casa do advogado levou o Presidente brasileiro a convocar uma reunião de ministros para explicar o envolvimento de Wassef no abrigo a um foragido da Justiça e definir uma estratégia governamental para responder à situação. De acordo com o jornal Estado de São Paulo, citando fontes ministeriais, Jair Bolsonaro convocou os ministros da Justiça, André Mendonça, e da Secretaria-geral da Presidência, Jorge Oliveira. 

Nas primeiras horas desta quinta-feira, as autoridades entraram na casa de Wassef, advogado do agora senador, e detiveram Queiroz, apreendendo telemóveis e quantias de dinheiro. “O caseiro informou que ele estava por volta de um ano aqui. Tinham dois funcionários no fundo da casa, em uma edícula [pequena casa]”, disse à GloboNews o delegado Nico Gonçalves. “Dois celulares foram apreendidos, alguns documentos que o Gaeco [Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado do Rio de Janeiro] apreendeu, que pode ser interessante para eles, e um pequeno valor que foi apreendido com ele, que eu não sei exactamente a quantia”, continuou o delegado. 

O motivo da detenção, diz a Folha de São Paulo, foi a interferência de Queiroz nas investigações, ameaçando pô-las em causa, mantendo-se a monte até agora. A sua mulher, Márcia Aguiar, também tem um mandado de detenção em seu nome, sem que as autoridades tenham ainda estabelecido o seu paradeiro. É agora considerada foragida.

De acordo com a TV Globo, o Ministério Público considerou que estavam reunidas três condições para pedir a prisão do assessor de Flávio Bolsonaro e amigo do Presidente desde 1984: continuava a praticar crimes, estava em fuga e manipulou provas para atrapalhar as investigações.

Flavio Bolsonaro reagiu nas redes sociais, afirmando que a detenção de Queiroz é “mais uma peça movimentada no tabuleiro”. "Encaro com tranquilidade os acontecimentos de hoje. A verdade prevalecerá!”, garantiu. 

A operação policial, denominada Operação Anjo, tinha como objectivo a detenção do ex-assessor, de acordo com um mandado emitido pela justiça do Rio de Janeiro, e a apreensão de diverso material que possa dar novas pistas e indicações às autoridades sobre o esquema de “rachadinha” –​ quando funcionários são coagidos a entregarem uma parte dos seus salários aos ocupantes dos cargos públicos, que depois usam essas verbas para proveito próprio ou financiamento de outros projectos políticos.

O Ministério Público do Rio de Janeiro viu ainda o seu pedido de medidas cautelares contra outros suspeitos elementos do esquema ser aprovado pela Justiça do Rio de Janeiro, entre eles o afastamento da função pública, a apresentação mensal às autoridades e a proibição de contacto com testemunhas. Os visados são o funcionário da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro Azeredo Coutinho, a ex-funcionária Luiza Paes Souza, o advogado Luis Gustavo Botto Maia e Alessandra Esteve Marins, actual assessora de Flávio Bolsonaro. 

A investigação começou depois de o Conselho de Controle de Actividades Financeiras ter detectado depósitos bancários considerados atípicos na conta de Queiroz e comunicado às autoridades judiciais. Entre Janeiro de 2016 e Janeiro de 2017, o assessor de Flávio Bolsonaro (próximo do Presidente há muitos anos) recebeu 1,2 milhões de reais (203 mil euros) numa conta e fez uma transferência de 24 mil reais para Michelle Bolsonaro, mulher do Presidente.

Jair Bolsonaro argumentou na altura que havia emprestado dinheiro a Queiroz e aquilo era parte do pagamento e o ex-assessor defendeu-se dizendo que recebia parte dos salários dos funcionários para poder remunerar outros assessores, informais, sem qualquer conhecimento do então deputado federal. Foi, no entanto, incapaz de identificar quem eram esses assessores informais.

Indícios que levaram as autoridades a investigar Flávio Bolsonaro a partir de Janeiro de 2018 sob os possíveis crimes de peculato, lavagem de dinheiro, ocultação de património e organização criminosa. E, em Abril de 2019, a Justiça decretou a quebra de sigilo bancário do agora senador, da sua mulher, de Queiroz e de outras 11 pessoas físicas e jurídicas, recorda a Folha de S.Paulo. Uma das empresas visadas dá pelo nome de Kopenhagen, apontada pelo Ministério Público como entidade usada para proceder à lavagem do dinheiro. 

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